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Natal em julho: crônica de amorosidades – por Amarildo Luiz Trevisan

“Recebi afetuosos acenos que me alcançaram como estrelas em noite clara”

O Natal chegou antes do Natal. Ou talvez o Natal tenha se disfarçado de outra coisa: de reunião de departamento, de nome na chamada pública, de voos que trocam as neblinas da Serra Gaúcha pela maresia de Ponta Negra. O Natal nem precisa de dezembro para acontecer. Basta uma acolhida.

Sou professor aposentado da UFSM, mas “aposentado” é uma dessas palavras que não me vestem bem. Prefiro dizer que sigo em trânsito, agora nesse chão nordestino que já me parece familiar. Trago comigo as marcas do sul, do frio que enrijece os ossos e das lutas que aqueceram o ofício de professor. Da UFSM levo mais que memórias: levo o gosto pela docência, pelos saberes compartilhados e pelos laços que não se aposentam. Como dizia Benjamin, são os fragmentos de experiência que carregamos conosco, que nos recompõem por dentro e dão sentido ao presente.

Agora, aqui na UFRN, mesmo sendo inverno, estou entre o calor dos ventos e dos encontros, sendo recebido como se já fizesse parte da casa. Vim para ser Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação, mas me senti, desde o início, mais hóspede de uma ceia do que estranho em terra nova. E talvez o espírito do Natal seja isso mesmo: chegar e se sentir parte, sem precisar pedir muita licença.

Foi exatamente esse sentimento que me atravessou nos primeiros encontros com os gestores do Centro de Educação com quem tive o privilégio de dialogar até agora. Gilmar e Rita, no âmbito do departamento, acolheram-me com uma atenção tranquila, daquelas que não precisam de palavras longas para dizer: “estamos juntos”. Adir, na linha de pesquisa, abriu caminhos com generosidade e escuta verdadeira, como quem entende que a pesquisa se faz também de vínculos. Já no programa de pós-graduação, encontrei na Érica e no André a delicadeza de quem cuida, organiza e recebe sem alarde, mas com firmeza e afeto. Cada um oferecendo não presentes embrulhados, mas gestos. E há presente melhor que um gesto acolhedor?

Bastou anunciar a chegada para os outros colegas que as portas se abrissem com delicadeza. As mensagens vieram em ondas, como brisa leve soprando por entre as dunas de boas-vindas:

“Bem-vindo professor Amarildo!”
“Será um prazer trabalhar com o senhor!”
“Cheguei para uma temporada e fiquei há mais de 20 anos, sou suspeita…”
“Que sejam dias de amorosidades!”

Foi o que recebi dos colegas do Programa, afetuosos acenos que me alcançaram como estrelas em noite clara. Vieram também os abraços do Departamento: gente generosa que me chamou pelo nome antes mesmo de me conhecer, como se a amizade já estivesse escrita antes do encontro. Entre essas vozes, algumas criaram até palavras novas para me receber.

Confesso que havia um receio em substituir, ou ao menos suceder, o professor Antônio Soares na vaga de Visitante. Não por dúvida sobre mim, mas por reverência ao caminho que ele trilhou. Como seguir os passos de alguém que caminhou tão bem? A resposta talvez esteja no que o Natal ensina: não se trata de substituir ninguém, mas de continuar a história, acrescentando nossa parte com respeito e alegria. Como na tradição dos contadores de histórias, cada um tem sua voz, mas a narrativa é sempre coletiva.

Trago também um violão (canto meio desafinado, admito) e uma plateia fiel de quatro patas. Gatos e cachorro são meus ouvintes dedicados, mesmo quando erro o acorde. E trago crônicas, como esta, que nascem não só de grandes eventos, mas de pequenas epifanias, como aquela vivida em Tabatinga, quando eu e minha esposa saímos para um passeio no fim de tarde e, entre dunas, mar e distração, acabamos nos perdendo. Foi um susto e tanto até reencontrarmos o caminho de volta. Mas, no meio da incerteza, algo se revelou: às vezes, é justamente quando nos perdemos que a vida nos oferece a chance de recomeçar.

Talvez por isso eu esteja aqui: para reaprender. Para oferecer o que trago, mas também para me deixar transformar. Porque a vida acadêmica, como a vida natalina, se faz nos encontros. E nos reencontros. E naquilo que ainda vamos construir.

Deixo aqui um gesto de gratidão a todas/os que me escreveram, comentaram, sorriram ou apenas pensaram com amorosidade: “Seja bem-vindo”. Ser bem-vindo é entrar numa casa e perceber que o lugar para sentar já estava reservado. E talvez seja disso que a filosofia também se ocupa: da arte de saber chegar.

Que esta terceira crônica de Natal seja também o prenúncio de uma travessia serena e fecunda. Daquelas que a gente percorre com o coração aberto e os sentidos despertos. Foi o que me desejou, com afeto e delicadeza, meu amigo Noeli Rossatto (UFSM). Ele morou na Espanha e conhece bem as coisas do mundo e da alma. Ao se despedir, disse com ternura: “Que te vaya bonito”. Mal traduzindo, é como se diz por aqui – um “oxente” cheio de afeto, de quem está chegando com a alma aberta.

(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.

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