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Laure, Mickael e os outros – por Bianca Zasso

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Qual seria a mais complicada das tarefas dos mortais? Sobreviver? Dar conta do trabalho e da família? Suportar o trânsito caótico sem enlouquecer? São árduos os desafios do cotidiano, porém, acredito que difícil mesmo seja crescer. Não falo em centímetros, mas em crescer “por dentro”, amadurecer, criar aqueles calos que permitem que encaremos os desafios que o mundo apresenta.

Acredito que é possível crescer até no leito de morte, no entanto a fase em que descobrimos as maiores respostas da vida é, sem dúvida, a adolescência. Não é fácil nem para o mais evoluído dos jovens, quem dirá para alguém que tem um corpo que não é como você gostaria que fosse. E não é ser acima ou abaixo do peso “ideal”. É ter a forma que você não é.

Tomboy, dirigido pela talentosa Celine Sciamma (do ótimo Lírios d’água) é a história de uma menina que gosta de ser tratada como menino. O termo que dá nome ao filme refere-se às pessoas assim, um tipo de gíria que dominou até o mundo da moda, com grifes que criaram coleções no tomboy style. A protagonista criada por Sciamma, Laure, se encaixaria perfeitamente num editorial desta tendência.

Ao mudar-se junto com os pais e a irmã mais nova, Jeanne, para um novo condomínio, ela quer fazer novos amigos. Ao encontrar a vizinha Lisa, que a confunde com um menino, Laure se apresenta como Mickael. É o início da vida dupla. Diante da turma moradora do prédio, ela é um garoto. Em casa, é a irmã carinhosa de Jeanne, que brinca de boneca. Tudo anda bem: as descobertas típicas da idade andam lado a lado com os criativos truques que Laure utiliza para “ser” Mickael.

Em nenhum momento de Tomboy existe crise existencial. É esse o grande diferencial do filme quando comparado a outras produções com a mesma temática. Laure e Mickael convivem em harmonia. Ela se aceita e só quer seguir seu caminho. Óbvio que manter seu “segredo” faz parte da rotina. Laure é madura o suficiente para saber que sua condição não é algo fácil de ser compreendido por alguns.

É triste, mas vivemos em um lugar onde quase tudo ganha um rótulo, inclusive pessoas. E eles precisam ser imutáveis. É preciso explicar quem é Laure/Mickael. Poucos são os que compreendem que nossos desejos não precisam de explicação.

Além das atuações primorosas, em especial do elenco juvenil, com a talentosa Zoé Héran e seu olhar encantador, Tomboy une seu roteiro bem acabado com um fotografia com tons de infância interiorana. Próximo ao condomínio cheio de concreto há um bosque, que é o pano de fundo para os momentos de solidão da protagonista. Algo como um chamado da natureza. Se os vizinhos não aceitam suas escolhas, Laure/Mickael se refugia entre as árvores. Sozinha, ela pode ser quem bem entender.

Um detalhe que parece não ter muita importância, à primeira vista, dentro da trama de Tomboy é o fato da mãe de Laure estar grávida. Ou seja, vai colocar mais uma criatura nesse mundo complexo e, na maioria das vezes, injusto. Ela e o marido aceitam a filha do modo como ela é, mas sabem que do lado de fora de casa a rotina não será fácil para ela. Mas nem por isso força sua primogênita a se encaixar em um padrão. Ela sabe que só depende de nós, pais ou futuros pais, criarmos uma geração que não seja preocupada em ser meninos ou meninas. Ser humano é o que importa. Isso poucos são.

Tomboy

Ano: 2011

Direção: Celine Sciamma

Disponível em DVD, Blu-Ray e na plataforma Netflix

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Um Comentário

  1. Já tinha esse filme na lista para assistir e agora quero ver ainda mais. Concordo contigo: ter a forma do que não se é deve ser a coisa mais dolorosa.

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