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Argos, a sociabilidade e a vida cotidiana – por Luiz Carlos Nascimento da Rosa

Que têm em comum os cães Costelinha e Pernalonga com Escola e Educação

Homero (Sec. VIII a.C.) escreveu a monumental tragédia grega: Ilíada e Odisséia. Ao flanar sobre a obra de Homero deparar-nos-emos com grandes ensinamentos para a vida humana, apesar de estarmos no contexto da Mitologia Grega. A obra do Mestre parece que exala todos os sentimentos que emanam da Caixa de Pandora: amor, ciúmes, traições, inveja, ódio e um certo grau de esperança. Não quero escrever sobre o transloucado amor do troiano Páris pela espartana, quase, Deusa Helena que deu início a Epopeia da estonteante Guerra de Troia.

Tem uma passagem da Odisséia que sou apaixonado. Ulisses, o chefe da esquadra espartana, depois de vinte anos chegava no seu reino de Ítaca em busca do seu grande amor Penélope. Sua Deusa protetora, Atena, o transfigurou em um moribundo para evitar que os invejosos o matassem ao reconhecê-lo. Um fato inusitado aconteceu. Ulisses tinha um Cão chamado Argos. Pelo tempo que seu dono ficou fora (vinte anos), o seu Argos estava entregue à decrepta vida.

O inusitado acontece com os desígnios divinos. Estamos falando do trágico. Argos, no final de seu tempo, reconheceu seu amado dono, sacudiu as orelhas e o seu pobre rabo e findou sua parca e sofrida existência. Com uma licença poética quero pensar que aí está a origem da expressão que “o cachorro é o melhor amigo do homem”.

Meus amados filhos, em tenra idade, quando viam cocô e sujeira na calçada ou rua, de forma intempestiva, alertavam-me: papai olha a cacaca! Sem saber eles estavam apropriando-se de regramentos para uma salutar sociabilidade.

Eu moro no Bairro Nossa Senhora de Fátima, rua Barão do Triunfo meia quadra da Rua Professor Teixeira e Presidente Vargas. Lugar lúdico e bom de viver.

Em cada esquina, ou quase isso, existe um contêiner para jogarmos o lixo e o indesejável. Todos já viram que famílias vivem do resto do banquete que não nos interessa mais.

O contêiner é o lugar para colocar os dejetos que irão ferir nosso, talvez, inequívoco processo civilitório. É um verdadeiro descalabro e temos que fazer peripécias para andar nesse harmônico e lindo lugar.

O que existe de cacaca de cães em nossa calçada é um verdadeiro absurdo. Aqui o absurdo não é a tese existencialista de Albert Camus (o suicídio ou morte) e sim a falta de conhecimento ou interesse pelo regramento de convivência social.

Quase jogo oferendas no Oráculo de Eros, tendo em vista que esse comportamento não é maioria. Caso assim fosse nosso bairro seria intransitável pois viveríamos, literalmente, mergulhados na merda.

Felizmente, isso não é norma de conduta e comportamentos de todos.

Ainda existe saída para um mundo civilizado. No Restaurante Churrasquinho Gaudério partilho, colaborativamente, com o Gustavo e a Maria. Esse amável casal possui dois maravilhosos cãezinhos: o Costelinha e o Pernalonga. A educação e elegância do Costelinha e Pernalonga, sentadinhos na cadeira, admirando prazerosamente seus amigos degustarem um excelente banquete. O Pernalonga e o Costelinha sabem que esse suculento menu será, graciosamente, partilhado com eles. É a dialética do amor, solidariamente, desfrutado entre homo sapiens e cães.

Para terminar quero lembrar do pobre pastor Narciso. Humilde, o pastor Narciso virou sinônimo da grande patologia psíquica da modernidade. Será que essa gente que não conhece o mínimo de civilidade não pode colocar o seu cãozinho fazer cacaca no meio de sua sala antes de desfrutar o barato concreto, da beleza, de nosso bairro Nossa Senhora de Fátima?

Preste atenção a cacaca e o contêiner que está em sua frente.

Qual é o pecado de pegar uma singela sacolinha para juntar as cacacas. Antes de sair de seu confortável apartamento não esqueça que vives em sociedade e que essa saudável convivência pressupõe alguns singelos regramentos.

Eu quero ter a liberdade de perder-me diante da exuberância das majestosas árvores da rua Barão do Triunfo, mas jamais do relaxamento e irresponsabilidade dos seres humanos que transitam com os cãesinhos que querem ter a liberdade de fazer cocô!

Alguém escreveu que não devemos confundir Escola com Educação. Faz muitos anos que nós, profissionais da Educação, falamos que o conhecimento escolar não vai fazer qualquer revolução. Mas é impossível pensar na mudança de uma Filosofia de Vida e uma transformação da vida sem uma transformação da Filosofia de Vida, sem os fazeres e saberes que medeiam nossa vida através do tadinho lugar chamado Escola e um trabalhador chamado Professor!

Não sejamos irresponsáveis de imputar culpa aos nossos melhores amigos. Façamos como o Ulisses, Gustavo e a Maria e vamos dividir o amor do Argos, Costelinha e o Pernalonga. A generosidade e o amor indicam que estamos de bem com uma vida digna e nosso processo civizatório.

(*) Luiz Carlos Nascimento da Rosa é professor aposentado do departamento de Centro de Educação da UFSM.

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4 Comentários

  1. Pessoal tem uma mentalidade burocratica. Pensam que se a criatura fizer um curso de ética e ganhar um certificado ‘reconhecido pelo MEC” vai mudar e se tornar ética. Mais ou menos como o pessoal feminista do ‘não é não’. Se um casal se conhecer na balada e irem para algum lugar para dedicar-se a ‘atividade amorosa’ antes de começarem os ‘trabalhos’ o cidadão vai ter que pedir uma declaração por escrito (gravar um video é complicado) da cidadã afirmando que a relação é consensual. Caso contrario corre o risco de ser denunciado depois. A moça pode ter como objetivo um relacionamento, por exemplo, coisa que não é objetivo do varão. Rejeição pode ter consequencias indesejadas. Declaração elaborada por alguém do juridico diga-se de passagem.

  2. ‘Eu moro no Bairro Nossa Senhora de Fátima, rua Barão do Triunfo meia quadra da Rua Professor Teixeira e Presidente Vargas. Lugar lúdico e bom de viver.’ Antigamente tinha tanque com tartarugas e um ‘labirinto’ por ali. Epoca do supermercado Real que tinha uma banca de revistas na entrada.

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