O sentido do verdadeiro Natal – por João Luiz Vargas
'Manjedoura tornou-se para mim símbolo incontornável da opção pelos pobres'

Fui criado em um processo cristão no qual, muitas vezes, a figura do Papai Noel se sobrepunha à de Cristo Jesus, justamente naquele tempo em que celebramos o nascimento que dá sentido à data. Essa sobreposição sempre me provocou inquietações.
As narrativas sobre José e Maria, que percorreram estradas e caminhos em busca de um lugar onde Maria pudesse dar à luz o Filho de Deus, e que encontraram abrigo pela generosidade de um campesino que lhes cedeu uma estrebaria, marcaram profundamente aquele guri de calça curta, suspensórios e pés no chão. Desde cedo, fiquei imaginando a relação entre os poderosos e aqueles que apenas precisam de abrigo, solidariedade e amor.
A manjedoura, onde após o nascimento de Jesus era colocada a ração destinada aos animais, tornou-se para mim um símbolo incontornável da opção pelos pobres. O Filho de Deus poderia ter nascido nos palácios onde nasciam os filhos dos dominadores, mas escolheu vir ao mundo na Galileia, terra de agricultores e pescadores, onde a simplicidade revelava a espiritualidade presente na caminhada de Jesus.
Talvez seja possível, então, reconciliar a imagem do Papai Noel com a mensagem que atravessa o Natal. Não como símbolo do consumo ou da desigualdade, mas como metáfora da generosidade gratuita, do gesto silencioso de quem oferece sem esperar retorno. Quando despido do excesso e recolocado ao lado da manjedoura, ele pode representar a disposição humana de partilhar, de aquecer o inverno do outro e de lembrar que dar também é um ato de fé.
Resta a cada um de nós decidir onde repousa o sentido do Natal. Se no brilho passageiro das vitrines ou na simplicidade de um nascimento que escolheu a margem. A reflexão permanece aberta, como um convite íntimo para reconhecer, nos pequenos gestos e nas escolhas cotidianas, qual mensagem seguimos celebrando.
(*) João Luiz Vargas, ex-prefeito de São Sepé, ex-deputado, ex-presidente da Assembleia Legislativa e ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado). Ele escreve no site às sextas-feiras.





Problema do Brasil é que tem um monte de gente que fez ‘opção pelos pobres’ e a cada dia fica mais rico.