Governar sobre as cinzas – Trump, os Bolsonaros e a lógica destrutiva do poder – por José Renato Ferraz da Silveira
O articulista e a relação entre o presidente do EUA e a família hoje na oposição

Há uma frase atribuída a Sun Tzu que atravessa séculos com perturbadora atualidade:
«“Um homem mau queimará sua própria nação até o chão, só para governar sobre as cinzas.”»
Pouco importa se a frase aparece literalmente em A Arte da Guerra. O que importa é a verdade política contida nela. E poucas vezes essa lógica apareceu de forma tão explícita quanto na relação contemporânea entre o trumpismo norte-americano e o bolsonarismo brasileiro.
Durante décadas, parte significativa da direita conservadora defendia algo relativamente simples: estabilidade institucional, patriotismo econômico, ordem e previsibilidade internacional. O trumpismo alterou profundamente essa lógica. Transformou a política numa máquina permanente de ressentimento. Já não se governa para estabilizar a sociedade; governa-se para incendiá-la emocionalmente.
Donald Trump compreendeu algo essencial da era digital: o caos mobiliza mais do que a estabilidade. O conflito produz mais engajamento do que a moderação. A raiva fideliza. O medo organiza. E a existência de um inimigo permanente mantém viva a tribo política.
O problema é que esse modelo exige destruição contínua.
Nos Estados Unidos, isso significou desacreditar eleições, atacar universidades, demonizar a imprensa, corroer a confiança institucional e transformar adversários políticos em inimigos existenciais. O Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, não surgiu do nada. Foi a consequência simbólica de anos de radicalização performática.
No Brasil, o bolsonarismo importou essa lógica quase integralmente.
A retórica do “quanto pior, melhor” deixou de ser mera caricatura oposicionista para se tornar método político. O país passou a ser tratado não como comunidade nacional, mas como campo de batalha cultural permanente.
A consequência inevitável é a corrosão do próprio tecido nacional.
Quando Eduardo Bolsonaro celebra pressões internacionais contra o Brasil, quando tarifas externas são tratadas como instrumento aceitável de disputa política doméstica, quando o desgaste econômico do próprio país é relativizado em nome da vingança ideológica, a frase atribuída a Sun Tzu deixa de soar como metáfora histórica e passa a descrever concretamente o presente.
O patriotismo, então, converte-se em espetáculo.
Bandeiras gigantes. Discursos inflamados. Performances nacionalistas.
Mas acompanhados de algo profundamente contraditório: a disposição de fragilizar as próprias instituições nacionais para preservar um movimento político.
É um nacionalismo curioso: ama-se abstratamente a pátria enquanto se sabota concretamente sua estabilidade.
Trump opera exatamente da mesma forma. Sua política comercial agressiva raramente se limita à economia. Tarifas tornam-se armas simbólicas. Relações diplomáticas transformam-se em instrumentos emocionais. Alianças históricas tornam-se descartáveis caso deixem de alimentar sua narrativa interna de força, revanche e humilhação dos adversários.
O objetivo central deixa de ser prosperidade nacional. Passa a ser domínio narrativo.
E é aqui que a advertência atribuída a Sun Tzu ganha profundidade quase trágica: certos líderes não temem destruir parte do próprio país porque extraem poder justamente da destruição.
O incêndio político torna-se funcional.
Sociedades polarizadas permanecem mobilizadas. Sociedades tensas tornam-se emocionalmente dependentes. Sociedades em conflito permanente deixam de discutir racionalmente problemas reais.
Tudo vira guerra cultural. Tudo vira espetáculo. Tudo vira batalha moral absoluta.
O resultado é devastador.
A confiança institucional evapora. O debate público degrada-se. A verdade torna-se relativa. A política transforma-se em seita emocional. E a democracia deixa lentamente de funcionar como espaço de convivência entre divergentes.
Governar sobre as cinzas talvez seja exatamente isso: vencer politicamente em um país progressivamente mais fragmentado, mais exausto e mais incapaz de reconstruir consensos mínimos.
A tragédia política é que líderes incendiários quase sempre sobrevivem politicamente ao fogo que provocam.
Quem permanece cercado pelas cinzas é a sociedade.
E talvez a parte mais sombria do nosso tempo seja justamente esta: não há qualquer garantia de renascimento. Nem toda civilização encontra uma Fênix.
(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, Professor Titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Editor-chefe da Revista InterAção. Pesquisador das relações entre política, arte, tragédia e história das Relações Internacionais.





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