Quem fugiu? – por Alice Elaine Teixeira de Oliveira

Quem fugiu? - por Alice Elaine Teixeira de Oliveira - alice-2Por volta de umas 15h num dia de outono, quem sabe inverno, a loja Eny Calçados estava cheia, diria abarrotada de pessoas. Num tempo que o comércio localizava-se dentro de uma galeria, bem no coração do comércio santa-mariense. Havia um brinquedo no meio da loja onde a menina de conjuntinho moletom vermelho costumava brincar. Era uma espécie de carrossel, a criança sentava e girava seu assento em torno de um guidão fixo, havia lugar para várias crianças sentarem-se e girarem em conjunto, porém ela estava sozinha por ali…

A mãe da menina, no começo da década de 1980, a deixara ali enquanto aproveitava as ofertas de sapatos, sempre com seu olhar atento. Entre um calçado e outro, durante as provas, mantinha os olhos na garota de quatro anos que sempre foi extremamente ativa e serelepe. Em casa aprontava todas! Com seis meses aprendeu a equilibrar-se sozinha e a andar, com 9 corria por entre os corredores do HGuSM, de tiptop. Com menos de um ano a garotinha já havia pulado uma janela, enganado sua babá e saído, escondida, para comprar carne no açougue próximo; sorte que uma vizinha atenta estava de olho na malandrinha…

Naquele dia, a jovem menina precoce estava se divertindo muito com o brinquedo enquanto a mãe aproveitava as promoções e descontos. Foi, então, que a mãe da garota aproximou-se e comunicou à menina que iria sair um pouco do campo de visão, ela iria entrar na fila para pagar as compras, e apontou para o Caixa da loja. Uma fila imensa já havia no lugar. Aquilo parecia um formigueiro, um movimento alucinante de gente, mulheres e caixas. Sapatos, botas e sandálias, todo tipo de calçados estavam por todos os lados. O revestimento do piso era de um acarpetado marrom, mas pouco podia se ver daquilo devido à existência de tantas pessoas no local.

O tempo foi passando e os giros do brinquedo foram entediando a mente da jovem garotinha. O cheiro dos sapatos, o burburinho das conversas, a falta de outras crianças, tudo foi motivo pra fazerem o brinquedo de rodar algo sem graça e até mesmo enjoativo. E ela saiu dali, indo direto até a fila do Caixa da loja, a procura de sua mãe.

Revisou pessoa por pessoa, mulher por mulher, fila por fila, pois havia mais de um guichê de Caixa. Onde havia de se encontrar a sua mãe? Não se lembrou da fila do Pacote, afinal, ela tinha apenas quatro anos. Porém, pensou, tranquilamente: – Minha mãe esqueceu que eu estava aqui e foi para casa…

Uma criança de apenas quatro anos e nem sequer pensou que havia sido abandonada, ou sentiu medo, ou rancor por sua mãe ter se esquecido dela. Simplesmente decidiu que voltaria para casa, pois sabia o ônibus que deveria tomar e sabia ler, o Vila Oliveira, sabia onde era sua parada, a poucos metros de sua casa, em frente ao açougue que bem conhecia…

Então saiu da loja e aventurou-se sozinha pelo calçadão da cidade de Santa Maria, sem pressa e com toda a paciência e segurança do mundo. Gastou tempo na vitrine da Loja Macedo, ela não poderia deixar de passar por ali. Namorou o balcão dos Churros Zimmermann, mas entrou num outro restaurante após a curva para gastar os cruzeiros que ganhou de seus pais e economizava.

Enquanto isso a sua mãe já estava em desespero a sua procura, descobrira que havia saído da loja. Procurou e deu voltas. Perguntou e encontrou outra mãe solidária que havia perdido um dos filhos em alguma outra semana passada. Foi quando um homem atento, provavelmente um aposentado próximo à agência da Caixa Federal notou o desespero das mulheres e aproximando-se perguntou se ela procurava alguém. Quando a resposta foi positiva, ele mesmo descreveu a roupa da menininha.

– Eu vi uma menina de conjuntinho vermelho acabar de dobrar aquela esquina. Parecia sozinha, eu desconfiei que estava…

A mulher mal agradeceu e saiu correndo!

Encontrou a fujona chegando na parada do ônibus da Venâncio. Sentiu um alívio indescritível, mas quando a confrontou teve que ouvir da menina:

– Mãe… por que tu me fugiste??? Quer bala????

OBSERVAÇÃO DA AUTORA: a foto que ilustra essa crônica foi reproduzida da internet, e não tinha autoria identificada.



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