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Uma Vida Em Cem Metros – por Pylla Kroth

Como de costume, saio caminhar com meu cachorro todas as noites após a refeição – ele está velhinho e gordinho e precisa fazer um exercício, e esta é uma boa desculpa pra mim acompanhá-lo e tentar sair um pouco do meu sedentarismo – quase não passo mais por magro “fisicamente” falando.

Nos primeiros cinquenta metros de caminhada, a primeira parada. Um senhor grisalho me interrompe e pergunta:“tu não és o Pylla?”, “sim, sou o Pylla” e ele começa me contar uma história marcante na sua vida de quando tinha seus 15 anos e eu havia lhe recrutado na escola Pão dos Pobres para me auxiliar em minha oficina de serigrafia a fim de confeccionar sacolinhas de supermercados, quando esse tipo de impressão em série quase não existia por aqui e a impressão era manual. Minha cabeça voltou no tempo, olhei bem nos olhos daquele senhor e visualizei aquele menino, as rugas estavam apenas em seu rosto, mas não em sua alma, hoje velho caminhando com sua esposa e filhos, vivendo bem sucedido e dos dias difíceis que passamos juntos em busca de uma vida melhor. Nos abraçamos e nos emocionamos, eu um cantor, e ele agora um enfermeiro. Na verdade, eu sempre cantor, como ele fez questão de frisar. Trabalhávamos cantando. Lembramos até de algumas que cantávamos juntos. Um momento gostoso de lembranças.

Nos despedimos, dou uma respirada saborosa, sigo mais uns dez passos, e sou interpelado novamente, desta vez por um velho amigo também irreconhecível na aparência, tamanha foram as tragédias na vida dele, pois ele foi um dos soldados chamados na noite trágica do incêndio da boate Kiss. Relatos íntimos de tirar meu fôlego, ele foi um dos primeiros a adentrar na boate. Eu nunca tinha tido a oportunidade de conversar com alguém que entrou lá naquela noite, frouxou minhas pernas ao ouvi-lo. Por último, ele já em lágrimas me falou “fiz o que pude, Pylla, mas não estávamos preparados pra socorrer um acontecimento terrível daqueles, e gostaria que ao menos você me perdoasse, esse perdão catalizador que cria a ambiência necessária para uma nova parida, para um reinicio. Trabalhas na noite e teu perdão é muito importante pra mim”. Caracas! Juro que nessa hora senti coisas estranhas ao meu redor e em meu corpo, vozes de compaixão e de perdão. Quem sou eu para julgar ou condenar quem quer que seja? Os detalhes do meu sentimento naquela hora não cabe aqui escrever. Mas abracei ele e lhe dei o meu perdão, era isso que eu tinha pedido aos deuses na virada do ano, perdão e compaixão; foram segundos que duraram horas, talvez vidas, fato que em todo caso não cabe a mim julgar, quem sou eu pra tal perdão? Coisas que nunca tinha me passado desde aqueles dias fatídicos. Aos choros e sorrisos me despeço, sinto meu corpo pesado, minhas pernas travaram.

Caminho mais um pouco com minha cabeça rodando e logo adiante uma senhora me pergunta se o cachorrinho com quem eu estava caminhando era meu, e confirmo, “sim, é meu!” e ela então se identifica: “tu não lembras de mim? Sou aquela que foi tua vizinha, décadas atrás e que tu chamava de “mulher gato!”. Olhei bem pra ela e consegui ver a senhora que morava perto da minha casa e que, agora ela me confirma, possuía oitenta gatos de estimação. Isso mesmo, oitenta! Eu na época não tinha gatos em casa – hoje tenho cinco – e não conseguia entender tamanha loucura em ter aquela “gataiama” toda em casa. Ela me conta que sabia o nome de todos e que cada um deles tinha seu momento particular em seu colo todos os dias, algo difícil de explicar, mas hoje pra mim foi tão fácil entender. Ela me confessa que tinha tantos por ser contra castração, pois não se acha até hoje no direito de impedir a procriação, “mas cada um cada um”. Porque esperei tanto tempo para conversar com ela? Por que hoje? Amigos sinceramente, acho que nesta minha caminhada diária, juro, eu não estava sozinho! O que esta mulher me confidenciou não consigo aqui explicar de tão emocionante e espiritual. Novamente uma despedida e desta vez eu é que peço desculpas por chamá-la na época de “mulher gato” pejorativamente. Ela olha bem pra mim, respira e me diz: “Estás perdoado! Tu e todos nossos vizinhos, pois pouca gente entende outros seres além de si mesmos, e às vezes nem a si mesmos! Somente o tempo mostra, e com você foi agora, fico feliz e aliviada, teu tempo chegou”.

Ufa! Volto caminhar tentando assimilar tudo em tão poucos metros de caminhada e quase chegando de volta em casa ouço gritos do outro lado da rua, “Pylla meu velho amigo! Quanto tempo!” Era uma banda inteira de músicos vindo ao meu encontro, acompanhados de um músico muito especial que eu não há via a décadas, e que mora atualmente na Europa e faz sucesso no velho mundo. Vários abraços, mais emoção, mais recordações fortes espiritualmente, e enfim a velha frase: “o que a vida fez de nossas vidas!”.

Envelhecemos mais que o programado, rugas, mas concluímos que ao menos os nossos cabelos foram generosos conosco! Nossos sonhos em parte se realizaram e por isso continuamos sonhando e espalhando música, a mais bela forma de expressão humana. Os acompanho até a porta do bar onde os malucos iriam se apresentar e me convidam pra entrar, peço que o porteiro observe meu cachorro na entrada pra leva-los bar adentro.

Nisso, o bar todo se levanta em aplausos imaginando minha participação surpresa no espetáculo. Enquanto abraço amigos de anos, um senhor se levanta e vem em minha direção, neste momento meu coração tremeu, pensando quem seria desta vez. Será que tudo vai acontecer hoje? Será hoje meu fim? Me abraça e se apresenta, dizendo saber muito bem quem eu sou desde 1970, quando partiu para um centro maior em busca de uma vida melhor, saindo lá da minha querida Tapera. Choro novamente, recordo novamente uma vida inteirinha em um minutinho. Ademais ele me confessa ser pai de uma cantora e apresentadora famosa e que eu nunca tinha associado ao seu sobrenome. “Vou falar pra ela de ti, Pylla, e contar quem tu foi na minha vida!”

Que coisa, amigos, que coisa! Nesta noite descobri que dependo de outras pessoas para o meu crescimento e entendimento do universo sem fim. Há dias que a gente respira, há dias que a gente vive e revive! Isso me faz lembrar a canção do Poeta, cantador Rolando Boldrin, “Vida Marvada” que diz mais ou menos assim: “Corre um boato aqui donde eu moro, que as mágoas que eu choro são mal ponteadas. Que no capim mascado do meu boi a baba sempre foi santa e purificada. Diz que eu rumino desde menininho, fraco e mirradinho, a ração da estrada. Vou mastigando o mundo e ruminando e assim vou tocando essa vida marvada! É que a viola fala alto no meu peito humano. E toda moda é um remédio pros meus desenganos. Pra todo aquele que só fala que eu não sei viver, chega lá em casa pruma visitinha que no verso ou no reverso da vida inteirinha há de encontrar-me num cateretê. Tem um ditado tido como certo, que cavalo esperto não espanta a boiada e quem refuga o mundo resmungando passará berrando essa vida marvada. Cumpadi meu que envelheceu cantando diz que ruminando dá pra ser feliz. Por isso eu vaqueio ponteando e assim procurando minha flor de lis”.

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