Ética, que ética? – por Orlando Fonseca

Infelizmente, no Brasil, a ética vem depois do casuísmo, do corporativismo, até no dicionário, e ainda tem a malandragem parlamentar. Na trajetória pelo oceano, até atingir as costas do Pindorama, os europeus tiveram de deixar boa parte da carga pelo mar. Junto com mantimentos e equipamentos, foram deixando pelo caminho alguns traços de caráter moldados pela civilização. Aliás, alguns dos que vieram colonizar este país para a coroa portuguesa, saíram direto da cadeia para os navios de Pedro Álvares Cabral. O resto é história, como se pode ver na claudicante república brasileira, ainda em formação, ainda convalescente de décadas de um regime de exceção. Vide como se comportam as autoridades públicas, como são as votações no Congresso e como o povo interage na vida cotidiana, em que vale a “lei-de-Gérson”: tem que levar vantagem em tudo, certo?
Errado. Viver em sociedade requer um aprendizado primário que é o de aprender a respeitar o espaço do outro. Quando ainda vivíamos em cavernas, estava em vigência a lei do mais forte, em que o respeito era garantido pela habilidade no manejo do tacape. Ao construirmos comunidades, cidades, espaços urbanos, fomos criando junto a urbanidade, o pacto de cada cuidar da sua vida e contribuir com a manutenção da vida de todos – a convivência e a solidariedade. Para resumir a ética, algo necessário e fundamental para a gestão, a gerência e a permanência segura do sistema. Neste imenso país-continente, formado com a chegada dos europeus (para não dizer a invasão), como não tivemos uma antiguidade greco-romana, não tivemos uma Idade Média, não tivemos a emergência da idade da Razão, do Iluminismo, da filosofia e da ciência, fomos inventando o nosso modo, que se resume no que chamamos, carinhosamente de “jeitinho brasileiro”.
Está na História da nossa formação, a partir das Capitanias hereditárias, das Entradas e Bandeiras, nas disputas entre as coroas portuguesa e espanhola. Longe da Europa e com necessidades, digamos, mais ou menos civilizadas, o jeito era ir se virando como dava, com o que havia disponível. Não era nem a vida dos povos originários, portanto já muito adaptados a ela, junto à natureza selvagem, nem a vida que tinham no Antigo Continente. Sem o alcance da civilização, e, na urgência de viver, tiveram de improvisar tudo, inclusive a vida em sociedade. Isso deu lugar à inventividade (na cultura e na subjetividade) e às solução técnicas, que deram na “gambiarra”.
Por isso temos sido surpreendidos a cada dia com notícias, ainda estarrecedoras, como a presença do PCC (grupo formado por líderes de facções, milícias, bandidos e traficantes) no mercado de capitais, sintetizado pelo lugar nobre do Rio de Janeiro: a Rua Faria Lima. Isso é um sintoma de que, em nosso país, o crime organizado está mais organizado do que nunca, o que exige que a polícia e todo o sistema judiciário precisam ser ainda mais organizados. Como se diz pelo mundo: para investigar as falcatruas, os desvios, as fraudes, é preciso “seguir o dinheiro”.
De modo que, mais do que reformas, o país precisa de mudanças estruturais no próprio exercício da cidadania (será dureza vencer séculos de “jeitinho”). O que temos visto no Congresso nacional (já anteciparam as eleições de 2026) ilustra as aberrações. O chamado “Centrão” não é uma posição ideológica, mas fisiológica: só apoia o vencedor (e agora, inclusive, subverte a ética de ser base do governo nas votações). E numa democracia representativa, tudo o que deve ser feito deve ter um só vencedor: o país, o interesse do povo. Brasil acima de tudo tornou-se um slogan esvaziado por uma péssima gestão, e por mistificações que entraram no imaginário social de um vasta parcela ignara da população. No entanto, e aí a urgência histórica: precisa ser resgatado, sem as bobagens, patacoadas, patriotices, e sim com ética, com respeito às leis, com resguardo dos pilares dos três poderes e com a construção coletiva do bem comum.
(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela “Da noite para o dia”.





Resumo da opera IV. Crime organizado vai encontrar outra forma de lavar dinheiro. Ainda tem fontes de renda. Ainda tem mercado consumidor. Ainda tem produção/operações. Possivelmente vai sofisticar. Detalhe importante: no Brasil o trafico de drogas como fonte de renda é uma fração do que era antes. O internacional continua como sempre. Porém outras fontes de renda importantes existem. Controle de território é um. Alas, uma facção do RJ já tem uma filial importante na Bahia.
Resumo da opera III. Absolutismo moral. Principios universais independentes de contexto ou cultura. Quando não interessa parte-se para o relativismo.
Resumo da opera II. Falar em ética geralmente é amanteigamento para falar mal de alguém ou de alguma coisa depois.
Resumo da opera. Tudólogo que se resume a ‘o que a gente não sabe a gente inventa’.
‘No entanto, e aí a urgência histórica: precisa ser resgatado, sem as bobagens, patacoadas, patriotices, e sim com ética, com respeito às leis, com resguardo dos pilares dos três poderes e com a construção coletiva do bem comum.’ Não podia faltar uma exortação inútil.
Alas, todo mundo pensa nos interesses do pôvú e está como está. Imagino se não pensassem.
‘ E numa democracia representativa, tudo o que deve ser feito deve ter um só vencedor: o país, o interesse do povo.’ Como em quase todo setor, na prática a teoria é outra. Outra coisa que o pessoal da academia, os/as ‘idealistas’ e a galera do juridico não tem capacidade para compreender. Tentar aplicar filosofia na base do ‘dura lex, sed lex’ na sociedade vai causar muitos mais problemas do que resolver alguma coisa.
Problema do Centrão não é ser ‘fisiologico’. Problema é ser um amontoado de gente tosca, despreparada. Problema é serem paroquiais. Alas, uma grande diferença dos senadores gauchos, por exemplo. Estes tentam ‘pensar o Brasil’ e dão impressão de abandonar a província. Os de outros estados pensam em resolver os problemas do local de origem.
‘O chamado “Centrão” não é uma posição ideológica, mas fisiológica: só apoia o vencedor (e agora, inclusive, subverte a ética de ser base do governo nas votações).’ Porque agora tem emendas impositivas e não tem Mensalão.
‘O que temos visto no Congresso nacional (já anteciparam as eleições de 2026) ilustra as aberrações.’ Campanha iniciou quando Rato Rouco afirmou a primeira vez que seria candidato a reeleição. Não adianta jogar a culpa nos outros. Alas, a campanha antecipada é muito boa como cortina de fumaça.
‘[…] o país precisa de mudanças estruturais no próprio exercício da cidadania (será dureza vencer séculos de “jeitinho”).’ Mudanças culturais levam gerações e não são feitas com canetaços, normas ou ‘conscientização’.
‘Como se diz pelo mundo: para investigar as falcatruas, os desvios, as fraudes, é preciso “seguir o dinheiro”.’ Chavão. Falar é fácil, produzir textos também.
‘[…] o crime organizado está mais organizado do que nunca, o que exige que a polícia e todo o sistema judiciário precisam ser ainda mais organizados.’ Kuakuakuakuakuakua! Crime organizado não tem que seguir norma nenhuma além das proprias. Faz uma enorme diferença.
Ainda no ramo de assassinato de reputações. Um bando de retardados tentou imputar a um video de janeiro (Nicolas Ferreira e o PIX) todo o problema de lavagem de dinheiro, ‘encaixar’ fake news, etc. Sendo que a coisa toda começou em 2021 com investigação da Receita Federal e do MP de SP. Coisa de gente ‘superética’. Para nossa felicidade, retardada mental.
Importante. Avenida Faria Lima, a da operação, fica em SP. A enfase é para ‘construir uma imagem negativa’ do mercado financeiro. Porém na mesma avenida existem clubes, shopping centers e até agencia da CEF.
‘Por isso temos sido surpreendidos a cada dia com notícias, ainda estarrecedoras, como a presença do PCC (grupo formado por líderes de facções, milícias, bandidos e traficantes) no mercado de capitais, sintetizado pelo lugar nobre do Rio de Janeiro: a Rua Faria Lima.’ Surpresa zero. Envolvia também postos de combustiveis, o nome da operação é ‘Carbono Oculto’. Crime ainda adquiriu um terminal portuário, usinas de alcool e caminhoes de transporte de combustivel.
Googlando o termo descobre-se que a origem do termo é de 1946. Um estrangeiro pede o visto no Brasil. É médico, mas como o processo é mais simples para outra profissão declara ser agrônomo. Obvio que aconteceu com anuência de servidores públicos. Logo ‘solidariedade’ e a relação com o excessivo formalismo estatal tem a ver com a coisa. Brasil tem algo como 8 milhões de normas (Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação). Dizem que na Ianquelândia são 18 milhões e o afegão médio viola pelo menos três todo dia. Outro aspecto no mesmo sentido: ‘leis que colam e que não colam’ e ‘leis para ingles ver’.
‘[…] como não tivemos uma antiguidade greco-romana, não tivemos uma Idade Média, não tivemos a emergência da idade da Razão, do Iluminismo, da filosofia e da ciência, fomos inventando o nosso modo, que se resume no que chamamos, carinhosamente de “jeitinho brasileiro”.’ Ideologia. Hegelianismo estropiado. Eurocentrismo. Ignora toda a literatura de antropológica disponível. Homem Cordial de Sergio Buarque. DaMatta. Livia Barbosa e ‘a arte de ser mais igual do que os outros’.
‘Aliás, alguns dos que vieram colonizar este país para a coroa portuguesa, saíram direto da cadeia para os navios de Pedro Álvares Cabral.’ Faoro. ‘Os donos do poder’. O problema não foram os meliantes bagrinhos. O problema foi os usos e costumes da Coroa Portuguesa.
‘Infelizmente, no Brasil, a ética vem depois do casuísmo, do corporativismo, até no dicionário, e ainda tem a malandragem parlamentar.’ Ordem alfabética é irrelevante. Etica vem antes de Mensalão e Petrolão, não muda nada.