Claudemir Pereira

CRÔNICA. Orlando Fonseca, cotas, vírus e comunistas

Comunavírus

Por Orlando Fonseca*

Sentado em uma das cadeiras da Barbearia, preparo-me para ser atendido quando me atento a uma conversa ao lado. Duas cadeiras adiante, uma está vazia entre nós, a pessoa que tem seu cabelo aparado comenta que as cotas também – o que me faz supor o rumo que a conversa vem tendo – são uma invenção da esquerda para expandir o comunismo nas Universidades. E ainda argumenta que as cotas não devem ser raciais, pois a falta de negros no Ensino Superior não é uma questão étnica, mas uma questão de pobreza. O que me fez refletir – dando-me vontade de me meter na conversa, mas em meio a navalhas e pontas de tesoura, achei melhor me recolher – sobre a falta de fundamento destas proposições absurdas. Antes do sistema de cotas raciais (que a partir da Lei de 2012 estão dentro da reserva de vagas sociais) havia 2% de afro-brasileiros nas universidades, e hoje, ainda antes de uma década de vigência, já representam 18% desta população, que em algumas regiões do Brasil, como o Rio de Janeiro e Salvador, são a maioria. Não se trata de uma questão ideológica, de esquerda, mas de um programa humanista. Mas o humanismo, por ser filosofia, também está sob suspeita, e até o cristianismo raiz, idem.

Para não levantar suspeitas sobre o caráter de nenhum dos dois comentadores, vou admitir que tais argumentos decorrem da falta de informações sobre os dados sociais do Brasil. Que a guerra ideológica por aqui só ganhou força por causa da ignorância. Essa que é capaz de, a propósito de uma pandemia possível com o coronavírus – imaginar que o comunismo se propaga da mesma forma. Até pouco tempo o discurso fascista no Brasil tentava fazer admitir que não havia mais a dicotomia esquerda-direita – basta conferir artigos de jornais aqui mesmo em Santa Maria. Do ano passado para cá, a esquerda passa a ser tida como a responsável pelas mazelas do país e que deve ser combatida e, se possível, extirpada da vida nacional. Por quem? Seriam os homens de bem – mulheres e crianças talvez estejam “preservadas” da luta – que é como a direita, elegantemente travestida, hoje se apresenta?

Marx, em suas teses sobre o socialismo, imaginou – para não dizer que previu, por não ser profeta – que uma sociedade socialista só emergiria no alto capitalismo, quando este regime atingiria o seu auge, e as questões econômicas deixariam margem para as sociais. No entanto, desde Sócrates, não se imaginava que em pleno início do terceiro milênio – já em sua segunda década – seria a ignorância a buscar hegemonia, e não o conhecimento. Aliás, não é de surpreender que os atuais mandatários da Nação queiram o apagamento de um educador como Paulo Freire. Os grandes mestres da humanidade não foram poupados da sanha aniquiladora da ignorância: Sócrates foi condenado ao envenenamento pela cicuta, acusado de desvirtuar a juventude. Jesus Cristo, no início do primeiro milênio, foi condenado à cruz, por pregar a paz e o amor – praticamente um hippie – e a igualdade fraterna, um comunista, “avant la lettre”.

Ataques à ciência – ataques a cientistas e educadores – teses estapafúrdias, conceitos medievais, o senso comum proliferando nas redes sociais. Então, inventando um rótulo, o “Rede-socialismo” vem a ser o pior dos regimes, pois ao fazer emergir a ignorância com a facilidade da propagação, procura igualar a todos em suas burrices. Há quem tenha aventado, nesta mesma mídia, que o Coronavírus, a epidemia da hora, foi uma invenção dos comunistas para atacar o paraíso social em que vivem os ricos cidadãos dos países capitalistas. Que, mais uma vez, o perigo comunista está chegando como uma praga ideológica para atacar a fé e os bons costumes. Um efeito já provocou, como é comum nestes casos de ignorância, assim como foram os ataques aos afro-brasileiros em virtude das cotas: a xenofobia. Chineses são atacados pelas ruas do país. Só o conhecimento – vindo da educação – é capaz de forjar cidadania e nações fortes. É a vacina, único antídoto eficaz.

*Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

Observação do editor: a imagem que ilustra essa crônica é uma reprodução obtida na internet.

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5 Comentários

  1. Educação como teve o autor é, de fato, a salvação da civilização humana.
    Chegamos na parte do comentário ‘viu só, o reaça se queimou e escreveu um monte de textões! Ficou p.!”. Pois é, tem gente com este nível cognitivo.
    Dentre fobias inventadas e ‘ismos’ desqualificadores esqueci do principal. Humanismo, humanismo, humanismo. humanismo,. humanismo. Agora que usei a palavra como escudo ninguém pode me atacar. Estou ‘com o corpo fechado’. Que tipo de gente é tão ‘do mal’ que é contra o ‘humanismo’ ?

  2. Ciência leva a uma discussão epistemológica, mas a maioria dos que ‘defendem’ por aí sabe menos do que um aluno de segundo grau. Abraçam o argumento da autoridade por total falta de capacidade. O outro lado acha alguma outra criatura que diz o que querem ouvir e ninguém chega a lugar algum.
    Coronavírus é uma invenção comunista cujo principal foco fica no maior comunista do mundo, mas foi feito para atacar o paraíso dos capitalistas? Sou burro não entendo esta lógica.
    Na Rússia a tv estatal (estão ilhando a internet por lá) afirmou que o vírus é fabricação das grandes empresas farmacêuticas internacionais e o nome foi tirado dos prêmios de beleza que o Trump patrocinava. Ele coroava as misses. Pelo menos é o que a CNN divulgou.
    Chineses são atacados nas ruas do país?

  3. Sócrates não deixou uma linha escrita. O que se sabe dele é por intermédio de Platão. Que tinha o costume de escrever diálogos em pares, tese e antítese. Se existe a Apologia também existe Criton. Sócrates morreu porque escolheu morrer. Alás, como nos casos de Galileu e Giordano Bruno existem muitos aspectos políticos que são ignorados porque caso contrário o argumento não fecha.
    Jesus Cristo não é uma figura histórica, não existe prova cabal de que tenha existido. O que se sabe dele é por terceiros. Sem maiores comentários, há que se respeitar o credo dos outros. E o Papa? Grosso modo existem duas teocracias no planeta, Vaticano e Irã.
    Nem todos são oniscientes a ponto de falar desde cirurgia cardíaca até produção musical. Ser humano é imperfeito, há que se entender as limitações dos outros. Brasil é o pais onde torcidas organizadas para confraternizar na base da ‘porrada’, fazer o quê. Melhor ficar se xingando nas redes sociais.

  4. Descobri que sou fascista. Agora não sei se compra camisas verdes ou parto logo para as camisas pretas. Alás, tio Zé Stálin não fazia distinção, para ele nazistas e fascistas eram todos fascistas. Explico. Esquerda-direita como se entendia antes (ênfase na liberdade, ênfase na igualdade como dizia Bobbio mais recentemente) não se aplica mais. As ‘narrativas’ (não gosto da palavra, muitas vezes serve de escudo para a mentira pura e simples) do século XX já não servem para explicar o mundo. Vide a China, ditadura de um partido comunista, com ética confuncionista , dumping social e praticas mercantilistas. Produz muita propaganda e atiça ‘as bichas’ de muita gente que defende ‘a ditadura para o bem de todos’.
    Marx e Paulo Freire nunca foram grandes mestres da humanidade. Antes de chupinhar Hegel o primeiro deveria ver se o mesmo não falava bobagem. Alás, a própria teoria do mesmo tem furos (os intermediários do capitalismo, por exemplo). Paulo Freire é comunismo e construtivismo (aquele do Piaget) que só funciona nas séries iniciais, tem limites (discussão interminável).
    Alás, andam tentando requentar o discurso de desigualdade (teria aumentado, seria maior do que nunca) com contabilidade furada, obvio que uma hora acabam descobrindo, afinal, mentira tem perna curta. Desigualdade existe e é importante, só não acontece o que falam por aí.

  5. Cansativo. Colocar um disco de vinil riscado na vitrola e esperar ouvir uma musica diferente é insanidade.
    Cotas? Existem, fim de papo. Ficar debatendo decisões já tomadas repetidamente em busca de um consenso que nunca existirá é perda de tempo e energia. Cotas, como quase toda politica publica (a bala de prata dos imbecis, tudo se resolve com uma) foi implantada de maneira não homogênea com resultados diversos no território tupiniquim. O que é mais provável que aconteça? Quando encerrar o prazo inicial (10 anos?) a Globo catará alguns exemplos nos quais o resultado foi positivo. Depois mostrara a estatística dizendo que as metas ainda não foram alcançadas. Logo a prorrogação ocorrerá. Dez anos depois (muito tempo) será feita outra avaliação. Muito tempo, bom não chutar.
    Qual é o busílis? É imaginar que o modelo Fordiano de educação, criatura entra com 6 anos na escola e 18 anos depois (depende do curso) sai um profissional/cidadão formado, vai durar muito tempo. Tecnologia ira avançar, automação, problemas climáticos, etc. É o sonho de que as coisas serão do jeito que sempre foram.

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