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ARTIGO. Leonardo da Rocha Botega faz reverência a um pensador indispensável do Brasil: Celso Furtado

Entre o intelectual e o homem de ação: 100 anos de Celso Furtado

Por LEONARDO DA ROCHA BOTEGA (*)

“Há sinais de que o Brasil caminha para um estado de desarticulação, ou de autofagia, que poderá transformá-lo em presa fácil de políticos portadores de mensagens obscurantistas, e mesmo de intervenção externa. É verdade que mesmo do caos pode brotar um movimento renovador, pois a História é um processo aberto. Mas isso é uma simples hipótese”.

A citação acima foi retirada de anotações feitas por Celso Furtado em sua passagem por Tóquio, no Japão, em 21 de novembro de 1978. A leitura a partir da distância temporal provoca a sensação de estar diante de uma antecipação do futuro. Porém, apesar dessa sensação, cientistas sociais e economistas não são profetas. Uma boa leitura da realidade pode no máximo apontar tendências e projeções futuras, cuja realização depende de ações humanas. Ciente disso, Furtado foi muito cuidadoso com as projeções, priorizando sempre as conclusões emanadas dos estudos da realidade histórica, social e econômica do Brasil em detrimento aos exercícios de futurismo, tão comuns aos “profetas do mercado” de ontem e de hoje.

Nascido em 26 de julho de 1920, em Pombal, interior da Paraíba, Celso Furtado completaria seu centenário este ano. Destacado como um dos grandes pensadores brasileiros, pertenceu a uma geração que buscava ligar o conhecimento com o sonho de mudar o Brasil. Formado em Direito pela Universidade do Brasil, fez parte da Força Expedicionária Brasileira que lutou na Itália contra o nazi-fascismo. Com o término da guerra, ingressou no doutorado em economia da Sorbonne. Em meio aos estudos, entre 1946 e 1948 percorreu inúmeros países da Europa, observando de perto um continente que lutava para se reconstruir. Da experiência da reconstrução europeia e dos estudos sobre a economia brasileira no período colonial, extraiu as principais características de sua primeira grande obra: Formação Econômica do Brasil, lançada em 1959.

Destinado a ser um texto de introdução ao processo histórico de formação da economia brasileira, Formação Econômica do Brasil foi elogiado por intelectuais consagrados como o Fernand Braudel. O renomado historiador francês destacava a ligação da perspectiva keynesiana com a história brasileira feita por Furtado.

Destacou também que o rigor metodológico da obra se ancorava no predomínio da realidade concreta sobre a abstração teórica. Um predomínio que caracterizou o conjunto da obra do economista brasileiro e que foi fundamental na originalidade de sua concepção sobre o subdesenvolvimento. Para Furtado, o subdesenvolvimento não era apenas uma etapa do capitalismo, mas sim, a própria forma assumida pelo capitalismo nos países periféricos.

No Brasil, a formação do sistema capitalista ocorreu sem que as estruturas arcaicas-coloniais sofressem grande modificações. Tal fenômeno criou uma realidade onde o crescimento econômico não gerava mudanças em prol do desenvolvimento, pelo contrário, reforçava as desigualdades sociais. Para que essa realidade fosse modificada, seria necessária a realização de reformas sociais, rompendo com as estruturas que concentram renda, reproduzem a miséria e impedem o desenvolvimento do país. Esse pensamento guiou não apenas o intelectual Celso Furtado, mas também o homem de ação Celso Furtado.

Furtado participou da primeira equipe da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL). Em 1953, presidiu o grupo de estudo CEPAL-BNDE, responsável por apontar os grandes gargalos da economia brasileira. Foi presidente da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), criada pelo governo Kubitschek, em 1958. No governo João Goulart, assumiu, por um curto período entre 1962 e 1963, o Ministério do Planejamento, onde, na tentativa de conter a instabilidade econômica, propôs o Plano Trienal. Retornou à Sudene em 1963. Na Sudene, enfrentou a oposição daqueles que lucravam com a “indústria da seca”.

No Ministério do Planejamento presenciou a falta de apoio daqueles que buscavam desestabilizar o governo, tanto internamente, como externamente. Com o golpe civil-militar de 1964 partiu para o exílio. Longe do Brasil, mas sem deixar de pensar o Brasil, seguiu a trajetória acadêmica que o consagrou como um dos principais economistas do mundo. Retornaria ao seu país apenas em 1979, com a Anistia. Ainda como homem de ação ocupou, entre 1986 e 1988, o Ministério da Cultura, seu último cargo público. Em 1997 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.

Dedicou seus últimos anos à escrita de livros que visavam impulsionar os debates sobre os rumos do Brasil na virada do século XX para o século XXI. Sua última obra, publicada em 2002, refletia sobre o papel que caberia ao Brasil como nação “no mundo de contornos indefinidos” que emergia. Faleceu em 20 de novembro de 2004, afirmando, como sempre fizera ao longo de sua trajetória, que “o Brasil só sobreviverá como nação se se transformar numa sociedade mais justa e preservar sua independência política”.

Quase duas décadas depois, a afirmação segue tão atual quanto o prognóstico feito em 1978. Cabe àqueles que, como Celso Furtado, nunca deixam de acreditar no Brasil, lutar pela sua sobrevivência, para além dos “políticos portadores de mensagens obscurantistas”.

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

Observação do editor: a foto, sem autoria determinada, é de Celso Furtado com Juscelino Kubitschek em reunião da Sudene e é do Arquivo CPDOC/FGV

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