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ARTIGO. Luciano Ribas e quando Maria Antonieta, Bia e o Jair se veem diante de ninguém menos que Cazuza

Laranja, brioche, cloroquina e um codinome beija-flor

Por LUCIANO DO MONTE RIBAS (*)

Tranquilizem-se, pois o título desse texto não é a minha lista de compras do dia. São quatro assuntos que tento articular com algum sentido e, se as três ou quatro pessoas que leem minhas contribuições semanais para o site do amigo Claudemir Pereira estiverem correndo seus olhos sobre ele agora, é porque consegui chegar a algum lugar.

Comecemos pela laranja, que é “um fruto híbrido que teria surgido na Antiguidade a partir do cruzamento da cimboa com a tangerina”, segundo a Wikipédia (fonte inaceitável nos trabalhos científicos, mas muito útil a articulistas bissextos como eu). Cimboa, para quem também não sabia, é outro nome dado ao pomelo, que vem a ser a mesma coisa que a laranja-natal que tínhamos lá em Itaara.

Fonte popular de vitamina C, a laranja empresta seu nome a uma cor vibrante, associada à criatividade e à alegria e amplamente utilizada no design e na propaganda. Aliás, a palavra “laranja” tem origem no sânscrito nâranga e, com um sentido negativo, é usada para definir a pessoa que, como Fabrício Queiroz (braço direito da família Bolsonaro), recebe e repassa a terceiros valores e bens que não lhe pertencem, geralmente provenientes de atividades ilícitas.

Brioche não é um fruto, evidentemente. É um pão originado na França, feito com abuso de manteiga e ovos e que apresenta uma crosta quebradiça. É consumido no café, como base para sobremesas e até mesmo junto com salsichas. E, como talvez quem está lendo já suspeite, tais informações, bem como a etimologia da palavra “brioche”, estão disponíveis na Wikipédia para quem se interessar.

Também na enciclopédia colaborativa está uma frase atribuída à rainha francesa Maria Antonieta que, ao saber da fome dos camponeses por não terem pão, os teria mandado “comer brioches”. Isso antes de, literalmente, perder a cabeça. Já a “socialite” Bia Dória parece não ter, ao menos figurativamente, muita coisa do pescoço para cima. Afinal, se tivesse, não se atreveria a dizer para não darem COMIDA a pessoas em situação de rua ou de carência extrema durante a pior crise sanitária e econômica da história humana.

Já a cloroquina era apenas um medicamento, cheio de efeitos adversos e usado no tratamento da malária e de algumas outras doenças, até se tornar a nova “mamadeira de piroca” da direita fundamentalista. Descartada por todas as pesquisas e instituições sérias, segue circulando pelo “centro de pesquisas do WhatsApp”, agora acompanhada de um vermífugo no panteão das magias contra a covid-19…

No centro dessa realidade delirante e diagnosticado com o novo coronavírus, o néscio-mor diz tomar a cloroquina porque ela “é segura”. Porém, a certeza dessa segurança é tanta que ele não dispensa dois exames cardiológicos a cada 24h, realizados todos os dias pelos médicos exclusivos que todos nós bancamos para quem ocupa a presidência, algo muito distante da realidade de qualquer brasileiro ou brasileira.

Indo adiante, o codinome que o inepto utilizou para esconder, há alguns meses, um exame supostamente negativado, não foi o citado no título. Esse dá nome ao oposto a toda essa imbecilidade: “Codinome Beija-Flor”, uma das mais belas músicas do Cazuza, grande poeta e cantor que a música brasileira perdeu há 30 anos completados na semana que se encerra.

O genial Cazuza também teve uma fase panfletária, onde chegou a escrever que “enquanto houver burguesia, não vai haver poesia”. Talvez não seja para tanto pois, apesar dos pesares, a poesia sobrevive.

Porém, ao ouvir a patética Bia Dória não posso deixar de concordar que a “burguesia fede”. No Brasil, fede a desprezo, desumanidade, racismo, homofobia, arrogância, subserviência e ignorância. Fede a fascismo e fede a morte. E esse é o ponto onde laranjas, brioches, cloroquina e a necessidade combatê-los em nome da poesia da vida se encontram.

No próximo dia 14 de julho serão comemorados os 231 anos da Queda da Bastilha e do “nascimento” de um mundo guiado pelo Iluminismo. Tal mundo possui valores que se tornaram, em grande parte, universais, muitos dos quais ainda são a base para que haja liberdade, igualdade e um ambiente onde a fraternidade não seja traduzida apenas por uma caridade hipócrita. Outros precisam de superação para que mais pessoas tenham sua humanidade plenamente garantida e há, ainda, aqueles que devem ser incorporados para que a vida do planeta seja viável e sustentável para todas as espécies.

Para isso, laranjas no sentido figurado, gente que vomita brioches sobre a fome alheia e falsos mitos que negam a razão e a ciência precisam ser enfrentados onde for preciso, por todos e por todas nós. Precisamos seguir sonhando acordados um mundo onde haja um jeito de não sentirmos dor.

(*) Luciano do Monte Ribas é designer gráfico, graduado em Desenho Industrial / Programação Visual e mestre em Artes Visuais, ambos pela UFSM. É presidente do Conselho Municipal de Política Cultural e um dos coordenadores do Santa Maria Vídeo e Cinema, além de já ter exercido diversas funções na iniciativa privada e na gestão pública.

Para segui-lo nas redes sociais: facebook.com/domonteribas – instagram.com/monteribas

Observação do autor, sobre a foto:  mesas da Confeitaria Colombo, no Rio de Janeiro, fotografadas a partir do segundo andar.

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