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Lições da Bolívia – por Leonardo da Rocha Botega

“Todos nós bolivianos demos passos importantes, recuperamos a democracia e a esperança”. Foi com essa frase que Luis Arce Catacora comentou as projeções que indicavam a sua vitória nas eleições presidenciais bolivianas, quase um ano após o violento Golpe que depós o presidente Evo Morales. Uma vitória esmagadora, reconhecida ainda na madrugada de domingo (19/10) para segunda-feira pela autoproclamada “presidenta interina” Jenine Áñez e na própria segunda-feira pelo candidato derrotado Carlos Meza.

O reconhecimento da derrota por parte dos oponentes de Arce representou a frustração do programa político imposto a população a partir do Golpe de novembro de 2019. Uma frustração profunda emergida do mais íntimo sentimento de rejeição por parte da Bolívia profunda. Apesar de até o momento em que escrevo esse texto ainda não termos a apuração finalizada, as projeções indicam que o candidato do Movimento ao Socialismo (MAS) teve entre 53% e 58% dos votos, percentual muito superior ao obtido pelo ex-presidente Evo Morales um ano antes. Ao mesmo tempo, o processo eleitoral teve a participação histórica de 87% dos eleitores. Tudo fiscalizado e observado por uma série de delegados internacionais ligados à OEA, ao Parlasul, à ONU e até mesmo ao governo estadunidense, cujo Secretário de Estado, Mike Pompeo, foi um dos primeiros a declarar apoio ao Golpe que depôs Morales.

O Golpe de 2019 foi um dos episódios mais dramáticos da História Boliviana.  Criado em 1825 como uma espécie de “Estado Tampão” em um território disputado pela Argentina e pelo Peru, a Bolívia se tornou um dos países mais pobres da América do Sul. A luta entre grupos que buscavam combater a pobreza e a miséria e grupos que lucravam com o modelo concentrador de riquezas foi uma das grandes marcas do país ao longo do século XX.

A Revolução de 1952 foi parte desse processo. O processo revolucionário fez emergir uma forte cidadania a partir da implantação do sufrágio universal, do fortalecimento das representações sindicais e da reforma agrária. Avanços que foram brecados pelo Golpe de Estado que em 1964 derrubou o presidente eleito Victor Paz Estenssoro e colocou no poder o General René Barrientos. A democracia seria reestabelecida somente em 1980.

O período ditatorial serviu não apenas para abortar o processo de construção da cidadania iniciado em 1952, como também aguçou a distância social entre os milhares de pobres, em sua maioria de origem indígena, e elite boliviana, formada em sua maioria por descendentes europeus e mestiços europeizados.

Na América Latina as questões de classe e raça se mesclam e estão profundamente interligadas. Foram essas duas questões que emergiram ao longo dos anos 1990 e dos primeiros anos 2000 nos protestos dos agricultores produtores de coca (em sua maioria indígenas), reivindicando melhores condições de trabalho e o reconhecimento das nacionalidades indígenas pelo governo boliviano. Foi a partir do Movimento Cocalero que Evo Morales se firmou como liderança popular, chegando à presidência em 2006.

O governo Evo Morales foi responsável pelo chamado “Milagre Boliviano”. O país cresceu em média 5% ao ano, o percentual da população abaixo da linha de pobreza na Bolívia caiu de 63% para 35% entre 2005 e 2018, o analfabetismo da população que era de 13,3% em 2001 foi reduzido para 2,7%, os investimentos públicos em educação tiveram um crescimento de 236% entre 2006 e 2018 e as atividades econômicas foram se diversificando.

Além disso, a Nova Constituição de 2010 reconheceu a Bolívia como um Estado Plurinacional incorporando a diversidade cultural e étnica dos diferentes povos indígenas. Todas essas medidas e resultados não apenas produziram uma melhora nas condições de vida da população como também criaram um forte lastro social para o partido do presidente Evo Morales e do então ministro da economia, Luis “Lucho” Arce.

O Golpe de novembro de 2019 e os acontecimentos que o seguiram tiveram como grande objetivo romper justamente esse lastro social. A violência desencadeada por setores da polícia e do exército, milícias e fundamentalistas religiosos contra figuras ligadas ao MAS tinha por objetivo não apenas a derrota e o retorno ao poder das elites brancas, mas também dar vazão ao escárnio, como demonstram o incêndio da casa do vice-presidente Álvaro Garcia Linera e as humilhações sofridas pela então prefeita de Vinto, Patrícia Arce, senadora eleita no último domingo com grande votação.

O escárnio abriria as portas para a retomada do neoliberalismo. Porém, como bem disse o próprio Linera, o “novo” neoliberalismo que alguns governos latino-americanos têm retomado recentemente é apenas um Neoliberalismo Zumbi. Um projeto que sobrevive de “velhas vitórias” e que não consegue captar o entusiasmo coletivo, que não mobiliza nada além de ódios e ressentimentos.

Perdido entre ódios e ressentimentos, o governo golpista de Jenine Áñez conseguiu piorar rapidamente a qualidade de vida da população pobre e da classe média (parte dela apoiadora do golpe). Ao mesmo tempo, foi medíocre em suas ações diante da Pandemia da Covid-19. Tudo isso atropelou o seu sonho de legitimação do neoliberalismo zumbi através das urnas.

A vitória de “Lucho” Arce representou a reação dos vivos contra esse Zumbi. Essa aberração que mesmo em frangalhos insiste em se impor em outros rincões da América Latina. Que aprendamos com a Bolívia antes que os Zumbis destruam o que resta da nossa nação.

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

Observação do editor: a imagem (sem autoria determinada) que ilustra este artigo é uma reprodução da rede social Twitter.

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