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A fila anda – por Orlando Fonseca

Nesta semana, mais propriamente no dia 13, sábado, completa-se um ano em que estou em isolamento voluntário. É certo que eu me submeti, de modo disciplinado, aos protocolos estabelecidos em decretos dos governos estadual e municipal. Sinceramente, não me incomodei com as bandeiras, nem mesmo com esta vigente já por duas semanas. Há muito a minha impressão era de que devia ser preta. O leitor até pode objetar que, pelo fato de ser aposentado, não preciso me preocupar com o comércio, com os empregos, com as contas a pagar no fim do mês. Há quem, inclusive, baseando-se na crise geral, desanque os funcionários públicos, por terem os seus salários garantidos. Ora, amigos, e é até uma platitude o que vou dizer: a máquina pública não parou por causa da pandemia; aliás, há setores que passaram a trabalhar mais. Ou seja, o serviço público continuou em sua atividade normal. Outros há que “sugerem” aos governos que reduzam os salários dos servidores, como “exemplo”. E eu pergunto estarrecido: exemplo de quê? A arrecadação pode ter diminuído, mas não deixou de ser praticada, com os serviços em andamento; os trabalhadores da esfera administrativa pública continuaram a exercer o seu papel, seja em modo remoto, seja em home office (como diria o editor: “em bom Português”), ou mesmo de modo presencial na maioria dos casos. Então, por que a redução salarial? Maus exemplos é que não faltam nas ações do governo federal, ao não planejar a vacinação, ao não respeitar os protocolos de uso de máscara e evitar aglomerações. Por que mais um?

Por falar em vacina, isso é o que me preocupa deveras, no momento. Porque a única perspectiva que tenho de não prolongar por mais um ano o distanciamento social, é com a imunização. E não apenas minha, mas de, pelo menos, 70% da população. E pelo andar da carroça (quando o mundo já anda de carro elétrico da Tesla), ainda vamos amargar pelo menos mais uns 8 meses para enxergar algo como solução. Por isso tenho acompanhado com atenção o que vem acontecendo no país, com a divulgação de nomes como Fiocruz, Butantã, a AstraZênica, Pfyzer, Sputinik V. São designações bonitas para uma realidade feia. Em nossa cidade, observando o que acompanhei na vacinação de minha mãe, com 90 anos (e ainda tem a segunda dose esta semana), já projeto uma maratona para o próximo mês, quando chega a vez do meu grupo de faixa etária. Fui dar uma pesquisada sobre quais as venturas e desventuras que me aguardam, e encontrei alguns dados que não me tranquilizaram, se bem que, em meio a uma pandemia, pouca coisa é capaz de assustar.

Em uma matéria de um jornal de São Paulo, encontrei uma informação sobre o percentual de idosos em cada cidade do país – uma tabela elaborada pela FGV. Em Santa Maria, temos 8,46% de residentes na faixa dos 60 a 69 anos. Segundo dados populacionais, que encontrei sobre nossa cidade no IBGE, a projeção para 2020 era de 283.677 habitantes. Fazendo a conta, temos um número aproximado de 24.000 idosos nesta faixa etária, à espera de vacinas. Como o percentual de moradores da faixa da minha mãe era de 2,43%, fico imaginando a imensa fila de carros que vai se formar entre Santa Maria e Rio Grande, 72 horas antes do início da vacinação em algum drive thru (em bom Português) da cidade. Ou seja, resta à gestão de saúde local organizar um planejamento que envolva a distribuição por faixas etárias menores, distribuídas em vários dias. Tudo bem, para quem já está, praticamente, encerrado em casa por 365 dias, o que pode significar ficar em um veículo por 4 ou 5 horas. Trata-se de mais um aprendizado a que somos submetidos em horas extremas. Se bem que há muita gente que não aprende, nem mesmo assim. Desse modo é que caminha a humanidade, isso quando a fila anda.

*Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

Crédito da foto: Torstensimon / Pixabay

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4 Comentários

  1. Acontece no setor publico algo que foge a percepção da população em geral. Gestão seria uma tarefa que ‘qualquer um pode fazer’. O tomador de decisão substituiria a falta de conhecimento/experiência numa determinada área por ‘bom senso’. Saúde planejada e organizada pelos profissionais de saúde sem conhecimento de gestão, com um cursinho Walitta ou que ‘aprendeu fazendo’. O mesmo na educação. O que se vê em muitos lugares do pais é desconhecimento de conceitos básicos de gestão de operações. Vacinam todo ano (melhor do mundo!). Só que é muito mais gente e a procura é evidentemente maior. O sistema é linear e logo encontra uma não-linearidade. Explico: tenho um muro de 10 metros para pintar. Se contratar um pintor vai demorar um certo tempo. Caso 5 pintores sejam contratados o tempo diminui. Mas se contratar 20 pintores (ou 30, ou 50) contratarem a empreitada a porca começa a torcer o rabo. Problemas surgem e o tempo aumenta. Neste nível o profissional, se não me engano, não é nem o pessoal da administração, é a galera da engenharia de produção. O que leva a outro problema sério do setor publico, o RH.

  2. O que realmente pega no que diz respeito ao serviço público é o atendimento ao mesmo. Gente distribuindo 10 ‘senhas’ de atendimento de manha e outro de tanto pela tarde. Geralmente o que acontece é faltar um papel ou outro e os dez viram dois e o tempo é gasto como aprouver o servidor. Que é estável e tem a complacência dos colegas. Camaras de Vereadores do interior regulando tempo de espera na fila dos Correios. Servidor parando de atender a fila para comunicar-se no ‘zapzap’. Gente lenta, de má vontade ou grossa. Não é a toa que em muitas repartições do pais existe um cartaz: ‘Código penal. Desacato. Art. 331 – Desacatar funcionário público no exercício da função ou em razão dela.’ Assim mesmo, a penalidade não aparece porque é pequena. Servidor ‘dando uma perdida’, depois de três ou quatro transferências descobre-se que a criatura não está no local de trabalho cotidianamente. A tal cousa, um faz e ‘não dá nada’, logo ‘é normal’ e o rendimento conjunto diminui.

  3. Questão dos funcionários públicos não é ‘coisa da Globo’. Maioria da população não tem como avaliar o que acontece nas universidades, se alguém abrir uma tv de tela plana, separar o miolo, colocar numa sala da UFSM e afirmar que é um trabalho para a NASA ninguém saberia a diferença. Vide anúncio publicitário veiculado na região. Engenharia a distancia. Numa cidade cheia de cursos e profissionais da área. Rapaz é chapeiro numa lanchonete. Resolve estudar. Aparece lidando com algo ‘muito complicado’. Segundo os espertos está utilizando o instrumento de forma errada, numa ‘placa’ que não tem nenhum componente eletrônico ou fonte de alimentação e ainda por cima está olhando para o lado errado. Forma-se e vira, segundo os espertos, motorista de aplicativo. Ignorância é fácil de explorar.

  4. Nassim Taleb ficou famoso quando escreveu ‘A logica do cisne negro’. Faz parte de uma série de livros, autor saiu do mercado financeiro para seguir carreira acadêmica. Outro livro do mesmo autor intitula-se ‘Arriscando a própria pele: Assimetrias ocultas no cotidiano’. Uma tradução mais abagualada do titulo seria ‘Com o couro no negócio’, mas não muda o conteúdo filosófico do tomo.
    Algumas frases dão ideia do conteúdo, ‘evite tomar conselhos de alguém que ganha a vida dando conselhos a menos que haja penalidade para um conselho ruim’. ‘Coisas projetadas/planejadas sem ‘o couro no negócio’ tendem a ficar cada vez mais complicadas antes do colapso final’. ‘As pessoas não conseguem entender que a principal coisa que se pode aprender de um professor é como ser professor’. ‘Sempre que o ‘nós’ vira um clube muito grande, as coisas degradam e cada um começa a lutar pelos próprios interesses’. ‘O geral e abstrato tende a atrair psicopatas presunçosos’. ‘Burocracia é um constructo pelo qual uma pessoa é convenientemente separada da consequência das próprias ações’.

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