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Não é Dia do Trabalho. É Dia do Trabalhador e da Trabalhadora – por Valdeci Oliveira

O “orgulho de ser um militante político e social egresso do movimento sindical”

Neste sábado, ainda em meio à pandemia que restringe a movimentação de pessoas como forma de conter a transmissão da covid-19, será comemorado o 1º de Maio, Dia do Trabalhador e da Trabalhadora. Mais do que um feriado nacional, um momento de reflexão, de memória, de saber onde nos localizamos nesta imensa massa heterogênea chamada sociedade.

Para entendermos o significado da data é importante que voltemos no tempo, na chamada primeira revolução industrial. O desenvolvimento tecnológico iniciado na Europa, a partir da segunda metade dos anos 1700, iria gerar um crescimento vertiginoso das economias dos países que o detinham e uma mudança brusca das relações sociais. Ao lado do chamado progresso, porém, é preciso lembrar como eram os ambientes de trabalho a que homens, mulheres e crianças eram submetidos e as condições insalubres a que eram expostos.

Palavras como férias, horas-extras, descanso remunerado sequer existiam no vocabulário cotidiano. Se aceitava que o lucro e os impostos gerados pela produção convivessem com hordas de maltrapilhos sujeitos a trabalharem por muito pouco ou em troca de comida. Despossuídos de escolhas, eram submetidos a jornadas de 16 horas diárias, que sequer poupavam as crianças.

Não bastasse estarem despidos de qualquer garantia ou direito por não serem eles mesmos os donos dos chamados meios de produção, muitos morriam cedo, acometidos por doenças resultantes das péssimas condições de higiene e alimentação e dos ambientes nocivos das fábricas. Essa verdadeira roda viva alimentada pela negação da distribuição de ganhos tragava para o seu centro todos que tinham poucas ou nenhuma chance de escolha. Afinal, se tratava de camponeses, pessoas sem sangue nobre ou capital. Era pegar ou largar. Não tardou para que os próprios explorados entendessem que era preciso lutar para que aquela realidade não viesse a se perpetuar.

Sem conhecer a história das lutas dos trabalhadores e trabalhadoras pelo mundo, o 1º de Maio perde o sentido. Desconhecendo a História pode-se, inclusive, achar que o sujeito do 1º de Maio é o trabalho e não aqueles que o executam. É importante sabermos que a data está ligada à coragem dos operários e operárias estadunidenses que saíram às ruas das suas principais cidades, num 1º de maio do longínquo ano de 1886, para exigir o direito de trabalhar 8 horas por dia e não às 16 horas a que eram submetidos por baixos salários. Dias depois, em Chicago, durante uma manifestação que se iniciou pacífica, os trabalhadores se negaram a acatar ordem da polícia para se dispersarem. Após o confronto, sindicatos foram invadidos e os seus dirigentes acabaram presos ou mortos.

Entender o espírito do 1º de Maio é entender que todos os direitos e benefícios usufruídos hoje pela classe trabalhadora nunca se trataram de reconhecimento por parte das elites. Foram, na verdade, forjadas à base de muita luta, organização, prisões, sangue e lágrimas. E isso vale em qualquer lugar do planeta.

Aqui no Brasil, os primeiros avanços ocorreram só no início dos anos 1900 e após uma greve geral. Aqui o 1º de Maio somente foi instituído como data oficial em 1924. Mas foi preciso esperar quase três décadas pelas conquistas do salário mínimo e da redução da extensa jornada de trabalho da época. Para entender o simbolismo do 1º de Maio é preciso saber que quando foi criado o 13º salário, uma reivindicação sindical, um dos principais jornais brasileiros, O Globo, estampou um editorial contrário à medida com a justificativa de que esta iria quebrar as empresas e, por consequência, a economia nacional. A mesma crítica à lei sancionada em 1962, pelo então presidente João Goulart, foi desferida pela maior federação empresarial brasileira, a FIESP, de São Paulo.

O 1º de Maio é um dia para refletirmos sobre o que realmente está em jogo quando se utilizam de termos como “crescimento econômico” para chantagear a sociedade para que esta abra mão do que lhe é de direito. O 1º de Maio nos diz que quando lutamos a luta justa os ganhos são para todos e não para uma diminuta parcela da sociedade que não tem olhos para aqueles que estão abaixo dela. O 1º de Maio sintetiza os significados das palavras união, justiça e bem-estar social.

E nesta data tão especial, sublinho que tenho profundo orgulho de ser um militante político e social egresso do movimento sindical. Inclusive tive a honra de ter sido presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santa Maria. Como mencionamos aqui, a ação dos sindicalistas foi decisiva para afastar a classe trabalhadora da exploração e da desumanidade. Recentemente, mesmo com toda luta realizada em contrário, os governos de plantão aprovaram as reformas trabalhista e da previdência, duros golpes contra os trabalhadores e trabalhadoras do país, sob a promessa de encher o Brasil de empregos. Os empregos não vieram até hoje, mas a pobreza e a fome retornaram a pleno. Que isso sirva de lição: país desenvolvido é país que valoriza a sua força de trabalho. 

(*) Valdeci Oliveira, que escreve sempre as sextas-feiras, é deputado estadual pelo PT e foi vereador, deputado federal e prefeito de Santa Maria. Também é 1º Secretário da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa e Coordenador da Frente Parlamentar em Defesa da Duplicação da RSC-287.

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