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Ensaio sobre a loucura feminina – por Elen Biguelini

Como tratar a distorção histórica: ela é histérica/louca, ele mata e é só doente

Cada dia mais nos deparamos com os díspares entre a reação a atitudes masculinas ou femininas. Enquanto mulheres, quando se vêm atacadas e respondem da mesma forma que os homens, são histéricas e loucas; um homem que tem um surto psicótico e mata milhares é apenas doente.

Ao longo da história, as mulheres eram definidas segundo a dicotomia do anjo ou demônio. A mãe e esposa, a casta senhora que educa seus filhos e obedece ao marido, ou freira e religiosa, é aquela que é vista como Maria (especialmente a partir da idade média quanto o culto mariano começou a aumentar). Já aquela que tem sua sexualidade aberta, aquela que foge aos princípios morais da castidade, aquela que fala, que se revolta contra a violência, que tenta se impor, é relacionada ao diabo.

A “loucura” e a “histeria” feminina fazem parte da segunda. Não é a toa que durante a década de 1950 eram fechadas em quartos, numa “cura silenciosa” que as deixavam ainda mais deprimidas e perdidas (como no texto “Yellow Wallpaper”, ou o “Papel de Parede Amarelo” de  Charlotte Perkins Gilman.)

A loucura é substantivo feminino. Somos nós as loucas. Os homens estão em crise, mas a mulher é relacionada a uma doença inerente ao feminino: o sentimentalismo exagerado que leva à histeria.

Freud certamente não ajudou a imagem da mulher na sociedade, ao tratar da histeria como uma doença sexual, uma “falta do pênis”.

Lembramos que as mulheres são definidas na sociedade como o outro. Elas são o diferente, o desconhecido. “Como saber o que querem dizer as mulheres?”. A mídia e a literatura transformaram a feminilidade em incógnita”.

Assim, todas aquelas que se expressaram eram loucas, porque, ao longo da história, o ideal de feminilidade era uma freira que fazia votos de silêncio e vivia abaixo da proteção masculina.

Mas ao longo da história também sabemos que as mulheres não eram assim. Nem o são hoje. As mulheres têm voz e querem levantar ao mundo.

Assim, revoltavam-se e eram descritas como loucas, amorais: bruxas. Não é a toa que imagem da bruxaria era tão relacionada a sexualidade durante a Idade Média, com representações diretamente relacionadas a Maria Madalena, a prostituta bíblica.

Assim, esta imagem do que é o feminino foi repassada (embora de forma levemente modificada ao longo dos séculos) e tornou-se no que temos hoje. As mulheres (especialmente negras) que falam ou que pretendem ser ouvidas, são tachadas de loucas, machonas (como o exemplo visto recentemente no Brasil), histéricas.

Uma mulher que chora é uma mulher abalada, incapaz de raciocinar.

Um homem que chora é um ser sensível, corajoso.

Mas como reverter isso? Perguntamo-nos frequentemente.

Apenas educando nossos filhos de maneira a não perpetuar esta dicotomia tão chocante que continua a propagar a suposta inferioridade feminina.

Eduquem seus filhos e filhas a serem igualitários. Só assim temos um futuro mais colorido.

(*) Elen Biguelini é Doutora em História (Universidade de Coimbra, 2017) e Mestre em Estudos Feministas (Universidade de Coimbra, 2012), tendo como foco a pesquisa na história das mulheres e da autoria feminina durante o século XIX. Ela escreve semanalmente aos domingos, no site.

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