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“O sexo que não é”. Luce Irigaray e o discurso – Por Elen Biguelini

Em 1977 uma autora feminista belga usou uma frase que define em muito a disparidade que estas mulheres viviam no dia-a-dia na sociedade e que, infelizmente, persiste até hoje. Ela referiu-se ao feminino como “Ce sex qui n’en est pas un”; ou seja, o “sexo que não é”. Assim como Simone de Beauvoir havia escrito antes, ela demonstra, então, que a feminilidade não se define por si só, mas apenas em oposição a outro.

O livro Ce sex qui ne pas un (1977) é uma coleção de textos, alguns que já teriam sido publicados, de Luce Irigaray. Nele a autora coloca suas opinões sobre a mulher e sua não existência no discurso. Percebendo, então, a necessidade de uma outra linguagem que ultrapasse aquela costumeira, que se baseia na masculinidade.

Luce Irigaray é uma feminista belga, conhecida pelo seu trabalho no feminismo francês (e pela écriture feminine). A autora estudou psicologia e, desta forma, suas análises levam a obra de Lacan e Freud como base para compreender a subalternidade feminina na sociedade.

Irigaray afirma que para Freud não há dois sexos. No início a menina era um menino e a castração para ela vem de aceitar que não tem um falo, ao invés de ter medo de perdê-lo. O feminino é, então, definido pela falta, pelo defeito, pela atrofia. Ao perceber que a mãe também não tem o falo, a filha passa a odiá-la e torna-se para o pai, com o desejo de obter o que nenhuma mulher tem. Logo, a forma de obter o falo é através de um filho homem. No texto freudiano, então, feminino não seria nada mais do que um complemento da sexualidade masculina. Através desta perspectiva, a própria definição do que é feminino é masculina.

As discussões da autora não vão além da dicotomia entre os sexos biológicos, ainda que tenha tido influência na obra de Beavoir que lembra que a feminilidade se forma através da sociedade e não é, então, biológica. Sua formação, no entanto, traz um embate com a obra do pai da psicanálise, justamente por perceber que ele não fugiu da imagem da mulher como um “homem defeituoso”, um “homem imperfeito” que já era recorrente desde Aristóteles. Outra crítica de Irigaray é o fato de Freud se prender ao anatómico, dando ao pénis um valor muito grande, devido ao seu status como órgão reprodutivo. Irigaray lembra, no entanto, que os orgãos sexuais femininos também são reprodutivos.
Assim, o Un ao qual a autora se refere em seu título é o UM masculino, o Homem como definição de humanidade.

Joan Scott, historiadora que trouxe o conceito de “gênero” para a historiografia, percebe também esta questão, na qual a feminilidade se define apenas quando comparada a masculinidade. O termo tão debatido e mal interpretado, define apenas isso, que a sociedade molda os padrões de feminilidade aceitos em determinado momento. Enquanto no século XVIII os homens da elite sociocultural inglesa usavam peruca e pó no cabelo, sendo este o ideal de masculinidade; os jovens dos anos 1950 usavam a “brilhantina” e os de 1990 jeans rasgados.

Era este o modelo de beleza masculina. A sociedade e o tempo moldam a masculinidade, assim como a feminilidade.
O que Luce Irrigaray lembrou ainda em 1977, então, é a necessidade de reabrir o discurso filosófico, para que assim ressurja o feminino nele perdido. Um dos caminhos para isto é o que ela utiliza em seus textos de “escrita feminina” (écriture feminine), um modelo de texto que não é exclusivo às mulheres, mas que teria a feminilidade em sua base.

Há que se examinar a gramática, as leis sintáticas, as metáforas e, principalmente os silêncios do discurso. No entanto, Irigaray não vê isso como suficiente, o que se deve fazer é tentar destruir o discurso. Em parte, porque falar sobre mulheres implica utilizar a linguagem dominante, masculina, a qual não tem palavras para definir o feminino. Seria preciso, então, criar uma nova linguagem.

É daí que feministas atualmente criam novos termos e procuram novas formas de comunicação que permitam a inclusão ao invés da inclusão da feminilidade.

Expressões como todEs, amig@s, ou humanXs auxiliam este debate, mas, infelizmente, não chegam à fundo da questão. Como definir a feminilidade, ou ainda os diferentes gêneros que a história tem nos demonstrado ter existido ao longo dos tempos, sem utilizar-se do modelo falocêntrico de linguagem que por tanto tempo prosperou por toda a sociedade?

Ainda que Irigaray e outras filosofas tenham proposto métodos que podem ser utilizados, a questão permanece sem resposta. Cabe a nós, continuar a discutir estas questões, tentando a utilização de termos menos excludentes.

*Elen Biguelini é Doutora em História (Universidade de Coimbra, 2017) e Mestre em Estudos Feministas (Universidade de Coimbra, 2012), tendo como foco a pesquisa na história das mulheres e da autoria feminina durante o século XIX. Ela escreve semanalmente aos domingos, no site.

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