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Por uma cultura de desobjetificar o idoso – por Débora Dias

“O problema não é ficar idoso; mas como nossa sociedade trata os idosos”

No dia dos avós fiz uma visita oficial ao Lar das Vovozinhas. Já conhecia superficialmente, mas não oficialmente. Bem, fui muito bem recebida pela direção, vice-direção, assistente social e administradora do Lar. Mas não tem como não ficar triste, passando pelas inúmeras dependências, quartos, cozinha, salas, embora tudo estivesse muito bem organizado, limpo e as idosas com aparência de bem cuidadas.

Não tem como evitar o pensamento de “depósito’ humano, como em muitas outras situações, já tive esse sensação, como presídios (não digam que estou defendendo “criminoso”, eu seria a última  a fazê-lo, até porque já colaborei e muito, e ainda colaboro, em colocar criminosos na cadeia).

Mas esse assunto sobre os presos fica para outro artigo. Falo é da sensação/sentimento de depósito humano. Depósito é um local aonde se colocam coisas, guardadas sem atrapalhar, conservadas ou não, mas para ficarem separadas das demais que estão sendo úteis, ou utilizadas.

E, passando pelas idosas nos corredores do Lar, meu sentimento é de que, a não ser que viemos a morrer antes, todos e todas chegaremos a ficar idosos, curso natural da vida de todo ser vivo. O problema não é ficar idoso, o problema é como nossa sociedade ocidental trata os idosos. Se, por um lado temos um belo Estatuto do Idoso, Lei nº 10.741/2003, que preconiza e dispõe sobre respeito, prioridade no tratamento dos idosos, além da previsão dos crimes, temos a dura realidade da pouca efetividade de nossas leis ou do poder sobre-humano que colocamos em nossos dispositivos legais, querendo que a lei, principalmente a criminal, cumpra todas as deficiências e omissões da sociedade, da falta de ações governamentais, da ausência de políticas públicas, de carência de proatividade de grande parte de nossos políticos.

Acho que nós, em nosso país, em situações que exigem ações afirmativas, muitas vezes, em resposta ao clamor popular editasse um a lei, sem ocorrer outro movimento extremamente necessário, a mudança na sociedade, a transformação cultural, que deveria ter como objetivo a descontrução de comportamentos arraigados  como o machismo, o preconceito, de toda ordem, mas hoje falo da desvalorização do idoso.

Nos países orientais, o idoso é tido como mestre, valoroso, sábio, honrado, aqui nós desprezamos o idoso. A nossa sociedade admite somente o novo, o belo, o perfeito, e a idade vêm para todos, com cabelos brancos, rugas, algumas doenças (não para todos, mas vêm), algumas limitações, às vezes no andar, no ouvir, etc. 

Mas, desde quando isso tudo destrói o ser humano por trás daquele corpo não jovem? Será que algum dia nós estaremos preparados para ficarmos velhos e respeitarmos os direitos humanos mínimos dos idosos?

Acredito que nós temos que aprender a “desobjetificar” o idoso, o ser humano no geral, desvinculá-lo de um prisma capitalista. Cultuar o respeito aos idosos no seio da família, pelos mais novos (logo chegará a vez deles também) e, aprender com países orientais, como por exemplo o Japão, uma das maiores expectativas de vida do mundo, aproximadamente 79 anos para os homens e 86 anos para as mulheres, no sentido da existência de medidas governamentais inclusivas para idosos, como programas de aprendizado permanente, de programas específicos que os valorizem, levando em mente que segundo a Organização Mundial de Saúde, em 2025, seremos 32 milhões de idosos.

(*) Débora Dias é a Delegada da Delegacia de Proteção ao Idoso e Combate à Intolerância (DPICoi), após ter ocupado a Diretoria de Relações Institucionais, junto à Chefia de Polícia do RS. Antes, durante 18 anos, foi titular da DP da Mulher em Santa Maria. É formada em Direito pela Universidade de Passo Fundo, especialista em Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes, Ciências Criminais e Segurança Pública e Direitos Humanos e mestranda e doutoranda pela Antónoma de Lisboa (UAL), em Portugal.

Nota do Editor: a imagem (sem autoria determinada) que ilustra este artigo é uma reprodução da internet. E foi obtida neste site: AQUI.

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Um Comentário

  1. ‘meu sentimento é de que, a não ser que viemos a morrer antes, todos e todas chegaremos a ficar idosos, curso natural da vida de todo ser vivo’, Que pérola! Não tenho este sentimento, tenho certeza absoluta.
    ‘a mudança na sociedade’; ‘o ser humano no geral, desvinculá-lo de um prisma capitalista’; ‘Cultuar o respeito aos idosos no seio da família’. É a sociedade ou a familia?
    Fatos: na China não existe previdencia social. Depois que a criatura não tem mais condições de trabalhar descartam o sujeito para a familia cuidar.
    O resto é pollyannismo.

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