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Donzelas Guerreiras 3. Jovita Feitosa (1848-1867) – por Elen Biguelini

Jovita Feitosa não teve uma vida muito longa, mas teve uma história que marcou os livros de História do Brasil, por sua força, coragem e destreza militar.

Nascida Antônia Alves Feitosa, mas conhecida como Jovita, foi uma militar brasileira do Ceará. Seus pais foram Simeão Bispo de Oliveira e Maria Rodrigues de Oliveira.

Após o falecimento de sua mãe, foi criada pelo pai e, posteriormente, Jovita passou a viver com um tio, no Piauí. Sabia ler e escrever, ativara e trabalhava como costureira. Na cidade onde morava, Jaicós, partiu à pé para a capital do estado e se alistou ao exército com 17 anos.

Mas como então se tratava do século XIX, mulheres não podiam aceder a carreira militar; logo, teve que se travestir para poder exercer a função. Segundo seu biografo contemporâneo, “Logo que chegou a Theresina, capital do Piauhy, tomou trajes grosseiros de homem, cortou os cabellos com uma faca, tomou um chapéo de couro, e assim vestida dirigio-se ao Palácio da Presidência, pedindo para ser alistada voluntário da Pátria.” (FLUMIENSE, 1865, 13). Assim como outras donzelas guerreias, então, aproveitou-se da masculinidade reservada ao uniforme militar para esconder seus trejeitos de feminilidade e conseguiu enganar grande número de seus colegas. Suas calças e camisa militar, unidos ao chapéu e ao cabelo cortado, no entanto, não foram o suficiente para enganar outras mulheres que perceberam seus traços femininos.

Segundo o relato de um jornal da capital do Piauí, “uma ulher vendo-a com as orelhas furadas, dirigio-se á ella respondente e apalpando-lhe os peitos, apezar de sua opposição, e de ter atados os seios com uma cinta, a referida mulher pôde conhecer o seu sexo, e immediatamente descobrio-a” (FLUMINENSE, 1865, 18-19)

Denunciada, teve que se colocar perante as autoridades militares. No Piauí, perante estes, foi vista com espanto, mas com orgulho. A Guerra do Paraguai era o motivo da transgressão da jovem. Ela desejava lutar e defender o seu país. Quando havia sido descoberta, chorou em frente àqueles que a questionavam, desejando fortemente poder participar das batalhas que estavam na mente de todos naquele momento.
Segundo a mesma biografia mencionada anteriormente, “ Seu maior desejo, diz ella, é bater-se com os monstros que tantas offensas têem feito ás suas irmãs de Matto Grosso; é vingar-lhes as injurias ou morrer nas mãos desses tigres sedentos” (FLUMINENSE, 1865, 14).

Foi permitido que partisse com os militares até o Rio de Janeiro e se dirigir ao Paraguai. Durante as paradas e trocas de barcos em que fazia o trajeto, foi aclamada por todos (PRADO; FRANCO, 2012, 200).

Apesar da inicial permissão, quando chegou a capital do país teve a permissão revogada, e foi proibida de seguir com seus colegas e teve que permanecer na cidade. Seu desejo de participar na guerra, “Eu tenho muita raiva dos Paraguayos, queria ir para a guerra para matar essa gente” (FLUMINENSE, 1865, 25), não pode ser concretizado.

Ficou conhecida como Heroína Brasileira (posto que em 2017 foi consagrado ao ser adicionada ao Livro dos Heróis da Pátria), mas não obteve permissão para participar.

Ela havia seguido um irmão que já havia se alistado, e tentava, assim como ele, lutar por seu país; mas seu sexo foi vetado da guerra.

Nota-se que a participação feminina na Guerra do Paraguai foi vista com furor por toda a mídia do período. Jornais de diversos locais mencionam esta e outras figuras femininas que participaram ou tentaram participar.

Imagens de Jovita são diversas, especialmente com seu chapéu de couro e por vezes com uma saia. Mas mesmo com toda esta publicidade, e com figuras populares e mesmo algumas da elite a seu favor, Antónia não pode ir ao Paraguai.

Após retornar a sua terra, no Piauí, não foi mais aceita por seus conterrâneos. Ela era uma estranha, que havia ousado para além do que deveria e, para além de tudo, voltava sem sucesso. A honra nos olhos daqueles que a admiravam, tornara-se o rancor no olhar de seus conhecidos.

Optou pelo retorno ao Rio de Janeiro, onde imaginava que seria aceita. No entanto, a transgressão feminina era vista com maus olhos pela sociedade. Não mais vestida de militar, teve sua fama e honra difamadas por periódicos e por pessoas de diversos níveis.

Conheceu um engenheiro inglês por quem se apaixonou. Com ele teve um caso. Fora este fato, pouco se sabe da vida da jovem então. Quando este teve que tornar a seu país, ela suicidou-se com uma adaga no coração, no quarto de seu amado. Deixou uma carta no bolso de seu vestido, afirmando que apenas ela e Deus compreenderiam a razão de sua ação.

Uma vida curta, marcada de dor e sofrimento. Passou muitos anos esquecida, até que a História das Mulheres a recuperasse. Mas finalmente Jovita agora aparece no rol daqueles que marcaram o Brasil. Sua força e sua coragem foram exemplo. Hoje são ainda mais, ao podermos observar que aguentou as pressões da sociedade. Infelizmente, viveu pouco tempo neste mundo, e o tratamento que recebera por seus contemporâneos foi demais para sua sensibilidade. Foi jovem, mas hoje está forte nos pavilhões da História.

Fontes
FLUMINENSE, Um. [COARACY, José Alves Visconti. ]. “Traços Biographicos da Heroina Brasileira Jovita Alves Feitosa, ex-sargento do 2º corpo de voluntarios do Piauhy”. Rio de Janeiro: Typ. Imparcial de Brito & Irmão, 1865.
PRADO, Maria Lígia; FRANCO, Stella Scatena. Participação feminino no debate público brasileiro. In. PINSKY, Carla Bassanezi; PEDRO, Joana Maria (org.). “Nova História das Mulheres”. São Paulo: Editora Contexto, 2012. pp. 194-238.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jovita_Feitosa

*Elen Biguelini é doutora em História (Universidade de Coimbra, 2017) e Mestre em Estudos Feministas (Universidade de Coimbra, 2012), tendo como foco a pesquisa na história das mulheres e da autoria feminina durante o século XIX. Ela escreve semanalmente aos domingos, no Site.

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