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Imprensa ainda não descobriu que o agronegócio não tem um comando central – por Carlos Wagner

É preciso “tomar o cuidado de desconfiar” de quem diz falar pelo agronegócio

O jornalista precisa conhecer melhor como funciona o agronegócio para evitar colocar tudo no mesmo baleio (Foto Reprodução)

Em nome da precisão jornalística precisamos ser mais específicos quando falamos sobre a participação do agronegócio na disputa política. De uma maneira geral temos considerado como se o entrevistado falasse por todos os envolvidos na atividade.

Isso não existe. Por quê? O agronegócio envolve vários estágios: cultivo, colheita, industrialização, exportação e pesquisa da produção de soja, milho, algodão, celulose, café, açúcar e tantos outros produtos agrícolas. E de carnes de suínos, frangos, gado e outras. Todo esse complexo não age em torno de um comando central. Seria impossível, por ser grande demais.

Há pessoas e entidades que falam por parte do seu segmento. Em outros tempos não havia grandes problemas para tratar tudo de uma maneira geral, porque a imprensa não enfrentava a bem azeitada e precisa máquina de fake news montada e usada na disputa política. Hoje, entre todas as diferenças entre o jornalismo profissional e o praticado pelos milicianos digitais, a mais importante é a precisão. É sobre isso que vamos conversar.

Antes de seguir contando a história. Vou compartilhar algumas informações que considero importante para a nossa reflexão. Sou um velho repórter estradeiro de 71 anos que acredita que a especialização da nossa profissão facilita o sucesso profissional do repórter. Por conta dessa crença foquei a minha carreira em três assuntos: conflitos agrários, migrações e crime organizado nas fronteiras.

Conheço profundamente como nasceu, se organizou e se atualizou perante as novas tecnologias o que chamamos de agronegócio. Nos últimos 40 anos tenho palmilhado o interior do Brasil e de países vizinhos escrevendo reportagens e livros sobre o povoamento, os conflitos e o desenvolvimento dessas regiões.

Sobre o povoamento das fronteiras agrícolas nos anos 70 escrevi os livros: A saga do João Sem Terra (1985), Brasiguaios: Homens Sem Pátria (1990), Brasil de Bombachas (1995), O Brasil de Bombachas – As novas fronteiras da saga gaúcha (2011) e De Pai para Filho na Migração Gaúcha (2019). Tenho me mantido atualizado sobre o que rola nesses rincões.

Voltando a contar a história. Nos últimos anos cristalizamos nas nossas reportagens que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e os produtores rurais são inimigos de morte. Por quê? Lá no final dos anos 70, quando as lavouras de soja e outras culturas, como arroz irrigado, começavam a dar os seus primeiros passos rumo à profissionalização que conhecemos hoje, um dos freios para a expansão da produção era o elevado preço do arrendamento de terras.

Nos anos 80, sempre que o MST ocupava uma propriedade rural em uma região, o preço do arrendamento caía em até 80%, porque o proprietário tinha medo de ser o próximo a ser invadido. Isso facilitou o avanço das lavouras.

A maneira como falamos sobre o agronegócio nas nossas matérias passa a impressão de que apenas grande produtores de grãos e de gado fazem parte do setor. Não é verdade. A produção de frangos, suínos e leite é feita pela pequena propriedade, também conhecida como agricultura familiar. Esses agricultores trabalham em parceria com as agroindústrias, que fornecem os insumos para a criação e industrializam e exportam os produtos.

Essa parceria gera algumas centenas de empregos pelo interior do Brasil. Todos esses fatos que citei já tinha mencionado em outros posts, geralmente perdidos lá no meio da conversa. Claro, não estou pregando aqui que o repórter anexe à matéria uma tese de mestrado explicando a representatividade da pessoa que diz falar pelo agronegócio. Estou dizendo que precisamos alertar o leitor sobre a complexidade do assunto, que não permite que alguém diga que é representante de todo o setor.

Vou citar um fato. Um dos esteios do agronegócio são as cidades de Sinop e Lucas do Rio Verde, no chamado Nortão do Mato Grosso. Uma boa parte dos povoadores dessa região fazia parte do acampamento dos sem-terra da Encruzilhada Natalino, no Rio Grande do Sul – história está disponível na internet. Hoje são comerciantes, produtores de grãos e profissionais de outros ramos espalhados pela região.

Lembro-me que, em 2018, durante a campanha eleitoral presidencial, havia uma tese circulando nas redações pelo interior do Brasil de que, como as fronteiras agrícolas haviam sido povoadas pelo regime militar que governou o país de 1964 até 1985, aliado com empresas colonizadoras, o agronegócio seria um dos esteios políticos do atual presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido).

O andar da carroça mostrou que a realidade não é assim. Os ataques feitos por Bolsonaro e seus aliados contra a China, principal compradora dos produtos agrícolas no mundo, somado ao apoio aos madeireiros ilegais e aos garimpeiros de terras indígenas que estão destruindo a Floresta Amazônica e, com isso, provocando protestos dos ecologistas ao redor do mundo que podem resultar no boicote aos produtos do agronegócio, causou uma reação forte contra o governo. Isso significa que nas próximas eleições o agronegócio vai votar no candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, ou em um candidato de centro?

Isso não significa nada, porque não existe um comando central no agronegócio, como venho dizendo há um bom tempo. E não sou o único que tem falando sobre o assunto. As redações precisam se atualizar sobre o que é o interior do Brasil nos dias atuais. Para evitar ficarem reféns de análises que carecem de informações precisas.

O repórter deve tomar o cuidado de desconfiar de quem diz representar o agronegócio. Tive uma discussão há uns dias com um editor de São Paulo sobre assunto. Claro, facilita a vida do jornalista usar a palavra agronegócio no título. Mas a maneira como a estamos usando dá uma ideia errada para o leitor.

É preciso encontrar outra solução, porque do jeito que estamos fazendo reforçamos a ideia vendida pelas milícias digitais que vivem de fake news e do esculacho ao bom jornalismo. Já falei sobre isso. Mas vou repetir por considerar importante e ser aquele tipo de coisa que precisamos sempre lembrar aos jovens repórteres e aos leitores que não são jornalistas.

Existem nas redações as “verdades”, que são termos que usamos nas matérias sem questionar, porque desde que o mundo é mundo todos os repórteres os usam e, portanto, julgamos que o leitor saiba do que estamos falando. As novas tecnologias e as milícias digitais acabaram com isso. Hoje é necessário revermos as “verdades” da redação em nome da precisão jornalística. Podem escrever no bloco de anotações, o velho companheiro do repórter.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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