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Gasolina é mais barata nas estradas do que em Porto Alegre, que fica ao lado da refinaria – por Carlos Wagner

O assunto parece ser da capital, apenas. Mas tem muito a ver com o interior

Vale a pena abastecer o automóvel nos postos das estradas. O custo é menor que perto da refinaria (Foto Reprodução)

Mesmo o observador menos atento nota que, ao sair de Porto Alegre rumo ao interior do Estado, os preços dos combustíveis, em especial da gasolina, são menores nos postos de abastecimento das estradas.

Não era assim antes. Por conta da minha profissão de repórter, desde 1979 ando com frequência pelas rodovias que ligam a Região Metropolitana de Porto Alegre ao resto do Brasil. Os preços dos combustíveis eram mais baratos na capital gaúcha porque a cidade fica a pouco mais de 20 quilômetros da refinaria Alberto Pasqualini, construída em 1968 às margens da BR-116, em Canoas, importante centro industrial do Rio Grande do Sul. Logo, o custo do transporte é menor.

Uma das explicações para o fato de Bagé e Dom Pedrito, cidades da fronteira sul com o Uruguai, terem a gasolina mais cara do Brasil é estarem situadas a mais de 500 quilômetros de distância da refinaria Alberto Pasqualini. No feriadão da Proclamação da República percorri a BR-386 até Sarandi, cidade agroindustrial a uns 350 quilômetros de Porto Alegre, e constatei que o preço do litro da gasolina, em média, era 20 centavos menor do que nos postos da Capital.

Pelas conversas que tive com colegas que andaram pelas estradas que ligam a Região Metropolitana a Gramado e a outras regiões do Estado, há postos com preços semelhantes aos que eu encontrei na BR-386. O que está acontecendo? E por que esse assunto é do interesse do leitor?

Antes uma explicação que julgo necessária. Nas últimas três décadas, mudou muito o perfil dos postos de combustíveis espalhados ao longo das estradas que cortam o território brasileiro de leste a oeste a de sul a norte. Nos anos 90, surgiram os postos “bandeira branca”, que não eram ligados a nenhuma marca tradicional do ramo de combustíveis. Por conta disso, eles vendiam o combustível mais barato, e não demorou muito para os concorrentes espalharem que vendiam gasolina “batizada” (adulterada).

Muitos desses postos viraram novas marcas, ganharam musculatura no mercado e hoje são empresas de médio a grande porte. A maioria dos “bandeiras brancas” nasceu na beira da estrada e depois se expandiu para as áreas urbanas das cidades.

Agora, voltando a contar a história e respondendo à primeira pergunta. Foram essas novas marcas que começaram a fazer promoção nos preços nos feriadões, quando as estradas se enchiam de carros. Automaticamente, as marcas tradicionais seguiram no mesmo rumo dos concorrentes. Mas, passado o feriadão, as promoções acabavam.

Fiz algumas ligações para fontes que tenho em empresas do ramo de combustíveis. Muitas delas ocupam cargos de executivo, e as conheci em 2014, quando fiz uma longa e detalhada reportagem sobre os assaltos aos postos, que são apelidos pelos bandidos de “caixa eletrônica”, devido à facilidade de serem assaltados, principalmente os que funcionam 24 horas.

Pelo que conversei com os executivos, a estratégia de vender gasolina mais barata na beira da estrada acabou se consolidando por conta própria. Não se sabe até quando vai durar. A respeito do preço do combustível em Porto Alegre há uma velha história que circula entre os jornalistas desde que comecei a trabalhar, em 1979, dando conta da existência de cartéis de donos de postos.

Primeiro, pensava-se que um único cartel controlava todos os estabelecimentos. Depois, surgiu a conversa de que, na verdade, eram vários cartéis, que se organizavam por regiões da cidade. Lembro que no final dos anos 90 fiz uma notícia de pé de página no jornal sobre o proprietário de um posto em Porto Alegre que tentou vender a gasolina a preços abaixo dos concorrentes. Foi ameaçado por homens armados e teve o posto depredado.

Como toda a notícia de pé de página, o assunto sumiu do noticiário e nunca ninguém foi preso. Na verdade, nunca se conseguiu provas da existência dos cartéis de revendedores de combustíveis na Capital. Muito embora os preços sejam muito semelhantes em todos os postos da cidade. Virou uma lenda urbana a história do cartel. Sempre lembrada nas redações em períodos de grandes elevações nos preços, como o atual.

Aqui quero responder à segunda pergunta que fiz lá na abertura do post. Por que o assunto é de interesse do leitor? O assunto é do interesse do leitor não apenas porque o país vive um dos piores momentos na sua história recente na elevação dos preços dos combustíveis. O motivo maior é que os serviços de fiscalização da qualidade da gasolina no Brasil têm deficiência de funcionários e equipamentos e não têm capilaridade. Dentro de uma realidade dessas, quanto mais conhecimento o leitor tiver sobre como as coisas funcionam, mais chance ele tem de evitar “comprar gato por lebre”.

Apesar de o Brasil ser um país continental e o principal meio de transporte ser o rodoviário, é discreto o volume de informações publicadas pela imprensa sobre como funcionam as estradas. Um exemplo disso eu descobri da pior maneira. Em estados como Mato Grosso do Sul e Mato Grosso nunca se deve deixar o indicador de combustível baixar da metade, porque a distância entre os postos é enorme. E muitos não trabalham com gasolina. Só diesel, para os caminhões.

Escrevi sobre o fato do preço da gasolina do Rio Grande do Sul ser menor na estrada do que na Capital, que fica ao lado da refinaria, por entender que o assunto merece a atenção dos colegas, principalmente agora, nas festas de fim de ano, quando milhares de pessoas vão pegar a estrada. Em uma crise dessas, cada centavo poupado é valioso. Fica a sugestão de pauta.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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Um Comentário

  1. Diria que é uma questão de custo. Muitos postos de gasolina terceirizam a lavagem de carros e até a borracharia. Dono fica com troca de oleo, bombas de combustivel e conveniencia. Lancheria as vezes também é terceirizada. Existem postos de gasolina alugados. Quem toca o negocio tem que tirar o sustento e o aluguel. Até o imposto sobre o terreno deve ser diferente, beira de estrada menor. Comercio de combustiveis não paga ISS, mas os penduricalhos acredito que sim. Regime de tributação da empresa também entra na conta, faturamento é diferente. Estudo sobre o assunto não vai acontecer, informações estrategicas não são publicizadas por conta da concorrencia. Finalmente, teste do combustivel pode ser exigido pelo consumidor. Nunca vi alguém pedir. Resumo da ópera: muita conclusão para pouca informação.

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