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A guerra ao bom senso – por Luciano Ribas

Tem Vargas Llosa e tem o caso de racismo. Mas também tem Garcia Marquez

Li “A Guerra do Fim do Mundo” faz alguns anos, mas ainda mantenho vivas as sensações provocadas pelo livro. Uma, em especial, segue forte em mim: a surpresa (na falta de palavra melhor) causada pelo fato de um estrangeiro escrever com tanta eloquência a respeito de um tema “tão brasileiro” como a Guerra de Canudos, um episódio controverso, cercado por mitos, versões e preconceitos.

Resgato essa memória – ou esse afeto, como está tão em voga hoje – porque ele ilustra a possibilidade de alguém mergulhar em um universo do qual não faz parte e, ao compreender a sua essência, traduzi-lo, ao menos parcialmente, em uma obra artística. É o que, sem base acadêmica alguma e munido apenas da falta de responsabilidade, penso que Vargas Llosa fez ao escrever o livro.

Também busco essa referência na tentativa de reforçar a noção de que é preciso tentar separar as “criaturas” dos seus criadores. E Vargas Llosa novamente me serve como exemplo. Afinal, o mesmo homem que escreveu “Os Cadernos de Dom Rigoberto” teve a capacidade de dizer que prefere Bolsonaro a Lula, revelando que o “liberalismo” de uma certa elite latino-americana não passa de um biombo para o autoritarismo e a ganância.

Não estou sequer cogitando que ele deveria dizer o contrário (como todas as pessoas com algum apego aos direitos humanos, à democracia e à lucidez estão fazendo, diga-se de passagem) e afirmar preferir Lula a Bolsonaro. Não. Mas não acho lícito – e reforço essa palavra – que qualquer pessoa com um nínimo de sensatez possa preferir a negação absoluta da humanidade à omissão, ao menos. Sim, porque entre Bolsonaro e Lula há, sempre, a possibilidade da pessoa omitir-se, seja em Lima, Madrid ou Paris. O que me traz de volta a Santa Maria da Boca do Monte.

Se até mesmo um escritor genial, com um Nobel de Literatura “na estante”, pode dizer tonterias, o que podemos esperar dos comentaristas de postagens da imprensa nas redes sociais?

Respondo: de boa parte deles, o pior possível, com limites situados entre a completa falta de noção e o crime. Se alguém tem dúvidas, por favor, busque as postagens do Diário de Santa Maria no Facebook com notícias sobre o mais recente caso de racismo ocorrido na UFSM. Aliás, deixo aqui a minha solidariedade não apenas às pessoas atingidas pelo racismo, mas também às e aos jornalistas que acabam sendo vítimas da barbárie online de muitos “comentaristas”. Não está fácil ser um profissional dessa área no Brasil, onde o exemplo da agressividade criminosa vem da pessoa que ocupa o cargo mais importante do país.

Por fim, quanto aos reais motivos que levaram Vargas Llosa a se tornar alguém capaz de optar por Keiko Fujimori e até pelo miliciano, há quem diga que apenas outro grande escritor, Gabriel Garcia Marquez, poderia responder. Um soco recebido pelo genial colombiano (que se manteve sempre fiel aos ideais da juventude) em um cinema mexicano, no ano de 1976, seria a prova disso.

(*) Luciano do Monte Ribas é designer gráfico, mestre em Artes Visuais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e doutorando em Diseño pela Universidad de Palermo (UP/Buenos Aires). É um dos coordenadores do Santa Maria Vídeo e Cinema, além de já ter exercido diversas funções na iniciativa privada e na gestão pública. Ele escreve neste site aos domingos. 

Para segui-lo nas redes sociais: facebook.com/domonteribas – instagram.com/monteribas

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