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Madame Récamier – por Elen Biguelini

Embora sem deixar textos, “ficou na história como uma dama das letras”

Madame Récamier marca a história do mundo por ter sido um exemplo para a Paris Napoleônica, tendo trazido à moda vestimentas inspiradas na Grécia antiga: o chamado Vestido Império que é hoje eternizado em adaptações da obra de Jane Austen ou textos contemporâneos retratando o período regencial britânico (como os Bridgerton, por exemplo).

Nascida Joanne François Julie Adelaide Bernard em 3 de dezembro de 1777 em Lyon, foi conhecida como Juliette Bernard ou Juliette Récamier. Sua família era de origem burguesa, sendo seu pai o notário real Jean Bernard (?-1728) e  sua mãe uma mulher inteligente e coquete chamada Marie-Julie Matton, proveniente de uma familia de posses mas não aristocrata. Foi educada no convento de La Déserte, em Lyon.

Ainda adolescente foi com a família para Paris em 1787, quando seu pai foi nomeado para um cargo na corte parisiense, razão pela qual chegou a ser preso durante a primeira fase da Revolução Francesa. No Palácio pertencente ao pai, que era visitado por escritores, banqueiros e políticos e conheceu aquele que seria seu marido. Ela, com apenas 16 anos, ele já rico e amante de sua mãe. Casou-se com  Jacques-Rose-Récamier (1751-1830) em 27 de abril de 1793. Mas o casamento não era um casamento comum: era tratada como filha ou irmã, sendo uma união tranquila e completamente platônica. Não há confirmação do fato, mas possivelmente seu marido fosse seu pai natural, e Juliette fruto do relacionamento extraconjugal entre seu marido e sua mãe. O fato de o casamento ter ocorrido no período do “Terror” da Revolução Francesa e seu marido ser opositor do regime do período apontam para a veracidade da possibilidade de que teria sido um casamento para dar a ela a herança que lhe seria de direito.

Como Madame Récamier continuou a viver uma vida de solteira, mas agora com as liberdades que o casamento lhe permitia. Uma destas liberdades era ter o próprio salão em sua casa a partir de 17978, quando tinha apenas 19 anos. Este salão foi no Palácio Necker, adquirido por seu marido e local que já era historicamente utilizado para salões.

Embora não tenha deixado textos, ficou na história como uma “femme des lettres” (uma dama das letras) por sua relação com a sociedade literária do período. Era amiga da grande escritora francesa oitocentista Madame de Stäel e recebia em sua casa todos os seguidores da Moda e da arte. Sua beleza era tanta que ficou conhecida como uma das “Trois Grâces” ou Três Graças da França do período.

Em sua casa se reuniam pensadores livres e ficou conhecida por receber os opositores à Napoleão, tendo sido oficialmente interditado por oficiais do regime. Entre os frequentadores de seu salão estão o escritor romântico François-René de Chateaubriand (1768-1848), o poeta romântico Alphonse de Lamartine (1790-1869), o crítico literário e poeta romântico Chales Augustin Sainte-Beauve (1804-1869), o general Victor Moreau (1763-1813), entre outros.

Assim como sua amiga Stäel, teve que fugir de Paris devido a sua posição politica contraria a Napoleão (ou talvez por ter negado os avanços românticos deste, visto que ela notoriamente recebia elogios e pedidos de todos os lados, mas não os aceitava). Passou então a visitar a Europa, como era costumeiro no período. Em suas viagens chegou a conhecer um Principe da Prússia por quem se apaixonou. Para se casar com ele, chegou a pedir o divórcio de seu marido, que teria aceitado, mas a formalização da separação não chegou a ser efetivada.

Voltou a Paris com a queda do Império Napoleônico, mas agora sem sua fortuna.

Iniciou em 1819 outro salão na capital parisiense. Voltou então a receber a sociedade literária e artística parisiense. No final de sua vida, já viúva, reunia-se todos os dias com seu amigo antigo Chateubriand. Morreu em Paris no dia 11 de maio de 1849.

Teve seu retrato pintado e repintado por diversos artistas franceses, e aparece com destaque em museus como o Louvre e Carnavalet. De forma literária, foi representada pela amiga Staêl em “Corrine”.  Não deixou textos literários, mas chegou a escrever memórias que ordenou que fossem destruídas ao invés de publicadas.  Algumas de suas cartas vieram à prelo em 1859 como “Souvenirs et correspondance de Mme Récamier” (Acesso via Gallica: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k6523520c.r=madame%20recamier?rk=236052;4)

Referências:

Página francesa da wikipedia sobre Madame Recamier. Acesso via: https://fr.wikipedia.org/wiki/Juliette_R%C3%A9camier

Página da Enciclopédia Brittanica sobre Madame Recamier. Acesso via: https://www.britannica.com/biography/Madame-de-Recamier

Página sobre Madame Recamier na Biblioteca do Congresso Americano. Acesso via: https://guides.loc.gov/women-in-the-french-revolution/juliette-recamier

Luyster, J. M. “Madame Recamier; her lovers and her friends”. Acesso via: https://www.theatlantic.com/magazine/archive/1864/10/madame-recamier-her-lovers-and-her-friends/628504/

Leitão Bandeira, Lourdes. “Salões culturais abertos por figuras femininas: O salão ‘Universitas Gratie’”. Lisboa: Carvalho e Simões Lda, 2006. p. 121-124

(*) Elen Biguelini é doutora em História (Universidade de Coimbra, 2017) e Mestre em Estudos Feministas (Universidade de Coimbra, 2012), tendo como foco a pesquisa na história das mulheres e da autoria feminina durante o século XIX. Ela escreve semanalmente aos domingos no Site.

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