Artigos

O caso do mondongo – por Marcelo Arigony

“Os parentes produziam novas provas. E ele voltava ao banco dos réus”

Todo inverno trazia de volta duas coisas: o frio e a conversa sobre mondongo.

Ele suportava bem o frio.

A conversa, nem tanto.

Nunca comeu mondongo.

Não gostava.

Talvez por alguma lembrança da infância. Talvez por uma vaga recordação de uma nota que jurava lembrar como sendo de esterco invadindo a cozinha enquanto a iguaria fervia no fogão.

Ou talvez por motivo nenhum.

Nem ele sabia.

E nem precisava saber.

Não gostava.

Ponto.

Mas o problema nunca foi o mondongo

O problema eram as pessoas.

Principalmente os parentes e amigos.

Sabiam que ele não comia.

Sabiam que não gostava.

Mas bastava uma panela aparecer para alguém anunciar:

— E ele, que não come mondongo!

E pronto.

Estava aberta mais uma sessão do caso.

— Mas por quê?

— Porque não gosto.

Mas a resposta nunca bastava.

Logo surgiam os especialistas.

— Tu tem que provar o meu.

— O segredo está no tempero.

— Eu começo a limpar um dia antes.

— Tu não conhece o do meu marido.

— O mondongo dele é famoso.

E ele ouvia tudo sem o menor interesse.

Não queria saber como limpavam.

Não queria saber como temperavam.

Não tinha perguntado.

Nem pretendia perguntar.

No início explicava.

Depois justificava.

Anos mais tarde, passou a fechar a cara.

Às vezes até respondia atravessado.

Afinal, há limites para a cordialidade humana.

E o mondongo já havia testado todos eles.

O curioso é que ninguém perguntava por que ele gostava de churrasco, de massa ou de sorvete.

Mas não gostar de mondongo parecia exigir explicações.

Como se uma preferência pessoal precisasse de laudo, perícia e fundamentação.

Há quem não goste de peixe.

Há quem não goste de café.

Há quem não goste de coentro.

E há quem não goste de mondongo.

A vida deveria seguir normalmente.

Mas bastava chegar o inverno para tudo recomeçar.

As testemunhas apareciam.

Os especialistas apresentavam suas teses.

Os parentes produziam novas provas.

E ele voltava ao banco dos réus.

Não por ter feito alguma coisa.

Mas por insistir, ano após ano, no grave delito de não gostar de mondongo.

E assim permanecia aberto, sem julgamento e sem sentença, o mais antigo processo da família:

O Caso do Mondongo.

(*) Marcelo Arigony é Advogado e Professor, ex-Delegado da Polícia Civil. Ele escreve no site às quartas-feiras.

https://marcelo.arigonyadvocacia.com

Artigos relacionados

ATENÇÃO


1) Sua opinião é importante. Opine! Mas, atenção: respeite as opiniões dos outros, quaisquer que sejam.

2) Fique no tema proposto pelo post, e argumente em torno dele.

3) Ofensas são terminantemente proibidas. Inclusive em relação aos autores do texto comentado, o que inclui o editor.

4) Não se utilize de letras maiúsculas (CAIXA ALTA). No mundo virtual, isso é grito. E grito não é argumento. Nunca.

5) Não esqueça: você tem responsabilidade legal pelo que escrever. Mesmo anônimo (o que o editor aceita), seu IP é identificado. E, portanto, uma ordem JUDICIAL pode obrigar o editor a divulgá-lo. Assim, comentários considerados inadequados serão vetados.


OBSERVAÇÃO FINAL:


A CP & S Comunicações Ltda é a proprietária do site. É uma empresa privada. Não é, portanto, concessão pública e, assim, tem direito legal e absoluto para aceitar ou rejeitar comentários.

3 Comentários

  1. ‘Como se uma preferência pessoal precisasse de laudo, perícia e fundamentação.’ Problema é que este ‘principio’ pulou para outras areas. Fatos não são questão de preferencia pessoal. No rastro da ‘inclusividade’ qualquer um(a) pode falar qualquer coisa sobre qualquer assunto. ‘É a minha opinião’, como se deixasse de ser uma asneira ou um disparate. Pior, ‘é a minha opinião’ sem fundamentação nenhuma e sem debate. Bom para o papagaio ideologico que só sabe repetir o que ensinam. Mesmo com a propria ideologia, ao menos no discurso, defender a ‘emancipação’.

  2. Questão de semantica. Se chamar de Trippa alla Romana, Trippa alla Fiorentina, Lampredotto ou Busecca a coisa muda de figura.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo