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Escuro, telefone… Gravando sonhos – por Márcio Grings

É muito intrigante todo esse lance de tentar decifrar o significado dos sonhos. Se é que há o que ser decifrado nessas codificações malucas do inconsciente. Numa noite, tantas viagens e recados ininteligíveis. Em algumas vezes, tudo parece tão real. Quando se pisa em solo límpido e tranquilo, tudo bem. Por outro lado, você sente uma sensação de impotência quando se vê empoleirado na beira do precipício ou nu em plena multidão. Eu sei. O caminho está obstruído por um pedregulho gigantesco que não dá chance nenhuma pra luminosidade passar. Há uma nebulosidade constante que energiza os sonhos com uma áurea nefasta. Embaçada, eu diria. Não tem jeito, você vai ter que remover essa pedra filha-da-puta dali.

É aí, pinta o divã na sua vida.

A terapeuta pede pra você lhe contar os sonhos, todos, para que então ela possa ouvir detalhadamente os relatos dessa epopeia noturna. Primeiro pensa em anotar tudo com caneta e papel. Logo se sente um estúpido quando lembra que pode usar o gravador do celular. Foi o que fez. Eles chegam a acontecer em lotes de cinco em apenas uma sequência de horas.  Acorda no meio da noite e grava o que vive no mundo dos sonhos. Quando desperta valendo, bem cedo pela manhã, ouve os murmúrios com atenção e rememora toda a celeuma e os blábláblás. É o som da própria voz que lhe sussurra aquela doideira toda. É assustador.

Tem coisas que nem lembra ter sonhado. Esquisito. O estranho é que seus sonhos não tem um fôlego de maratonista. Trata-se de curtas-metragens que podem ser apreciados no espaço de uma corrida dos cem metros rasos. Nada de longas ou seriados em capítulos e temporadas. Esqueça roteiros lineares ou uma coerente montagem dos fatos, não.  O tom quase sempre é nonsense, surreal e inusitado. Tudo muito rápido. Uma série de encontros e situações que o intrigam. Há anos. Conteúdo ao naipe de um conto de Sam Shepard. A história já começa sem pé nem cabeça, os inícios não são delineados e as narrativas dão um nó nas canelas. Ah, e tudo termina de maneira abrupta. Você deve estar atormentado, já pensou nessa hipótese?

Lembra-se do “Book of Dreams”, de Jack Kerouac? Assim Jack define sua experiência:

O livro foi facílimo de escrever – quando acordava, depois de horas de sono, ficava simplesmente deitado, “vendo” os quadros que se desfaziam aos poucos, como fins de cena de um filme, para se refugiarem nos recessos do meu subconsciente. (…) Assim, logo levantava da cama, com os ossos moídos e olhos inchados, para rabiscá-los rapidamente a lápis na agenda, até esgotar todos os detalhes possíveis – escrevendo sem parar, de modo que o subconsciente pudesse manifestar a sua própria linguagem, isto é, de forma ininterrupta, fluente e agitada.

É. Jack é foda! Um dos melhores, ainda mais nesse quesito de fluência, de deixar rolar as ideias de uma forma intuitiva e sem breque. “Book of Dreams” é uma espécie de sessão de terapia do homem. Já no caso de você, então, pelo menos já começou a gravar picotes dessa incursão pelo território do absurdo. Será que é tudo tão absurdo mesmo? Já pensou que essa experiência fodida, somada a disciplina e rigor nos registros sonoros podem se tornar algo elucidativo? Como advogado do demo, olha meu, eu vou dizer que tenho as minhas dúvidas. Mas você não é o experimentador, o cara que paga pra ver? Então, veja, sinta, elucide…

Sabe lá o que vai dar esse troço e o que a psicanalista irá deduzir sobre os relatos. Certo é que tem muita coisa doida grudada no seu espírito. Uma porcaria sem tamanho. Percebe que a manifestação do inconsciente rodopia com uma velocidade fantasmagórica? Como um daqueles carrosséis dos parques de diversões. Você tonteia, e enquanto avança a madrugada adentro essa trip o leva até lugares e situações completamente absurdas. E o trem fantasma arrepia a espinha quando você vê as chispas de fogo saltando pelos trilhos. E como se o próprio demônio estivesse no seu encalço. O temido bafo na nuca.

Fica tranquilo, bicho! Afinal, você não é o único nessa estrada noturna do absurdo. Com muita gente é assim, tudo tão tortuoso e incompreensível. Depois de apreciar o giro dos moinhos de vento, agora que esse primeiro pedregulho indesejado foi removido do caminho, só lhe resta continuar em frente. Meio Don Quixote e Sancho Pança. Só que vou lembrar-lhe de um detalhe: – você é os dois ao mesmo tempo. Durma com um barulho desses. E não se esqueça de deixar o telefone (gravador) debaixo do travesseiro.

Por favor, nos conte suas histórias. Vai lá, trepa naquela montanha dos diabos. E feito um Deus, do alto de toda essa experiência, ainda no calor dos acontecimentos, detalhadamente nos diga como enxerga as coisas lá de cima.

Eu quero saber de tudo. Mesmo que não seja nada.

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