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Da infância à hiperprodutividade: o que mudou nas figurinhas e nas pessoas – por Rosito Zepenfeld Borges

A febre das figurinhas da Copa do Mundo voltou a mobilizar crianças, jovens e adultos em escolas, praças, redes sociais e encontros presenciais de troca. À primeira vista, trata-se apenas de um passatempo tradicional que reaparece a cada quatro anos. Porém, observando com mais atenção, o fenômeno revela comportamentos e relações sociais que dialogam diretamente com o mundo contemporâneo – inclusive com as discussões atuais sobre saúde mental e riscos psicossociais no ambiente de trabalho, tema que ganhou ainda mais relevância com a entrada em vigor das atualizações da NR-01 relacionadas aos fatores de risco psicossociais, na semana passada.

O movimento das trocas de figurinhas evidencia algo que vem se tornando cada vez mais raro: a convivência espontânea entre pessoas. Para completar um álbum, é preciso conversar, negociar, esperar, construir vínculos e participar coletivamente de uma experiência. Em torno das figurinhas surgem encontros, grupos, cooperação e senso de pertencimento. Pessoas de diferentes idades e realidades sociais compartilham objetivos comuns e interagem de maneira genuína, muitas vezes criando relações que vão além do simples colecionismo.

No entanto, paralelamente a esse aspecto social, também se observa um comportamento cada vez mais presente: a ansiedade pela conclusão imediata. Muitas pessoas deixam de viver a experiência gradual de montar o álbum para buscar rapidamente o resultado final, adquirindo grandes quantidades de figurinhas, caixas fechadas ou coleções quase completas. O processo passa a ser menos importante do que a sensação de concluir rapidamente uma meta.

Esse comportamento encontra forte semelhança com o que acontece no ambiente de trabalho atual. Vivemos em uma cultura marcada pela urgência, pela hiperprodutividade e pela pressão constante por desempenho. Em muitos contextos profissionais, perdeu-se a valorização do percurso, do aprendizado gradual e da construção coletiva, substituídos pela cobrança por metas rápidas, resultados imediatos e disponibilidade permanente. A consequência disso é justamente o crescimento dos fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho, como ansiedade, estresse crônico, esgotamento mental, competitividade excessiva e sensação contínua de insuficiência.

As recentes atualizações da NR-01 reforçam exatamente a necessidade de as organizações reconhecerem e gerenciarem esses fatores que afetam a saúde mental dos trabalhadores. Aspectos como pressão excessiva, sobrecarga, falta de apoio social, relações interpessoais fragilizadas e ambientes de trabalho adoecedores passaram a exigir atenção ainda maior dentro da gestão de segurança e saúde no trabalho. Isso demonstra uma mudança importante de entendimento: saúde ocupacional não envolve apenas riscos físicos, químicos ou biológicos, mas também a forma como as pessoas se relacionam, trabalham e vivenciam emocionalmente suas atividades.

Curiosamente, o próprio fenômeno das figurinhas acaba funcionando como uma metáfora desse cenário. Quando o foco está apenas em terminar rapidamente o álbum, perde-se parte da convivência, da troca e das conexões humanas que tornam a experiência significativa. O mesmo acontece no trabalho quando a busca incessante por produtividade elimina espaços de diálogo, cooperação, reconhecimento e equilíbrio emocional.

Talvez uma das grandes reflexões trazidas tanto pelo álbum quanto pelas discussões sobre riscos psicossociais seja justamente esta: pessoas não funcionam bem apenas sob pressão e aceleração constante. Relações humanas saudáveis, pertencimento, interação social e tempo para construção dos processos continuam sendo elementos fundamentais para a saúde mental – dentro e fora do ambiente de trabalho.

(*) Rosito Zepenfeld Borges é Engenheiro de Segurança do Trabalho. Ele escreve no site às segundas-feiras.

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