Pequenos rituais de vitória – por José Renato Ferraz da Silveira
E então “o café ainda nem tinha passado, mas o carinho já estava servido”

Comecei o dia… ouvindo o miado de Kitty.
Um som pequeno (nem tão pequeno), mas cheio de vida, como um lembrete suave de que o mundo já estava acordado antes de mim.
Abri os olhos ainda meio sonolento, e ali estava ela – dona da casa, do silêncio e da primeira palavra da manhã.
O café ainda nem tinha passado, mas o carinho já estava servido.
Entre passos lentos, luz entrando pela janela e o ronronar que parecia música baixa, o dia foi se abrindo sem pressa. Sophie e Ping pularam sobre mim…
Percebi que existem despertadores que tocam… e existem despertadores que sentem.
E o de hoje tinham bigodes, patas macias e a delicadeza de quem só queria dizer: “Bom dia, humano. O mundo continua bonito.”
Minha mãe me trouxe boas notícias diante de um turbilhão de eventos não tão agradáveis neste mês de fevereiro.
E foi curioso perceber como uma frase simples, dita com carinho, tem o poder de reorganizar o dia por dentro.
Às vezes não é apenas a notícia em si – é o abraço invisível que vem junto dela.
Gravei alguns vídeos. Faxinei o meu apartamento. Ouvi muita música pop.
Pequenas tarefas que, vistas de fora, parecem rotina… mas por dentro funcionam como pontes, como se cada ação dissesse silenciosamente: estou seguindo, estou aqui, estou em movimento.
Entre uma música e outra, percebi que limpar a casa também limpa pensamentos, que organizar objetos organiza emoções, e que dançar sozinho na sala pode ser uma forma discreta de coragem.
O dia, que começou com um miado suave, nem tão suave assim (caro leitor), foi terminando com uma sensação serena de continuidade.
Nem tudo estava perfeito, mas havia ordem suficiente para respirar, esperança suficiente para acreditar e afeto suficiente para agradecer.
E assim, sem grandes anúncios, a vida foi mostrando que mesmo nos meses turbulentos existem manhãs gentis, notícias que aquecem e pequenos rituais que nos lembram: seguir em frente também é, silenciosamente, uma forma de vitória.
Enquanto lá fora, o Carnaval acontecia, com seus sons altos, cores vibrantes e passos apressados, aqui dentro o meu mundo seguia em outro compasso.Não havia confete no chão, mas havia pelos de gato espalhados como pequenas assinaturas de afeto.
Não havia multidão, mas existiam presenças sinceras o bastante para preencher o meu domingo.
(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).





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