Homem com H maiúsculo ou minúsculo? – por Amarildo Luiz Trevisan
Não é só sobre ditadura, nem só sobre arte. Trata-se de uma postura no mundo

Foi numa dessas noites em que a gente só quer alguma coisa para assistir sem compromisso que demos de cara com ele. “Homem com H”, estampava a tela da Netflix, em letras garrafais, como se me dissesse: “Sentem aí, que essa história ainda pulsa.” Não é só título de filme. É provocação. É espelho. E nós sentamos. Porque se há algo que ainda merece ser ouvido neste país de silenciamentos e memórias feridas é a voz aguda, indomada, luminosa de Ney Matogrosso. Sabíamos que não seria apenas um retrato de um artista. Intuíamos: seria um retrato de um tempo – e de um tipo de coragem que anda em falta por aí.
Logo nos primeiros minutos, já não estávamos mais apenas assistindo. Havia ali, mais do que figurinos exuberantes ou belos enquadramentos, uma pergunta insistente: que tipo de homem foi – e é – esse que ousou ser o que queria ser, em pleno cerco da ditadura?
A história que o filme conta é conhecida por muitos, mas raramente sentida como um sangue latino a cantar, onde tantos foram calados. Desde a infância em Bela Vista, no Mato Grosso do Sul, Ney já experimentava o peso da letra maiúscula: um pai militar, rígido, severo, incapaz de compreender a delicadeza como forma de força. Diante de um filho que dançava com os olhos e se expressava com o corpo, o pai só conseguia repetir a sentença de tantos outros homens pequenos: “Não crio filho pra ser artista.”
Mas Ney, ainda que machucado, não aceitou essa moldura. E foi isso que nos comoveu: a recusa dos rótulos. A recusa dos silêncios impostos. A recusa dos papéis pré-escritos. Em tempos de ditadura, quando até a respiração podia ser considerada subversiva, ele fez do palco um espaço de insurreição. Não precisava vestir a boina do Che – bastava seu gesto, sua dança, seu corpo, para incendiar o que havia de mais autoritário no ar.
Mas é claro que o filme não é só sobre ditadura, nem só sobre arte. Trata-se de uma postura no mundo. Jesuíta Barbosa, que o interpreta, não atua: encarna. Seu olhar ora fere, ora acaricia, e em tudo parece carregar uma espécie de raiva doce. Porque Ney não lutava com armas, mas com gestos. Com dança. Com aquele modo felino de ocupar o palco, de fazer do corpo um manifesto vivo. Contra a ditadura, contra os bons costumes, contra os quadradinhos onde insistem em nos enfiar desde que nascemos.
Ney é desses que não se encaixam, porque simplesmente nasceram para expandir. E isso incomoda. Como ele mesmo, o filme é um manifesto silencioso – ou melhor, sonoro – contra todas as formas de domesticação do corpo e da alma. Num país em que a liberdade é permitida apenas às mercadorias, e nunca aos corpos, ele ousou ser livre.
E entre uma música e outra, entre um beijo dado em Cazuza – me peguei pensando: o que faz um artista resistir quando tudo ao redor conspira para dobrá-lo? Não é só talento. É decisão. É aposta. É, como diria Sartre, compreender-se como um projeto. E Ney foi esse projeto sem modelo, sem patrão e sem pudor. Onde tantos se fizeram pequenos, ele fez-se inteiro. Um homem com “H” que a história não consegue silenciar, embora tenha tentado.
Foi Cazuza quem escreveu, profético: “Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades.” Ney eternizou esses versos com sua voz cortante. E hoje, ao revê-los, não parece apenas uma canção – soa como uma denúncia, uma previsão lúcida diante de um Brasil que ainda hesita entre o H maiúsculo e o minúsculo.
A dimensão crítica das músicas, que costuram o filme, é também um fio de filosofia. Ney nunca quis ser símbolo de nada, mas tornou-se. Não por adesão, mas por singularidade. Sua existência bastava. Recusou ser ícone de movimentos, bandeiras ou partidos – não por negação política, mas por saber que nenhuma sigla o comportava. Como disse Sartre, para compreender um ser humano, é preciso mais do que categorias. É preciso um gesto de compreensão, no sentido pleno da palavra. E isso o filme faz: nos convida a compreender, mais do que julgar.
Não sei se Ney é um herói – talvez ele mesmo recusasse esse rótulo. Mas sei que há uma grandeza nisso de seguir cantando enquanto o mundo desaba. De transformar dor em beleza e vergonha em brilho. Ele atravessou não só a ditadura, mas as drogas, AIDS, solidões e ainda assim, nenhum desses fantasmas conseguiu conter sua luz.
Ao final, ficamos ali, sentados, em silêncio. Sabíamos que não havíamos apenas assistido a uma biografia. Tínhamos atravessado uma fábula real, com um herói improvável que resistiu com a beleza da sua arte. Ney Matogrosso, homem com H maiúsculo, nos lembrou que a arte ainda pode ser uma forma de existir quando o mundo tenta nos apagar. E que viver de forma singular, quando quase tudo ao redor tende a nos reificar, padronizar e silenciar a diferença, é talvez o mais profundo gesto de liberdade.
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE/UFSM). Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





Resumo da opera. Vermelhos e seus ‘exemplos’. Cada vez mais tentando levar o debate para sua ideologia que a grande maioria não esta interessada.
Mais uma coluna sobre nada. Musicos e cantores. Maioria, como jogadores de futebol, nunca sai do anonimato. Maioria tem ascensão, um certo platô e queda até um nicho. É, na média, uma profissão mal remunerada e pouco reconhecida. Demanda esforço, disciplina e dedicação. Tecnologia utilizada nos ‘produtos premium’ esta muito longe de ser simples. Tempo de Ney Matogrosso, apesar do talento, já passou. Para a grande maioria já não significa nada.