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O motim de 30 horas e a fraqueza do líder – por José Renato Ferraz da Silveira

“Aprende, (Hugo) Motta! Tentar domesticar hienas é procrastinar a morte!”

Dizem que a política, o trabalho físico e o parto são, em termos cristãos, uma das maldições da humanidade.

Não há dúvida de que as máquinas aliviaram muito as agruras do trabalho e dar à luz já não é o “parto” que foi.

Mas e a maldição política?

Um ponto importante é que se os seres humanos fossem anjos, nenhum governo seria necessário. Contudo, já que é preciso algum sistema e regime de governo, o premier britânico Winston Churchill disse no dia 19 de maio de 1943, em um discurso para o Congresso americano, em Washington: “a democracia é a pior forma de governo, exceto por todas as outras formas que já foram tentadas na história”. Com ironia e sagacidade, Churchill deixava claro que “o sistema de poder democrático não pretende ser perfeito, ou que é um regime sem defeitos ou problemas, mas de todas as formas de poder conhecidas na história, ela é a melhor criada pelo homem”.

Em alusão a essa sentença clássica do “Leão” (apelido de Churchill dado à sua ferocidade e determinação), as cenas políticas no Congresso Nacional brasileiro lideradas pelo clã (um grupo de hienas é chamado de clã de acordo com alguns dicionários) bolsonarista representam os paradoxos, imperfeições e incongruências da democracia. O próprio grupo afirma que vivemos numa “ditadura”. É o incrível caso da “ditadura” no qual a oposição protesta no domingo, invade a “Casa do Povo”, promovem vídeos atacando o governo, o Judiciário e não sofrem nenhuma repressão do Estado “ditatorial”.  

O motim

O motim durou 30 horas. Os deputados bolsonaristas ocuparam a Câmara dos Deputados, tumultuaram o funcionamento e confirmaram o espírito golpista que os caracterizam. Não aceitam a Constituição, as leis, o regimento. Não aceitam as instituições. Não respeitam o cidadão brasileiro. Faltam argumentos e o caminho escolhido é a chantagem. A chantagem em si, representada pela ocupação, já seria a antítese da democracia. Foi um fato similar ao 8 de janeiro. Os métodos são semelhantes: truculência, extremismo, intransigência, falta de equilíbrio, bom senso e transmissão online para os seguidores radicais.

O conteúdo defendido por eles é extremamente didático para a compreensão da ação: querem anistia a todos que tentaram dar um golpe de Estado entre 2022 e 2023, o impeachment do combativo ministro Alexandre de Moraes, relator dos julgamentos dos golpistas, e o fim do foro privilegiado para garantir que os processos contra quem tentou um golpe voltem à estaca zero. Ou seja, o clã bolsonarista tenta dar um golpe no Poder Legislativo para poderem dar um golpe no Poder Judiciário e assim varrer para debaixo do tapete as responsabilidades de seus líderes, que tentaram dar um golpe no Poder Executivo.

A fraqueza do líder

A História já comprovou – em diversos momentos – que em tempos de anormalidade é necessário grandes homens e mulheres para liderarem e lidarem com os impasses e as incertezas.

Desse incidente lamentável, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) mostrou não estar à altura desses tempos insanos.

Fraco, hesitante e impotente não são atributos para um cargo tão relevante na República brasileira.

Ainda mais com a pressão do tarifaço dos Estados Unidos que poderá gerar crise econômica, social e pressionar ainda mais o governo federal.

Hugo Motta entrará para a História da Nova República brasileira como o presidente mais medroso da Câmara dos Deputados. Precisou do ex-presidente da Câmara, Arthur Lira, para negociar a rendição dos radicais bolsonaristas.

Pois bem, nem o inexpressivo Severino Cavalcanti foi tão pusilânime e covarde!

Por fim, uma última analogia, vale a lembrança da frase de Churchill para Arthur Neville Chamberlain quando assinou o desprezível Acordo de Munique (1938) com Hitler e Mussolini: “entre a desonra e a guerra, você escolheu a desonra, e o pior, você terá a guerra”, e infelizmente isso aconteceu e ocasionou uma Europa cheia de escombros e milhões de sepulturas. Tanto naquele episódio como neste no Brasil, não se negocia com radicais e loucos.

Aprende, Motta! Tentar domesticar hienas é procrastinar a morte!

(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Associado IV da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).

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