O que é a OCX, outra alternativa à ordem liderada pelo Ocidente – por José Renato Ferraz da Silveira e João Pedro Bandeira Soares
‘O mundo caminha, de forma inexorável, para uma multipolaridade conflituosa’

O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que o BRICS e a Organização para Cooperação de Xangai (OCX) são pilares para a construção de uma nova ordem global justa e multipolar. A declaração foi dada em entrevista à agência chinesa Xinhua, na qual Putin exaltou a parceria entre Moscou e Pequim.
E a cena de abertura (1º de setembro) no encontro da Organização para Cooperação de Xangai (OCX): Xi Jinping, Vladimir Putin e Narendra Modi aparecem lado a lado, exibindo unidade.
A reunião do Conselho dos Chefes dos Estados-membros da OCX é apontada como a maior da organização, com a participação de 20 países, que somam metade da população global e uma fatia significativa da economia mundial. Não há dúvida que esse fórum pretende ser alternativa à ordem liderada pelo Ocidente. É outro fórum que questiona a legitimidade da hegemonia norte-americana e do Ocidente.
A China, como presidente desde julho de 2024, vai propor as medidas para fortalecer a resiliência financeira da OCX, incluindo transações em moedas nacionais e expansão do comércio eletrônico para mitigar sanções ocidentais. Os temas prioritários da reunião serão o desenvolvimento da economia verde e tecnologias de inteligência artificial (IA) para gerar a soberania tecnológica e competitividade dos Estados-membros.
Os documentos finais da cúpula – a Declaração de Tianjin e a Estratégia de Desenvolvimento da OCX até 2035 – estabelecerão uma visão comum para segurança, integração econômica e governança global, destacando a contribuição do bloco para um sistema mundial mais inclusivo e sustentável.
Destaca-se que é outro projeto protagonizado pela China em que utiliza uma plataforma multilateral soberana para segurança e diplomacia do Sul Global e para o fortalecimento de sua posição como superpotência.
A verdade é que os EUA vem adotando uma postura cada vez mais agressiva contra esses países e isso acaba tendo o efeito contrário. Ao invés de dividir, empurra eles pra ficar mais juntos ainda. Muitos governos que antes mantinham distancia agora cooperam mais porque percebem que a pressão americana não vai parar. Isso reforça a ideia de que o mundo não aceita mais ficar refém de Washington.
Outro ponto é que no Brasil quase não se estuda o que é a OCX. Pouca gente sabe o tamanho e a importância que tem esse bloco. As universidades falam pouco, a mídia quase ignora e isso cria um vazio de conhecimento. O país acaba perdendo a chance de pensar melhor sua posição no mundo porque nem debate existe direito.
Por outro lado, esse encontro entre Xi Jinping, Vladimir Putin e Narendra Modi revela que a política externa de Trump fracassou. Em vez de isolar os adversários e principalmente a China, Trump empurra uma coalizão estratégica contra Washington.
Como afirma Oliver Stuenkel: “Xi declarou que China e Índia são “parceiras, não rivais”. Modi, por sua vez, ressaltou que a cooperação entre os dois países envolve os interesses de quase 3 bilhões de pessoas. O gesto é ainda mais significativo considerando o histórico recente de choques sangrentos na fronteira himalaia. Não se trata de uma reconciliação plena – Nova Déli continua desconfiada das intenções de Pequim, especialmente por seu apoio ao Paquistão e pelo enorme déficit comercial bilateral. Mas a simbologia é clara: a Índia prefere diversificar, ou hedgear, em vez de depender de um aliado instável”.
Durante décadas, democratas e republicanos em Washington trabalharam para aproximar a Índia dos Estados Unidos como contrapeso à ascensão chinesa. Essa construção bem calculada foi colocada em risco por decisões erráticas de Trump.
Vale enfatizar que Trump já errou em relação ao Brasil. A aproximação entre Brasil e China é cada vez maior e inevitável.
O governo Trump 2.0 aprofunda parcerias estratégicas à margem da Casa Branca. A arrogância e a imprevisibilidade de Trump têm custos altos.
O mundo caminha, de forma inexorável, para uma multipolaridade conflituosa.
(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Associado IV da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).
João Pedro Bandeira Soares é graduando em Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Membro do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).





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