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O que precisa vir à tona sobre a Covid – por Giorgio Forgiarini

‘Não é crime ser negacionista, mas é crime fazer gestão pública com base nisso’

Em fevereiro de 2020 a pandemia de Covid-19 chegou às terras brasileiras. É possível que tenha chegado antes, mas as notificações primeiras foram dessa época. Já se sabia naquela época que a doença inspirava cuidados excepcionais, que não se tratava de uma onda viral como outra qualquer. Na Alemanha e na Itália já estava provocando mortes em grandes quantidades. Em 18 de março daquele ano a OMS já considerava o vírus grave e recomendava testagem em massa.

Por aqui, no princípio, a população se mostrou reticente, desinteressada. Brincava associando o nome da doença com uma marca de cerveja. Não se podia esperar algo diferente. É da natureza dos cidadãos comuns, não apenas no Brasil, abstrair-se em questões ensimesmadas a despeito de problemas de ordem coletiva, até pela estreiteza de seus canais de informação. Governos, no entanto, não têm esse direito.

E aqui no Brasil a Covid-19 foi tratada com deboche também por parte do Governo. “Uma gripezinha”, foi a expressão utilizada por nosso Presidente no dia 20 de março de 2020 e mais uma vez, quatro dias depois, contrariando as notícias que vinham do exterior e o cenário que já começava a se descortinar por aqui. Osmar Terra, à época deputado governista, não cansava de berrar aos quatro ventos para dizer que a Covid afetaria menos pessoas que a H1N1. “Matará menos que uma gripe sazonal no Rio Grande do Sul”, disse no dia 7 de abril.

A essa altura pouca coisa podia ser feita. Testagem em massa, barreiras sanitárias, isolamento social, uso de máscaras e higiene pessoal constante. Era só o que podíamos fazer, enquanto se esperava alguma notícia quanto a eventuais vacinas. Dado o desdém, fez o Governo Federal o exato oposto.

Empreendeu forte propaganda contra a saúde pública. Exortou a população a sair às ruas, desdenhou das medidas de higiene individual, boicotou deliberadamente as recomendações quanto ao uso de máscaras e, pior, anunciou a existência de um remédio milagroso que supostamente resolveria o problema: a Cloroquina!

Sejamos francos, a rigor, nunca tivemos uma quarentena de fato. A pressão de parte significativa da população, estimulada pelo maníaco presidencial e crente que tudo se resolveria com comprimidinho de setenta reais, tornava delicada a situação de prefeitos e governadores que tentassem impor contenção à circulação do vírus. Foi assim aqui em Santa Maria.

O pretexto era a economia. “Empresas abertas salvam vidas” diziam e escreviam por aí. Concordo, em termos. Se o mote fosse de fato esse, até daria algum crédito, embora não me associasse a ele. Mas não. Motociatas, cavalgadas, comícios, passeios de jet-ski e caminhadas em vias públicas nada têm a ver com economia. Em 6 de junho o Governo Federal parou de divulgar os dados consolidados relativos à pandemia.

Uma vacina para a doença surgiu ainda em 2020. Em agosto daquele ano foram oferecidas pela Pfizer ao Governo Federal 70 milhões de doses. Três ofertas, para ser mais preciso. Nenhuma foi sequer respondida. Pior do que isso, as vacinas da China foram rejeitadas, tão logo recebidas.

Nesse meio tempo, três pessoas diferentes ocuparam a pasta da saúde. Mandetta e Nelson Teich a deixaram em função de divergências com o Presidente. O segundo, não chegou a ficar um mês e saiu por não concordar com a prescrição de cloroquina.

Incompetência? Existem motivos para acreditar que não. Deisy Ventura, filha da Santa Maria da Boca do Monte e hoje professora na USP, pesquisadora na área da saúde pública, foi enfática em dizer: o Governo Federal sempre foi coerente em sua estratégia de disseminar o vírus pela sociedade. Quem não se lembra da expressão “imunidade de rebanho”?

Neste momento, difícil não lembrar do então Ministro Paulo Guedes reclamando do aumento da expectativa de vida no Brasil. “Não há capacidade de investimento para que o Estado consiga acompanhar”. Sim, matar sai mais barato que cuidar.

A estratégia foi eficiente: num país tropical, cuja incidência de doenças transmitidas pelo ar costuma ser menor, morreram, ao que se sabe, 716 mil pessoas. Teria sido muito mais se não tivéssemos o SUS como agente de política de Estado.

Parafraseando Alessandro Vieira, passofundense, mas Senador por Sergipe: “não é crime ser negacionista nem defender coisas estúpidas, mas é crime fazer gestão pública com base nisso”.

Na semana que passou, com um atraso de pelo menos 4 anos, Flavio Dino autorizou a abertura de inquérito para apurar a atuação do Governo de Jair Bolsonaro durante a Covid, conforme, aliás, recomendado pela CPI de 2021.

Estou ansioso, não por justiça, mas por informações.

É isso.

Em memória de Sandra Appel Forgiarini (24/04/1951 – 05/04/2021).

(*) Giorgio Forgiarini é advogado militante, com curso de Direito pela Universidade Franciscana, é Mestre em Ciências Sociais e Doutor em História pela Universidade Federal de Santa Maria. Ele escreve nas madrugadas de sábado.

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2 Comentários

  1. Para ninguem ficar com ideia de que a CPI da Covid foi algo sério. Presidente era Omar Aziz que apoia Rato Rouco. Vice Randolfe Rodrigues. Relator Renan Calheiros.

  2. Mais do mesmo. Excluindo os assuntos pessoais, maioria está preocupada com outras coisas. Sapo Dino reforça a narrativa de que é uma caça as bruxas. E cortina de fumaça, alguns governadores compraram até oxigenador de aquario ao invés do equipamento correto. Jogaram para debaixo do tapete. Resumo da opera é que tentam ‘acabar com o cavalismo’. Aparentemente tem medo das eleições vindouras. Governo gasta como se não houvesse amanha e como não tem nada para ‘entregar’ recorre a cortinas de fumaça e marketagem.

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