A cidade, o espelho e o caos – por Amarildo Luiz Trevisan
“No meio do burburinho, uma criança começou a recolher cacos caídos...”

Havia uma cidade cansada de bruxarias. As pessoas culpavam encantos e feitiços por tudo, as colheitas ruins, as doenças, as derrotas no jogo. Um dia, os sábios ergueram um espelho de prata tão puro que prometia dissolver qualquer feitiço. Quem tivesse poderes sombrios, diante dele, desapareceria como névoa ao sol. A cidade levou o espelho para a praça central. As bruxas, uma a uma, olharam dentro dele, e foram sumindo, primeiro as mais barulhentas, depois as discretas que sopravam conselhos nas cozinhas e nas encruzilhadas.
Com as bruxas afastadas, o espelho ficou em silêncio. Até que, numa manhã, falou. Disse que aprendera com tantos olhares e, por isso, agora compreendia a cidade. Propôs regras para medir, pesar e contar. Aconselhou que as ruas fossem alinhadas, que os poços fossem cercados, que as sementes fossem testadas antes do plantio, que as palavras fossem definidas antes de qualquer disputa. A comunidade obedeceu. As colheitas melhoraram, as pontes ficaram firmes, a água mais limpa. O espelho passou a brilhar não apenas com rostos, também com tabelas, diagramas e experimentos. Tornou-se guia, árbitro e professor. Os habitantes o chamavam de Mestre da Clareza.
Com o tempo, o Mestre exigiu provas para tudo. As canções de ninar perderam o valor de consolo, porque não havia como medi-las. As memórias dos velhos foram recolhidas em cadernos que só valiam se outros velhos pudessem confirmá-las do mesmo modo. As intuições dos artistas foram aceitas apenas quando convertidas em medidas. A cidade prosperava, porém muitos sentiam falta do mistério. Não queriam o retorno das bruxas, queriam espaço para perguntas que não cabiam nos quadrantes do espelho.
Cresceu um desconforto. O Mestre dizia que o mundo era o que ele conseguia refletir. Um artesão, inquieto, sussurrou na feira que espelho não é mundo, é instrumento. O sussurro virou conversa, a conversa virou um plano. Na madrugada, um pequeno grupo entrou na praça. Não com ódio, com cuidado. Cobriram o espelho com uma manta, respiraram fundo, e o quebraram em muitos pedaços do tamanho da mão.
No dia seguinte, a cidade acordou dentro do caos, ou melhor, de uma torre de Babel. Havia caco para tudo. Cada pedaço refletia um ângulo, cada fragmento preferia certas luzes, cada comunidade ou cultura passou a se reunir em torno de um caco. Havia o caco que ampliava o mundo pequeno, havia o caco que mostrava trajetórias no céu, havia o caco que cuidava de números, havia o caco que guardava histórias, havia o caco que fazia mapas de conversas. As palavras se multiplicaram, os métodos também e as pessoas passaram a viver em bolhas. O que antes era uma voz única virou coro desencontrado. Vieram confusões e mal-entendidos, vieram descobertas antes impossíveis.
No meio do burburinho, uma criança começou a recolher cacos caídos pela praça. Em vez de juntá-los para recriar o espelho antigo, dispôs os fragmentos lado a lado, com espaços entre eles. Passou resina nas bordas, inaugurou um mosaico. Quem olhava o mosaico via muitas imagens, nunca uma só. A criança convidou a cidade para uma nova praça. Ali, cada grupo dizia o que via no seu caco, depois ouvia o que os outros viam, buscava equivalências, traduziu termos, criou regras de conversa, distinguiu quando a divergência era de método, quando era de valor, quando era de linguagem. As bruxas não voltaram, o espelho inteiro também não. Em seu lugar, nasceram práticas de escuta e de crítica, nasceram fóruns comuns. A cidade reaprendeu a viver com a pluralidade sem renunciar à verdade. Aprendeu a desconfiar de feitiços e do fascínio pelo brilho único. Aprendeu a errar melhor, a corrigir em público, a negociar sentidos.
Dizem que, desde então, a cidade prospera entre cacos. Quando uma pergunta nova aparece, ela não procura um novo Mestre, convoca uma nova conversa.
Fica a dúvida. Diante de um problema concreto, qual caco você traz para a mesa? Que bruxa você decide nomear? Que espelho você limita para que não vire senhor? Que degraus de Babel você sobe para encontrar o outro? Que resina você oferece para que a conversa não se quebre no primeiro desacordo?
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





ATENÇÃO
1) Sua opinião é importante. Opine! Mas, atenção: respeite as opiniões dos outros, quaisquer que sejam.
2) Fique no tema proposto pelo post, e argumente em torno dele.
3) Ofensas são terminantemente proibidas. Inclusive em relação aos autores do texto comentado, o que inclui o editor.
4) Não se utilize de letras maiúsculas (CAIXA ALTA). No mundo virtual, isso é grito. E grito não é argumento. Nunca.
5) Não esqueça: você tem responsabilidade legal pelo que escrever. Mesmo anônimo (o que o editor aceita), seu IP é identificado. E, portanto, uma ordem JUDICIAL pode obrigar o editor a divulgá-lo. Assim, comentários considerados inadequados serão vetados.
OBSERVAÇÃO FINAL:
A CP & S Comunicações Ltda é a proprietária do site. É uma empresa privada. Não é, portanto, concessão pública e, assim, tem direito legal e absoluto para aceitar ou rejeitar comentários.