Cinquenta anos sem (com) Vlado – por Leonardo da Rocha Botega
“Resgatar Vladimir Herzog é lembrar o quanto foi difícil redemocratizar o Brasil”

Em outubro de 1975, uma onda de perseguições a jornalistas tomava conta do país. Nem mesmo as promessas de abertura lenta e gradual do general ditador Ernesto Geisel serviam para acalmar a tensão nas redações. Dezenas de jornalistas estavam sendo presos e torturados. Os jornalistas eram a bola da vez da sanha autoritária e persecutória em vigor no Brasil desde o fatídico 01 de abril de 1964. Vladimir Herzog, o Vlado, foi um dos alvos dessa “nova fase” do terrorismo do Estado Ditatorial brasileiro.
Não era a primeira vez que Vladimir Herzog sentia o peso de uma perseguição ditatorial. Originado de uma família judia do antigo Reino da Iugoslávia, foi obrigado a migrar para a Itália após a ocupação nazista. Passou a infância utilizando publicamente o nome de Aldo. Era uma forma de disfarçar suas origens em um país dominado pelo fascismo. Terminada a guerra, a família de Vlado, assim como inúmeras famílias devastadas pelo nazifascismo, optou por migrar para o Brasil.
Diferentemente de seus pais, naquele outubro de 1975, Vlado optou por não fugir quando na noite de 24 de outubro militares foram procurá-lo na sede da TV Cultura, onde ocupava a direção de jornalismo. Vladimir Herzog havia sido vítima de uma forte campanha de difamação promovida por deputados da ARENA e por setores do próprio jornalismo, sobretudo, ligados a Folha de S. Paulo, grupo empresarial que chegou a emprestar veículos para as “capturas” realizadas pelas milicias da Operação Bandeirantes.
Os agentes do II Exército que entraram na redação da TV Cultura, convocavam Vlado para prestar depoimento sobre suas ligações com o Partido Comunista Brasileiro. O PCB, que não havia aderido à luta armada, foi definido pelo Centro de Inteligência do Exército como a organização a ser desmantelada no momento. Herzog havia se tornado membro do Partidão alguns meses antes. O comandante do II Exército, general Ednardo D’Ávila Mello, mirava os “jornalistas subversivos” membros do partido ou não.
Vlado, que naquela noite pretendia trabalhar até a madrugada, conseguiu negociar a sua apresentação voluntária na manhã do dia seguinte no Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna, o DOI-Codi, órgão de repressão e tortura ligado ao II Exército em São Paulo. Dias antes, Herzog, ao ser alertado de que seu nome estava na lista do II Exército, disse ao seu colega Marco Antônio Rocha que não iria fugir, pois não tinha “nada a esconder”.
Às oito horas da manhã de 25 de outubro de 1975, Vladimir Herzog se apresentou na rua Tomás Carvalhal, 1030, de onde jamais sairia com vida. As primeiras torturas, conduzidas por Pedro Antônio Mira Grancieri, o “capitão Ramiro”, foram testemunhadas pelos jornalistas Rodolfo Konder e George Duque Estrada, também presos políticos. Vlado negava insistentemente todas as informações solicitadas pelo torturador, apesar da insistência dos companheiros para que confirmasse aquilo que os agentes já sabiam.
Após duas tentativas de acareação, Konder e Duque Estrada foram levados definitivamente para as suas celas. De lá puderam ouvir os gritos de desespero de Vlado. A tensão aumentou quando o torturador passou a exigir aos gritos que trouxessem “a pimentinha”. O aparelho, uma caixa acionada por uma manivela, produzia enormes descargas elétricas que causavam queimaduras e convulsões nos torturados. Muitos presos políticos morriam engasgados com a língua.
Após uma intensa sessão de tortura, fez-se um silêncio. Vlado estava morto! Iniciou-se então a farsa. Um comunicado do II Exército, publicado no dia seguinte apenas no jornal O Globo do Rio de Janeiro, informava que Vladimir Herzog havia cometido suicídio nas dependências do DOI-Codi. Não bastava assassinar o jornalista, era necessário matar a verdade também. A censura e as relações nada republicanas dos ditadores com os donos das empresas de comunicação cumpriam esse papel.
O enterro de Vlado foi marcado pela negativa do rabino Henry Sobel em sepultar o corpo no local destinado aos suicidas, conforme manda a tradição judaica. O ato ecumênico que marcou o sétimo dia do assassinato se tornou um dos grandes marcos na luta pelo fim da Ditadura Civil-Militar. Na cerimônia, Dom Helder Câmara proferiu que a Catedral da Sé era a “Casa de Deus e de todos os homens que aceitam o caminho da justiça e da verdade”.
Três anos depois, a verdade começou a ser restabelecida. Ainda durante a Ditadura, a justiça brasileira corajosamente reconheceu que a versão oficial divulgada pelo II Exército não passava de uma farsa. Porém, foi somente em 2013 que a família de Vladimir Herzog recebeu um novo atestado de óbito indicando a morte sob tortura. O documento era o reconhecimento do Estado brasileiro do crime cometido pelos agentes da ditadura e o fim definitivo da chamada “versão oficial” que alguns militares ainda ousavam contar.
Em 2020, o Ministério Público Federal, com base no relatório da Comissão Nacional da Verdade, denunciou o então chefe de comando da 2ª Seção do Estado-Maior do II Exército, José Barros Paes, o comandante do DOI-Codi à época, Audir Santos Maciel, o ex-agente da unidade Altair Casadei, os médicos legisltas Harry Shibata e Arildo de Toledo e o promotor aposentado Durval Moura Araújo como responsáveis pelo assassinato de Vladimir Herzog.
Em 31 de janeiro de 2025, a Justiça Brasileira concedeu à Clarisse Herzog, viúva de Vlado, ainda que de forma liminar, provisória e urgente, o direito a reparação econômica pelo reconhecimento de Vladimir Herzog como anistiado político. Um ato significativo na luta pela justiça, pela memória e pela reparação, sobretudo, depois do país ter vivenciado quatro anos do negacionismo da Ditadura sendo alçado à condição de discurso oficial do governo.
Resgatar a memória de Vladimir Herzog é lembrar o quanto foi difícil redemocratizar o Brasil e derrotar os ditadores e seus colaboradores. Denunciar as circunstâncias de sua morte é defender o papel da verdade, do jornalismo sério e do livre pensar diante das farsas dos fascismos. Rememorar Vlado, quando se completam cinquenta anos de seu assassinato, é reafirmar os valores democráticos em tempos onde alguns canalhas buscam naturalizar os golpismos de ontem e de hoje.
(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve regularmente no site, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).





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