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EUA e as guerras – por Orlando Fonseca

“Desculpas (esfarrapadas) não faltam nas justificativas bélicas americanas”

Não deixa de ser irônico que o presidente dos EUA, Donald Trump, diga, enfático, para Zelenski e Putin: acabem esta guerra! Tal declaração foi feita em reunião, semana passada com o presidente da Ucrânia, que foi à Casa Branca não para erguer uma bandeira branca, e sim para pedir mísseis de longo alcance. Os Tomahawk chegam a atingir 2500km e poderiam alcançar alvos na Rússia com facilidade, sendo um recurso mais poderoso neste conflito que já se aproxima de 4 anos.

Por enquanto, o americano deixou o pedido em banho maria, e acenou com a possibilidade de resolver a pendenga combinando com os russos em uma próxima reunião. Ainda contando os louros pela trégua na Palestina, Trump está fazendo de tudo para ser candidato número 1 nas candidaturas para o Nobel da Paz do próximo ano. No entanto, e aí a ironia, pesam sobre ele as críticas por um comportamento vacilante em relação à economia em seu território e aos conflitos nos quais o seu país, a maior potência bélica do planeta, tem se metido ao longo da história. 

Aliás, para refrescar a memória dos leitores, é bom recordar os comportamentos erráticos dos EUA e as guerras no mundo. Desde que se tornou referência em sua participação decisiva na Segunda Guerra (ao lado da União Soviética, diga-se), e com o recrudescimento das relações internacionais na Guerra Fria, os EUA se autodeclararam guardiães da democracia e polícia do mundo.

Entretanto, desde a malfadada ação no Vietnã e sua desastrada retirada, os fracassos são mais vistosos que os sucessos (estes, sempre superestimados). Só para lembrar, com o apoio ao Afeganistão para se livrar da União Soviética, permitiu a ascensão do Talibã; com o apoio ao Irã na revolução contra o Xá Reza Pahlav, permitiu a ascensão do estado islâmico dos Aiatolás.

Agora se insinua pelo Caribe, com a desculpa de eliminar barcos de narcoterroristas (apelido aos traficantes, para justificar a guerra), autoriza até mesmo a ação da CIA (a América Latina conhece muito bem), com intenções claras de achacar a Venezuela. Ao mesmo tempo, ameaça ocupar (de novo) o Panamá, para livrar o Canal dos “perigos chineses”. Onde não há um inimigo, urge criar um, ou talvez, onde não há perigo, urge criar o caos, para posar de salvador.

Desculpas (esfarrapadas) é que não faltam nas justificativas bélicas americanas. Em 2001, iniciaram uma guerra desastrosa no Afeganistão, coisa que durou 20 anos, com a intenção de retaliar os atentados de 11 de setembro. Uma manobra de mídia para criar a ideia de que os culpados por aquele fato estavam implicados pelo Talibã. Os EUA ajudaram na criação da Al-Qaeda e financiaram o fundamentalismo islâmico. Fora os desperdícios de vidas (quase 200 mil pessoas, sendo 2500 soldados americanos) duas décadas de guerra colocaram o Afeganistão em um estado de miséria e barbárie extrema.

Descaramento maior do que a farsa do Afeganistão foi a guerra do Iraque, pois sem qualquer comprovação (lógica ou racional), os EUA inventaram uma conexão de Saddam Hussein com a Al-Qaeda. Ainda acusaram o Iraque de possuir armas de destruição em massa e armas químicas.

O resultado foi a destruição de um conjunto inestimável do patrimônio histórico e cultural da humanidade (acervos de sumérios, babilônicos e mesopotâmicos). Foi o fim de um estado que apresentava um dos melhores níveis de indicadores sociais e estabilidade política no Oriente Médio. Resultado, criaram-se as condições para uma organização fundamentalista: o Estado Islâmico do Iraque (DAESH). 

E tem a Guerra da Síria, em 2011; a guerra do Sudão, em 2013; a guerra da Líbia e outra no Iêmen, em 2014. A Guerra na Palestina, em 2021, cujos desdobramentos estamos vendo neste momento. Esta tem servido de palco para o governo Trump posar de pacificador, como se não fossem os EUA o maior fornecedor de armas e equipamentos para os conflitos. Como se a política intervencionista americana não fosse quase sempre desastrada nas guerras das quais tem tomado parte.

Uma coisa é certa, olhando esta folha corrida, a pacificação não será apenas uma questão de resolução de conflitos, tréguas temporárias, genocídios, mas sobretudo pelo fortalecimento de relações multilaterais, sem a dependência dos dólares, das armas ou da imprevisível política americana. Enquanto os EUA patrocinavam guerras, a China construía fábricas e investia pesado em infraestrutura. O império do norte dá sinais de esgotamento e as fissuras em seus alicerces estão visíveis: é preciso separar o que é objetivo humanitário do que é bravata, e entender os sinais dos novos tempos.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela “Da noite para o dia”.

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24 Comentários

  1. Resumo da opera. Anti-americanismo de sempre utilizado para fins eleitoreiros. Como escrito ‘Onde não há um inimigo, urge criar um, […]’. Negociações do tarifaço deu em nada (apesar da marketagem), cumpanhero Maduro queria anexar o Suriname (inimigo criado) e se meteu em confusão, pesquisas não estão onde deveriam estar e voilà!

  2. ‘[…] é preciso separar o que é objetivo humanitário […]’ do que é a tentativa de nivelar tudo por baixo, nivelar tudo na miséria, na chinelagem. Unica maneira dos submediocres se destacarem. Tirando os ‘escolhidos’ obvio. Ou alguém acha que a nomenklatura cubana alguma vez passou necessidades com toda a ‘fartura’ que acontece no pais?

  3. ‘O império do norte dá sinais de esgotamento e as fissuras em seus alicerces estão visíveis: […]’. É vero, como todo imperio. Britanicos ainda têm um padrão de vida elevado como resquicio do imperio que tiveram. Espanha. Questão não é esta, questão é que o Brasil nunca foi m. nenhuma e ser alguma coisa não está no horizonte. Simples assim. Este é o problema local. Não importa a marketagem que façam.

  4. ‘Enquanto os EUA patrocinavam guerras, a China construía fábricas e investia pesado em infraestrutura.’ Sim, é o céu na terra. Querem tudo de ‘bom’ para a ‘humanidade’. Aumentou o gasto em defesa de forma absurda nos ultimos anos. Criou ilhas artificiais no oceano para reivindicar mar territorial. Comprou terras no Brasil, na Argentina e até na Ianquelandia. Em 202-2021 andou trocando tiros com os indianos na fronteira.

  5. ‘[…] ou da imprevisível política americana.’ Politica brasileira é bastante ‘previsivel’. Alas, China, Cuba, Venezuela e Nicaragua têm politica bastante previsivel.

  6. ‘[…] mas sobretudo pelo fortalecimento de relações multilaterais, sem a dependência dos dólares, das armas ou da imprevisível política americana.’ Para os vemelhos ‘relações multilaterais’ trata-se de quem tem poder abrir mão para implantar o ‘um pais um voto’. Ou seja, uma imbecilidade disfarçada de utopia. Ninguém é obrigado a usar dolares, mas quero ver outros paises preferirem reais ou yuans a dolares. Armas tem mercado, logo haverão fornecedores. Ianques tem armas de alta tecnologia, mais caras, logo aparecem em primeiro. Mas armas leves, principalmente no mercado ilegal, já é diferente, China e Russia podem ter passado os ianques há tempos. AK47 é a arma mais comum e não é fabricada na Ianquelandia.

  7. ‘Como se a política intervencionista americana não fosse quase sempre desastrada nas guerras das quais tem tomado parte.’ Desastrada para quem? Ianques estão em decadencia, mas ainda estão muito melhor que os demais. Defendem seus interesses. Simples assim.

  8. ‘[…] não fossem os EUA o maior fornecedor de armas e equipamentos para os conflitos.’ Agente Laranja é conjuntural, temporário. Fornecimento de armas é estrutural, vem de decadas.

  9. Guerra da Siria, uma guerra civil, só teve envolvimento ianque porque o Estado Islamico por lá se refugiou. O governo era apoiado pelo Irã, Russia e Hesbollah. Na Libia limitou-se a suporte aereo para derrubar o Kadafi (como fez a França). No Sudão não aconteceu intervenção além de sanções. Iemen foi coisa do Obama apoiando os Sauditas. Uma guerra por procuração com o Irã.

  10. ‘Foi o fim de um estado que apresentava um dos melhores níveis de indicadores sociais e estabilidade política no Oriente Médio.’ A ditadura de Sadam. Com indices altamente ‘confiaveis’. Como os de Cuba, da Coreia e da China.

  11. ‘O resultado foi a destruição de um conjunto inestimável do patrimônio histórico e cultural da humanidade (acervos de sumérios, babilônicos e mesopotâmicos).’ Causado não na guerra e sim pelo Estado Islamico muito depois. Sistematicamente. Outra coisa não previsivel.

  12. ‘Descaramento maior do que a farsa do Afeganistão foi a guerra do Iraque […]’. Esta foi c@g@d@ mesmo. ‘Descaramento’ é tentar vender idéia de moralidade num campo totalmente amoral.

  13. ‘Uma manobra de mídia para criar a ideia de que os culpados por aquele fato estavam implicados pelo Talibã.’ Bin Laden estava no Afeganistão. Foi parar lá porque colocaram ele a correr do Sudão. E queriam o couro dele na Arabia Saudita. Fugiu para o Paquistão via Tora Bora. Fatos agora viraram ‘manobra da midia’. Alas, uma conspiração internacional porque a midia italiana, a francesa, a britanica e a alemão noticiaram o mesmo.

  14. ‘Em 2001, iniciaram uma guerra desastrosa no Afeganistão, […]’. Resolução 1386 do Conselho de Segurança da ONU, tomada por unanimidade.

  15. ‘Desculpas (esfarrapadas) é que não faltam nas justificativas bélicas americanas.’ Sim, Agente Laranja está preocupado com o que vai achar um professor de portugues aposentado no inicio da metade sul do RS. Kuakuakuakuakua!

  16. ‘[…] os fracassos são mais vistosos que os sucessos (estes, sempre superestimados).’ Noriega do Panamá teve o pais invadido, foi preso e morreu numa prisão ianque. Acusações semelhantes as de Maduro. Superestimado?

  17. Venezuela é complicado. Chevron tem permissão para lidar com petroleo venezuelano. Parte dos cartéis colombianos infiltraram o governo chavista. Formou-se Cartel de los Soles. Nenhum espanto, se nada for feito o PCC com tempo fará o mesmo aqui. Existe trafico de fentanil numa rota saindo de lá. Produzido com insumos chineses (como no Mexico). Existe uma epidemia da droga na Ianquelandia. Ha indicios de que Maduro se não chefia o cartel não toma providencias para acabar com o mesmo. Nada disto é inventado.

  18. ‘Onde não há um inimigo, urge criar um, ou talvez, onde não há perigo, urge criar o caos, para posar de salvador.’ Quem construiu o Canal do Panamá? Os ianques. Quem o controla hoje majoritariamente? China.

  19. ‘[…] com o apoio ao Irã na revolução contra o Xá Reza Pahlav, permitiu a ascensão do estado islâmico dos Aiatolás.’ Ianques apoiavam o Xá. Vide ocupação da embaixada ianque que acabou com as chances de reeleição do governo Carter.

  20. ‘Só para lembrar, com o apoio ao Afeganistão para se livrar da União Soviética, permitiu a ascensão do Talibã;[…]’. Não era previsivel, obvio. Assim como Bin Laden e Al Qaeda. Olhando no retrovisor tudo fica facil.

  21. ‘Entretanto, desde a malfadada ação no Vietnã […]’. Que começou bem antes, dizem que os ianques financiaram 80% da Primeira Guerra da Indochina. Acharam que os franceses dariam conta, depois tiveram que se envolver na Coreia e deu no que deu.

  22. ‘[…] Trump está fazendo de tudo para ser candidato número 1 nas candidaturas para o Nobel da Paz do próximo ano […]’. Premio é irrelevante. Obama ganhou no inicio de mandato sem ter feito absolutamente nada. Vide Myanmar. Ganhadora do premio acabou eleita presidente. Ocorreram matanças de muçulmanos no pais, sofreu golpe de Estado, foi presa e o escambau.

  23. ‘Por enquanto, o americano deixou o pedido em banho maria,[…]’. Não é tão simples assim. Os russos não iriam ficar assistindo e poderia haver uma escalada do conflito. Segundo, quem operaria o missel? Não é um forno de microondas. Terceiro, quem garantiria que os ucranianos não ‘economizassem’ um para desmontar e fazer engenharia reversa? Ou vendessem para os chineses? Sim, porque uma coisa que não aparece no noticiario por aqui é a corrupção ucraniana que corre solta.

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