O culto quando o Vento sopra – por Amarildo Luiz Trevisan
“Porém, a pergunta não se cala: por que tão pouco se fala do Espírito Santo?”

Entrei na igreja e me sentei no mesmo banco de sempre, olhos vagando pelas paredes. A via-sacra marchava em fileira, quadro após quadro, cada passo de Cristo sublinhado pela moldura, cada queda recebendo pinceladas de ouro vivo. O rito correu como costuma acontecer, leitura do Antigo Testamento, carta apostólica, Evangelho e homilia.
Saí com a impressão antiga, o culto gira em torno do Filho, os vitrais iluminam o seu rosto, as palavras desembocam nos seus passos, o sermão retoma a sua obra e a instituição se apresenta como herdeira do seu legado, mediadora autorizada do acesso a Deus. Tudo certo dentro da tradição, tudo afinado com a partitura que conhecemos; porém, a pergunta não se cala: por que tão pouco se fala do Espírito Santo? Por que quase não se celebra o seu sopro na liturgia cotidiana?
Naquele banco da igreja, digo de saída, minha leitura é uma apreciação filosófica, portanto imanentista, observo o fenômeno religioso tal como se manifesta no tempo, nos ritos e nos corpos. Por isso Hegel me ajuda a deslocar o foco, não por culto à filosofia, mas por lucidez histórica. Ele fala de três tempos, o do Pai, começo maciço que tudo sustenta; o do Filho, presença que se fez gente e entrou no relógio; o do Espírito, reconciliação que une sem se deixar capturar, sentido que amadurece por dentro do mundo.
Joaquim de Fiore, monge medieval inquieto, desenhou algo próximo, idades que não se anulam, cumprem-se por profundidade. Dito isso, não perco de vista a unidade teológica das três figuras; a separação de que falo não é ontológica, é caminho de entendimento, serve para ver como elas se historicizaram na tradição bíblica e na vida da Igreja.
É então que o meu amigo filósofo Noeli Dutra Rossatto entra na conversa e muda o passo, não importa tanto o “quando”, importa o “como”. Os três reinos deixam de ser prateleiras do calendário e viram modos de inteligir a fé. O Pai oferece o fundamento e a leitura literal que ancora a história; o Filho reordena o texto e a vida como chave cristológica; o Espírito abre o horizonte interpretativo que reconcilia e envia de volta ao mundo.
O terceiro tempo não é apenas última estação, é método de discernimento. Ele acontece onde há comunidade que interpreta, onde a escuta tem paciência, onde a prudência encontra a decisão ética diante dos sinais do tempo, como já dizia o Concílio Vaticano II, menos teleologia fechada, mais caminho de compreensão que se faz passo a passo.
Mas se a história da salvação chega ao tempo do Espírito, por que nossa veneração quase sempre estaciona no Filho, por que o Pai do Antigo Testamento volta e meia reassume o trono em cultos que preferem a lei ao Vento?
Arrisco uma hipótese que não pretende ofender ninguém, apenas pensar com honestidade. Jesus se fez carne, portanto é visível, narrável, dramatizável. A via-sacra mostra, o Evangelho conta, a homilia revive. O Espírito não se encarna em rosto, embora ele exerceu em Maria o papel fundamental para a encarnação do Filho. Não cabe num retrato, vem como chama e Vento, exige silêncio, escuta, discernimento.
O Filho convoca seguidores com um gesto de fé, passo decidido no escuro confiado. O Espírito convoca intérpretes, pede paciência, estudo, método, comunidade de leitura. Ele é o principal agente da leitura orante da Palavra de Deus e da conversação espiritual. O culto ao Filho favorece adesões rápidas, fortalece identidades claras, rende frases de efeito. O culto ao Espírito pede hermenêutica, pede trabalho de compreender os sinais do tempo, pede atravessar camadas, pede anos de vida dedicados a aprender a ler.
Aí aparece o ponto ideológico, visibilidade é poder. O que se mostra com nitidez agrega, mobiliza, sustenta estruturas. O que sopra sem forma derruba cercas, reorienta, descentra. O visível rende seguidores, o Vento forma leitores. Seguidores mantêm a máquina funcionando com compromisso simples; leitores correm o risco da pergunta difícil, questionam rotas, desconstroem respostas prontas, recolocam a missão no compasso das urgências do mundo.
Não é acaso que a liturgia cotidiana prefira imagens do Filho, caminho mais curto para a adesão, caminho mais barato para instituições que precisam se manter de pé. O caminho do Espírito sai caro em tempo e formação, sobretudo num país onde tanta gente luta para sobreviver.
Ainda assim a imaginação se anima, como seria o culto em chave do Espírito. Não se trata de substituir Cristo, trata-se de ir além da sua vinda ao mundo até o seu cumprimento, reconciliação viva. O rito começaria do mesmo jeito, porém a homilia trocaria a pergunta, menos “o que devemos fazer para imitar”, mais “como discernir o que o Espírito está dizendo às Igrejas agora”. Haveria espaço para o comum, os fiéis aprenderiam exercícios de leitura, desde a Escritura até as notícias do bairro, desde as parábolas até as estatísticas da fome. O clérigo ou pastor não seria apenas guardião de doutrina, seria mestre de hermenêutica, animador de uma comunidade que se torna capaz de interpretar, decidir, agir.
Imagino salas abertas durante a semana, rodas de leitura bíblica que conversam com a vida de quem pega dois ônibus. E ainda, oficinas de linguagem que ensinam a perguntar, círculos de escuta que focam a atenção, biblioteca viva de testemunhos, tudo isso como extensão natural do que o altar acendeu no domingo. Penso na catequese ensinando os quatro movimentos do ler, compreender, interpretar, decidir.
Concebo o cântico final pedindo menos promessas e mais discernimento, menos slogans e mais perguntas bem feitas. E a quaresma, como escola de atenção ao invisível que sustenta, o tempo pascal como treinamento de olhos para recomeços pequenos, Pentecostes como festa do plural, cada língua surpreendida pelo mesmo fogo.
Voltei para casa e abri um estudo sobre hermenêutica medieval, lembrei que toda boa leitura é plural e paciente, lembrei que a fé não anula o trabalho de entender, ao contrário, o desperta. Sei que seguir Jesus é caminho largo para muitos corações que passam pela porta estreita da fé; eu também procuro me encontrar nessa via generosa.
Mas que Vento prometido me falta escutar hoje? Estamos formando devotos rápidos ou leitores do Espírito, capazes de discernir o joio do trigo e de sustentar a caridade com inteligência? A “imitação de Cristo”, quando se torna padrão único do acontecimento, não nos fixa em um molde que apaga diferenças? E se a leitura dos sinais abrir o futuro da escuta, que “pluralidade de vozes silenciadas” precisamos reconhecer, na paróquia, no bairro, na cidade? Que comunidade queremos ser, uma que repete fórmulas ou uma que interpreta juntos, com prudência e decisão ética? O Filho nos trouxe até aqui, mas como deixar que o Espírito nos conduza adiante sem medo, sem atalhos, com alegria? Que práticas litúrgicas podem ensinar a perguntar melhor, a ouvir melhor, a decidir melhor? Que sinais do tempo batem à porta e nós ainda não deciframos? Que reconciliações estão ao alcance e dependem apenas de um passo de entendimento? Se o culto aprender a respirar por esse pulmão, que esperança deixará de ser palavra bonita e ganhará corpo na carne cansada do mundo?
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





“Os três reinos deixam de ser prateleiras do calendário e viram modos de inteligir a fé. O Pai oferece o fundamento e a leitura literal que ancora a história; o Filho reordena o texto e a vida como chave cristológica; o Espírito abre o horizonte interpretativo que reconcilia e envia de volta ao mundo.”
Que quer dizer isso?? Parece muito profundo, mas o que significa? Um texto que se pretende esclarecedor de alguma coisa, mas que não esclarece nada, não comunica com a linguagem do homem ou mulher comuns, parece que está falando apenas consigo mesmo e suas especulações e dúvidas íntimas acerca do ser e o dever ser do universo…