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Frankenstein (2025): anatomia do abandono – por Roselâine Casanova Corrêa

Diretor Del Toro optou por focar “mais na tragédia humana do que no terror”

O monstro comumente chamado de Frankenstein foi uma criação literária de terror gótico, da escritora britânica Mary Shelley (1818), instigada por Lord Byron, sob o título “Frankenstein ou o Prometeu Moderno”. 

A autora tinha apenas 18 anos à época e não constava seu nome na primeira edição da obra. A criatura descrita no livro não possui nome, porém é conhecida por Frankenstein, por seu criador ser nomeado, na obra, como Victor Frankenstein, um arrogante cientista suíço, nascido na Itália.

São incontáveis as adaptações do romance para o cinema, sendo considerada a primeira delas realizada no ano de 1910. O personagem foi retratado de muitas formas e inspirou diversas interpretações ao longo de dois séculos (XX-XXI), na tela grande.  Contudo, permaneceram características como o abandono, o desejo de ser amado e uma relação dialética de amor e ódio entre criador e criatura.

O cineasta, roteirista e produtor mexicano Guillermo Del Toro lançou o seu sensível e atormentado Frankenstein em 2025 (Netflix). Com um elenco conectado, liderado por Oscar Isaac (Victor Frankenstein), Jacob Elordi (o monstro) e Mia Goth, em papel duplo (Claire, mãe de Victor, e Elisabeth, noiva de William e interesse amoroso de criador e criatura). Após a estreia oficial no Festival de Cinema de Veneza (setembro de 2025) – onde recebeu aplausos por 13 minutos – foi exibido pela primeira vez em sessões limitadas no cinema.

Em tempos de Inteligência Artificial, Del Toro optou por sets reais, figurino elaborado e em tons vibrantes, focando mais na tragédia humana do que no terror. O enredo possui uma clara conotação freudiana: Victor tem adoração pela bela e triste mãe e repulsa pelo voluntarioso e exigente pai (Charles Dance). Esbofeteado no rosto pelo pai raivoso na infância, utiliza a mesma tática com a sua criação, que chama de “demônio”.

Ao perceber que falhou ao tentar criar um ser perfeito – e belo – com partes humanas diversas, aprisiona a sua criatura, sob correntes e solidão. A seguir, abandona a sua criação, que se sente rejeitada pelo “pai”. A criatura torna-se violenta, na mesma medida que pode ser delicada, sensível e… humana.

Em uma narrativa baseada em duas versões: do criador e da criatura, Oscar Isaac (Victor Frankenstein) e Jacob Elordi (o monstro) surfaram lindamente na espetacular fotografia do filme. Quer no castelo em chamas, no navio rodeado de gelo, nos relâmpagos que cortam o céu ou na aldeia do ancião cego, ambos atuaram – junto aos demais integrantes do elenco – com maestria, gosto e elegância. A criatura, sob o medo, a ira, a curiosidade pelo mundo, a tristeza e a solidão, delineou a anatomia do abandono paterno. Freud agradece.

(*) Roselâine Casanova Corrêa é Professora de História. Graduada em História pela UFN, com especialização em História do Brasil (UFSM); Museologia (UFN) e mestrado em História (PUC-RS). Também é, com o jornalista Bebeto Badke, idealizadora do “Projeto Amnésia: descubra Santa Maria”.

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