A violência silenciosa em ‘Bambino a Roma’ – por Amarildo Luiz Trevisan
Memórias do menino Francesco sobre a ‘cidade eterna’. E tem ainda Mr Welsh

Na obra, Chico Buarque apresenta suas memórias de menino brasileiro transplantado para a “cidade eterna” entre 1953 e 1954. Acompanha a família no período em que o pai, Sérgio Buarque de Holanda, leciona na Universidade de Roma em condição semelhante à de professor visitante.
A Companhia das Letras lançou o livro em agosto de 2024, em comemoração aos 80 anos do autor. A narrativa se constrói nesse lugar delicado em que a memória de um senhor já idoso reencontra, com malícia e ternura, o menino que foi, num misto de deslumbramento e estranhamento. O enredo preserva, ao mesmo tempo, a galhardia e a puerilidade da criança e a experiência do narrador maduro que retorna a esses afetos distantes.
Há uma cena significativa em que o próprio menino entra em uma livraria e encontra Raízes do Brasil traduzido para o italiano. O pai, que era professor e intelectual reconhecido, aparece ali como autor estrangeiro em Roma, enquanto ele circula pelos corredores de uma escola de elite, o anglo-americano, aprendendo outra língua, outra cidade, outra hierarquia.
É nesse colégio que se passam muitas das memórias narradas, juntamente com o apartamento onde viveram. Ali, Chico é “Francesco”, nome italianizado que sinaliza a tentativa de ser aceito naquele mundo. Embora se trate de um livro de ficção, as cenas têm forte conotação real, por vezes quase documental. Entre essas cenas, uma se destaca com incômodo particular, aquela em que o professor Welsh faz um “carinho” nele, com conotação sexual. Ou seja, a experiência subjetiva já indica que não foi um gesto neutro, afetuoso ou adequado; foi vivido como invasão e constrangimento. Isso é um forte marcador de que se trata de violação de limites corporais e simbólicos, logo um tipo de violência sexual.
Ao fundo, a Roma dos anos cinquenta revela ainda o fascínio que Mussolini exercia sobre a população, mesmo depois do fim do regime. O livro recorda chamadas telefônicas raras e caríssimas vindas do Brasil, nas quais se perguntava pela inflação, pelas forças armadas, pela morte de Getúlio Vargas, como se a política nacional tivesse de atravessar o oceano para alcançar aquele menino em Roma. A história miúda de um aluno em um colégio de elite se emaranha com a história grande do século vinte.
Francesco, porém, não se detém somente na figura do professor de redação que trata os meninos de forma repugnante. Ele recorda também o amor não correspondido por Sandrene, menciona o prazer das caminhadas que ainda mantém na vida adulta, mesmo com a artrite nos joelhos, faz graça do comportamento arrogante e brega de alguns pais de colegas e lista as estações do metrô de Paris com uma espécie de precisão poética. O cotidiano se embaralha com o traumático, como se a memória recusasse permanecer confinada apenas à cena da violência.
Mas há um episódio especialmente revelador. Próximo da volta da família ao Brasil, a escola organiza uma homenagem aos alunos que partirão ao final do ano. Cada professor vai ao microfone e escolhe um estudante para elogiar. Para surpresa do leitor, e sobretudo de Francesco, o professor de redação Welsh escolhe justamente ele. De imediato, o menino é tomado por uma sensação de medo e vergonha, percebe cochichos entre as pessoas e imagina que todos estão comentando as insinuações libidinosas, como se o segredo tivesse sido exposto diante de todos. Só mais tarde, em casa, os irmãos esclarecem que o burburinho coletivo não tinha a ver com ele, e sim com o pum do frei Gordon, que havia causado o alvoroço geral. Aquilo que para o menino parecia ser a revelação pública do abuso era, para os outros, apenas motivo de riso escatológico.
Para mim, que trabalho com violência escolar, o capítulo dois é o mais contundente. Nele, Francesco descreve com inquietante clareza como o professor Welsh lhe bolinava com a mão por dentro das calças. Em determinado momento, comenta com uma franqueza que atravessa o tempo: “Eu tinha medo de pegar fama de bicha, mas agora já me disponho a incluir o caso num eventual livro de memórias” (pg. 12). A coragem de escrever isso não deixa de ser um gesto de cura pela palavra, uma forma de romper o silêncio que tantas vítimas carregam pela vida inteira.
Mas o que mais impressiona é o modo como a mente funciona. O narrador adulto reconhece que a lembrança não esteve sempre à superfície, que foi sendo soterrada por outros estratos de memória. Ele confessa: “Mil camadas de lembranças da infância foram se sobrepondo na minha mente, e só setenta anos mais tarde, por algum trabalho de escavação errática, me emergiu da poeira a figura satisfeita de mister Welsh com suas bochechas vermelhas” (p. 12). A imagem é poderosa. Fala de um trabalho de arqueologia íntima, como se o passado fosse um sítio escavado sem método, no qual alguns fragmentos insistem em voltar à luz.
O que dizer de tais experiências? Um professor ocupa sempre uma posição de autoridade simbólica, por isso seu gesto nunca é apenas um gesto. Quando há conotação sexual, deixa de ser um simples carinho e se torna violação de limites corporais e de confiança. A criança, impossibilitada de nomear exatamente o que acontece, acaba se sentindo culpada, com medo do julgamento dos colegas, temendo “pegar fama” por algo que na verdade lhe foi imposto.
A escola, em tese lugar de proteção e aprendizagem, revela assim seu lado sombrio. Ela reproduz as violências da sociedade, mas também produz as suas próprias, pois atinge a subjetividade em formação. Quando a violência parte de um professor, a marca é dupla, porque fere o corpo e corrói a confiança na instituição educativa. No caso de Francesco, a lembrança não se limita ao ato em si, reaparece décadas depois na forma daquela figura satisfeita, de bochechas vermelhas, emergindo da poeira da memória.
Bambino a Roma se apresenta como obra de ficção, mas a ficção, aqui, não serve para afastar o real. Ao contrário, ela reinscreve, de forma literária, um passado vivido. Mesmo quando inventa, o narrador faz isso com a densidade de quem esteve lá. E ainda que projetasse um pretérito imaginado, o efeito sobre o leitor seria semelhante. Porque a violência tem mil faces, mas aquela que atinge a identidade da criança, que a faz desconfiar de si própria, talvez seja uma das mais devastadoras.
Ao retornar, já idoso, ao lugar onde fora sua escola, o narrador não a encontra mais. O taxista conta que, desde o fim do século passado, no terreno do antigo colégio funciona o canal de TV 2000. A imagem é forte, quase um comentário simbólico, como se dissesse que uma verdadeira educação não se sustenta onde a violência se instala.
Ao fechar o livro, fica a sensação de que a crônica de Francesco em Roma diz respeito a qualquer escola, em qualquer tempo. Em cada corredor, em cada sala de aula, a figura de mister Welsh pode estar adormecida, à espera de quem tenha coragem de nomear o que viveu. E assim, seguimos escavando, entre memórias, livros e histórias, na esperança de que a palavra dita com clareza ajude a interromper o ciclo de silêncios que protege a violência e condena as vítimas a uma solidão que só a literatura há de testemunhar.
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





Chico Buarque é de1944. Vermelho, ou seja, tem pouco apreço pela verdade (sem masturbações pseudo-filosoficas; senão algum imbecil vai querer debater o conceito de ‘verdade’). Com relevancia pessoal quase nenhuma lembra algo que teria acontecido 70 anos atras. Convenientemente no lançamento de um livro. ‘Vitima’. Estou vendendo um viaduto na BR158. Baratinho.