Quero ser borboleta – por João Luiz Vargas
Pois ela “cumpre um papel essencial, espalha pólen, promove a vida...”

Chegamos ao arremate do ano. Esta talvez seja a última semana verdadeiramente ativa, antes que o calendário desacelere e nos conduza às pausas inevitáveis do Natal e do Ano Novo. É o momento em que o corpo ainda corre, mas a alma já começa a fazer balanços.
Não quero ser tóxico, nem insistente. Mas é impossível atravessar um ano inteiro sem carregar alegrias e tristezas. O fim de ano serve justamente para isso: recolher, no recôndito da alma, aquilo que foi pesado demais. A renovação precisa começar dentro de nós, quando decidimos abandonar tudo o que não nos fez bem, tudo o que gerou remorso, dor ou desgaste nas agruras da convivência em comunidade.
Às vezes me pergunto se construí um mundo só de sonhos, se vivi realidades parciais ou se apenas me recuso a aceitar, sem indignação, a falta de solidariedade, a desigualdade e o preconceito. Talvez seja isso que ainda nos mantenha humanos: não normalizar o que desumaniza.
Ano novo e vida nova não podem ser apenas palavras repetidas. Precisam nascer como atitude. Se plantarmos nos ventrículos do coração sentimentos de empatia, solidariedade e respeito às divergências, talvez consigamos atravessar o próximo ciclo com mais leveza.
A natureza nos ensina com simplicidade. A borboleta não nasce pronta. Passa pelo ovo, pela lagarta, pelo casulo, até alcançar o voo. A metamorfose exige tempo, silêncio e esforço. Depois de pronta, a borboleta cumpre um papel essencial, espalha pólen, promove a vida, garante a continuidade.
Que possamos aprender com ela. Que, neste fim de ano, tenhamos coragem de entrar em nosso casulo, rever escolhas, silenciar excessos e nos preparar para a transformação. E que, ao sair dele, sejamos capazes de espalhar o pólen de uma vida nova, sendo mais humanos com os humanos que já não acreditam que mudar ainda é possível.
(*) João Luiz Vargas, ex-prefeito de São Sepé, ex-deputado, ex-presidente da Assembleia Legislativa e ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado). Ele escreve no site às sextas-feiras.





Antigamente se utilizava um termo para isto: piegas.