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A hipocrisia e os hipócritas – por Marionaldo Ferreira

"Um debate sério exige honestidade intelectual"

Há um tipo recorrente de crítica política que não nasce do compromisso com o bem comum, mas do conforto da contradição. São grupos e pessoas que atacam com veemência as políticas afirmativas e compensatórias, rotulando-as como “privilégios”, “populismo” ou “injustiça”, enquanto seguem usufruindo, silenciosa e plenamente, de todos os benefícios que essas mesmas políticas ajudaram a construir.

Criticam o acesso ampliado à educação pública, mas formaram-se em universidades mantidas pelo Estado. Atacam políticas de saúde, mas recorrem ao SUS quando o plano privado falha. Rejeitam programas de transferência de renda, mas vivem em cidades menos violentas, com economia local aquecida justamente porque esses programas colocam comida na mesa e dinheiro em circulação. Negam a função social do Estado, mas exigem sua presença quando o mercado não dá resposta.

Essa postura não é apenas incoerente; é politicamente desonesta. Trata-se de um discurso que se vale da retórica da meritocracia enquanto ignora, deliberadamente, os abismos históricos que estruturam a sociedade brasileira. Ao negar políticas compensatórias, esses críticos fingem que o ponto de partida é o mesmo para todos, quando os dados, a história e a realidade cotidiana gritam o contrário.

Mais grave ainda: muitos desses críticos falam a partir de posições de conforto social, racial e econômico, construídas ao longo de décadas — ou séculos — de privilégios naturalizados. O que chamam de “excesso de Estado” nada mais é do que a tentativa tardia de corrigir desigualdades profundas que o próprio Estado, no passado, ajudou a criar ou a manter.

No fundo, a crítica às políticas afirmativas não é sobre eficiência ou justiça fiscal. É sobre medo de perder espaços exclusivos, sobre resistência à democratização de oportunidades e sobre a recusa em dividir o que sempre foi tratado como direito de poucos. Usufruir dos benefícios coletivos e, ao mesmo tempo, atacar os mecanismos que os tornam possíveis não é opinião política: é oportunismo travestido de ideologia.

Um debate sério exige honestidade intelectual. Quem critica políticas afirmativas precisa, antes de tudo, reconhecer que vive — e se beneficia — de uma sociedade menos desigual justamente porque essas políticas existem. Negar isso é escolher a hipocrisia como projeto político.

(*) Marionaldo Ferreira é especialista em governança pública, mentor de líderes e consultor em gestão e captação de recursos para municípios. Atua na formação de servidores e agentes públicos e é autor do livro Governança Pública e Suas Possibilidades.

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14 Comentários

  1. Resumo da opera. Zero argumento. Simplesmente falácia ad hominem do primeiro ao quinto. Não tem argumentos ou não sabem argumentar. Atacam as pessoas. Tipico dos que vivem e pensam por uma cartilha, uma ‘religião’. Simples assim.

  2. ‘Negar isso é escolher a hipocrisia como projeto político.’ Acuse-os do que voce faz, chame-os do que voce é.

  3. ‘[…] de uma sociedade menos desigual justamente porque essas políticas existem.’ Lagostas, vinhos finos, whisky escoces (não mais a 51) e carros de luxo em BSB são a prova cabal disto. ‘Tudo pelo social’.

  4. ‘Um debate sério exige honestidade intelectual.[…]’. Um problema, debate de um lado só. Porque para uns faltam não só a ‘honestidade’, mas também o ‘intelecutal’.

  5. ‘Usufruir dos benefícios coletivos […]’. Quais? Existe educação publica, saude publica e segurança publica. Quem tem condições coloca a prole em escola particular, paga plano de saúde e contrata empresa de vigilancia. Paga para ter os serviços e são na base do que ‘é o que a casa tem para oferecer’. Paga duas vezes aliás.

  6. ‘O que chamam de “excesso de Estado” nada mais é do que a tentativa […]’. De chamar atenção para o fato do governo brasileiro arrecadar muito, gastar muito, gastar mal (geralmente em coisas eleitoreiras sem critério nenhum) e usar o ‘social’ como escudo.

  7. ‘[…] muitos desses críticos falam a partir de posições de conforto social, racial e econômico, construídas ao longo de décadas — ou séculos — de privilégios naturalizados.’ Se foi construído não é privilégio, envolveu esforço e sacrificio. Não foi de elevador, foi pela escada.

  8. ‘Ao negar políticas compensatórias, esses críticos fingem que o ponto de partida é o mesmo para todos, […]’. Ninguém finge nada, se o ponto de partida não ajuda o esforço individual tem que ser maior. O resultado não pode ser um presente dado numa bandeja. O nome disto é clientelismo.

  9. ‘[…] retórica da meritocracia enquanto ignora, deliberadamente, os abismos históricos que estruturam a sociedade brasileira.’ ‘Divida histórica’ faz parte da ideologia Vermelha, não é ponto pacifico. Não é a lei da gravidade.

  10. ‘Essa postura não é apenas incoerente; é politicamente desonesta.’ Mensalão, Petrolão, INSS, isto é politicamente honesto?

  11. ‘Rejeitam programas de transferência de renda, mas vivem em cidades menos violentas, com economia local aquecida […]’. Bahia é um dos estados com mais beneficiados pelo Bolsa Familia. Dado de julho de 2025, 2,38 milhões de familias beneficiadas. Alas, 2,19 milhões de pessoas com emprego formal. Dados de 2024, Bahia tem 40,6 homicidios por 100 mil habitantes, esta entre os tres estados mais violentos da federação.

  12. ‘Atacam políticas de saúde, mas recorrem ao SUS quando o plano privado falha.’ E os que vivem defendendo o SUS (seria ótimo, excelente, ‘melhor do mundo’), mas só utilizam o plano de saúde? Inclusive aqui em SM! Alas, certos procedimentos são regulados pelo SUS por força de lei. Transplante de órgãos por exemplo

  13. ‘Criticam o acesso ampliado à educação pública, mas formaram-se em universidades mantidas pelo Estado.’ Para começo de conversa, não existe ‘meio cidadão’ ou ‘meia cidadã’. CF88 diz que ‘é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato’. Não tem um ‘mas’ depois. Tipo ‘mas se fez graduação numa instituição publica não pode falar mal da instituição ou das politicas que lhe afetam’. Compreensivel, trabalhismo anda de braço dado com o Benito.

  14. ‘Há um tipo recorrente de crítica política que não nasce do compromisso com o bem comum, […]’. Quem define o que é ‘bem comum’?

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