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Os pesos e as medidas do brasileiro médio – por Giorgio Forgiarini

“Que os comentários aos textos aqui do site não cessem”, roga o articulista

Sempre gostei de ler comentários em redes sociais. Mesmo que as redes sociais não sejam um exato reflexo da sociedade, é fato que os comentários populares ali colocados trazem indícios significativos das peculiaridades e tendências ideológicas da população.

Faço o mesmo com os comentários feitos nos textos daqui desta página. Leio, louvo, com carinho, com acato, com atenção, justamente por entender que servem, sim, para ilustrar as formas de pensar que permeiam nossa sociedade.

Em junho do ano passado escrevi aqui neste site artigo intitulado “O triste desalento dos educadores no Brasil” (link no fim do texto). Naquele texto mencionei a dura realidade do magistério nacional, precarizado, desvalorizado, assoberbado, que esperneia contra uma estrutura arruinada e contra o excesso de intervenções externas. Um magistério que não consegue sequer ter acesso a um reles piso remuneratório, mesmo estando fixado em lei desde os idos de 2008.

Fiz menção ao caso de uma professora que, com 26 anos de magistério, revelou na tribuna da Câmara de Santa Maria que “cogitava abandonar a profissão”. 

Nos comentários, pois, li algo jocoso. Desdenhoso das agruras que ali eram explicitamente narradas. “Coitadismo, professores as vítimas da vez”, escreveu alguém.

Os reclamos da classe dos professores, que não extrapolam o cumprimento estrito da lei, foram comparados a birras de pessoas mimadas. “Todo servidor público reclama que trabalha demais e ganha de menos”, também foi comentado.

A preocupação com as contas públicas também apareceu na linha de raciocínio do mesmo leitor comentarista. “Não existe almoço grátis, se colocarem uma montanha de dinheiro na educação vai faltar em outro lugar”. Surgiu até mesmo o argumento da Reserva do Possível. “Se alguém que manje de direito for perguntado vai mencionar o Princípio da Reserva do possível”, disse o respeitável opinante.

Tudo bem. É do jogo. É aceitável a quem quer que seja considerar que professores são mimados e reclamam de barriga cheia, muito embora essa afirmação não tenha base nenhuma na realidade. É plenamente concebível também a invocação do “Princípio da Reserva do Possível”, segundo o qual o Estado deve assumir responsabilidades no exato limite dos recursos de que dispõe. Está tudo certo!

No entanto, é recomendável que a régua usada para tratar de uns seja a mesma para tratar de outros.  

Eis, pois, que, nas últimas semanas venho escrevendo artigos aqui tratando das decisões de Flávio Dino acerca das ilegalidades nas remunerações de membros do Judiciário e adjacências. Sem enaltecimentos a Flávio Dino. Ninguém deve ser enaltecido por dizer o óbvio.

Mas me chamou a atenção o teor significativamente condescendente dos comentários daquele mesmo emissor de opinião que não teve pudor nenhum em escarnecer da penúria dos profissionais do magistério.

No último artigo, intitulado “Buzina em avião, cinzeiro em moto e… greve da magistratura” que publiquei aqui semana passada (link abaixo), abordei o tema mencionando apenas algumas das incongruências jurídicas que fazem com que a remuneração da elite do serviço público no Brasil destoe de maior parte da população brasileira.

A reação que encontrei (e que pode ser lida por todos) foi quase de… comiseração. “Há magistrados largando a carreira também”, escreveu o leitor. “Já vi juiz não aceitar promoção a desembargador para não ter que mudar para capital”, apôs noutro comentário, quase me arrancando lágrimas. Me surpreendeu tanta empatia e compreensão para com as vicissitudes da categoria.

Por outro lado, nenhuma menção ao princípio da reserva do possível. Às favas com as contas públicas. Quem se importa com elas? “Direito adquirido é direito fundamental, artigo 5º”, mencionou noutro tópico, mais uma vez, quase me trazendo a comoção.

Mais ilustrativo está o trecho de outro tópico em que o comentarista usa uma sentença de Karl Marx para justificar o pagamento do auxílio-moradia à magistratura em valor superior ao salário inteiro de boa parte dos professores do Brasil: “De cada um de acordo com sua capacidade, a cada um de acordo com suas necessidades”.

Tá, eu confesso. Não sei se o opinante foi irônico ou se realmente acredita que uns têm capacidades e necessidades dez, vinte, trinta vezes maiores que outros pelo simples fato de pertencerem a categorias diferentes. Mas enfim.

A questão é que, se um Juiz ou Promotor recebe trinta vezes mais que um professor, é porque boa parte da população consente com isso. Se mesmo fixado em lei, um piso salarial é negado aos professores, ao passo em que benefícios flagrantemente ilícitos seguem sendo pagos aos magistrados, é porque a população não se importa que assim aconteça. Exatamente como deu a entender o comentarista. 

Enfim, este artigo não tem por objetivo detratar, diminuir ou desdenhar deste ou daquele emitente de opinião. Nem sequer sei se foi ele sarcástico ou não. Foi tão somente fazer alusão ilustrativa a essa peculiaridade do pensamento de parcela significativa da população brasileira, que ideologicamente estabelece distância tão grande entre categorias que deveriam estar muito mais próximas.

Rogo, “alas”, que os comentários aos textos aqui do site Claudemir Pereira não cessem. Fornecem elementos fantásticos para compreender a mentalidade do brasileiro médio. Simples assim!

(*) Giorgio Forgiarini é advogado militante, com curso de Direito pela Universidade Franciscana, é Mestre em Ciências Sociais e Doutor em História pela Universidade Federal de Santa Maria. Ele escreve nas madrugadas de sábado.

(https://claudemirpereira.com.br/2025/06/o-triste-desalento-dos-educadores-no-brasil-por-giorgio-forgiarini/)

(https://claudemirpereira.com.br/2026/02/buzina-em-aviao-cinzeiro-em-moto-e-greve-da-magistratura-por-giorgio-forgiarini/)

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23 Comentários

  1. Resumo da opera IV. ‘[…] os comentários aos textos aqui do site Claudemir Pereira [..]’. Claudemir com P. é gente boa.

  2. Resumo da opera II. Pelos numeros que encontrei são 750 juizes e juizas no RS. Mais de 20 mil professores efetivos e outro tanto temporario. Penduricalhos devem ser enfrentados, mas não é isto que vai resolver o problema do magisterio. O argumento ‘moral’ foi pelo ralo.

  3. Resumo da opera. Nunca tentei ser juiz. Ou promotor. Ficar boa parte do dia sentado, esfregando a barriga numa mesa, produzindo textos e resolvendo problemas dos outros. Vida é uma só. Sem falar que os concursos não são fáceis. Logo capacidade também é um quesito.

  4. ‘[…] para compreender a mentalidade do brasileiro médio.’ Bom! Se estou na média significa que 50% é mais burra do que eu!

  5. ‘[…] que ideologicamente estabelece distância tão grande entre categorias que deveriam estar muito mais próximas.’ Deveriam? Por que? Por que a Teologia Vermelha defende a igualdade? Menos a Nomenklatura que é ‘mais igual’ que os outros?

  6. ‘Enfim, este artigo não tem por objetivo detratar, diminuir ou desdenhar deste ou daquele emitente de opinião.’ Se não dou muita importancia para minha opinião por que daria para a dos outros?

  7. ‘[…] ao passo em que benefícios flagrantemente ilícitos seguem sendo pagos aos magistrados, é porque a população não se importa que assim aconteça. Exatamente como deu a entender o comentarista.’ População não é tão burra quanto acham as zelites (incluindo as Patotinhas locais). A opinião que conta é a de quem decide. ‘Democraticamente’. Como a maioria está no ‘corre’ não tem tempo para ficar ‘filosofando’.

  8. ‘[..] ao passo em que benefícios flagrantemente ilícitos seguem sendo pagos aos magistrados […]’. Quem decide isto são os magistrados. Como os parlamentares, decidem qual o proprio salario. O resto do serviço publico também quer.

  9. ‘[…] justificar o pagamento do auxílio-moradia à magistratura […] o comentarista usa uma sentença de Karl Marx […]’. Distorção obvia do que foi escrito (um truquezinho antigo). Ou problema de compreensão. A frase de Marx é para jogar luz na teologia Vermelha. Questionava se achavam que um professor deveria ganhar o mesmo que um magistrado. Em Cuba um medico ganhar 50 dolares, melhor trabalhar de garçom num hotel turistico.

  10. ‘[…] justificar o pagamento do auxílio-moradia à magistratura em valor superior ao salário inteiro de boa parte dos professores do Brasil.’ A realidade editada. Na verdade a escolha do auxilio-moradia como exemplo foi infeliz. Um dos penduricalhos com ‘justificativa’ legal. Auxilio paletó, ferias duplas, etc. não tem explicação nenhuma. Informação alem disto esta errada, auxilio-moradia é pouco mais de 4,3 mil e o piso do magisterio esta mais do que 5 no RS. O ‘boa parte’ é um chute.

  11. ‘Me surpreendeu tanta empatia e compreensão para com as vicissitudes da categoria.’ Quando alguém escreve alguma coisa não pode esperar ser compreendido por todos. A parte do ‘é um problema de RH’ ficou de fora. A parte do ‘não dá para adivinhar o problema no ar condicionado’ (um subtexto) também ficou. Não tem espaço para desenho, mas se pagar 500 pila para um juiz (ou juiza) vamos ter um juiz de 500 pila. Nada garante que milão não ‘resolva qualquer problema’.

  12. ‘[…] emissor de opinião que não teve pudor nenhum em escarnecer da penúria dos profissionais do magistério.’ É muito mais dificil virar juiz ou promotor do que virar promotor. Simples assim. Responsabilidade? Liberdade e patrimonio. Vide Xandão. Educação no pais nunca foi uma maravilha, despenca ladeira abaixo segundo exames internacionais. ‘Especialistas’ em educação e magistério não tem responsabilidade nenhuma sobre o fato? A culpa é dos outros? Alguem acha que pagando salario de magistrado para os professores vai alterar alguma coisa na qualidade da educação do pais?

  13. ‘[…] acerca das ilegalidades nas remunerações de membros do Judiciário e adjacências.’ Um dos comentarios foi ‘o problema dos penduricalhos existe’. Alas, pessoal do judiciario é a bola da vez. Noutros foros foi o pessoal da medicina.

  14. ‘No entanto, é recomendável que a régua usada para tratar de uns seja a mesma para tratar de outros.’ Só perguntar para um bom advogado o que é principio da isonomia. O tratamento deve ser igual para iguais e desigual para os desiguais, na medida de suas desigualdades. ‘Todo mundo igual’ é um caminhão cheio de melancias.

  15. Principio da reserva do possivel. ‘[…] a efetivação dos direitos sociais (saúde, educação, moradia) pelo Estado depende da existência de recursos financeiros disponíveis […]’. Utilizado com assiduo em decisões judiciais. Vermelhos não acreditam nisto. Por isto a gastança. Montanha de tributos. Causidicos apelam para o coitadismo para defender os ‘superendividados’. E quando a União ficar superendividada vão reclamara para quem? Para o Papa?

  16. ‘ “Não existe almoço grátis, se colocarem uma montanha de dinheiro na educação vai faltar em outro lugar”.’ E não vai resolver o problema na educação. Vide os ultimos 20 anos. ‘Investimento’ aumentou e o desempenho no PISA afundou. São o que os numeros dizem. Jogar dinheiro no problema. Se não resolver, negócio é jogar mais dinheiro.

  17. ‘ “Todo servidor público reclama que trabalha demais e ganha de menos”, também foi comentado.’ Padrão greve na UFSM nos antigamente. ‘Greve por melhores condições de trabalho e por melhores salarios’. Vinha o aumento salarial e acabava a greve. Condições de trabalho? Que trabalho? Nota para os imbecis: obvio que é uma generalização.

  18. ”“Coitadismo, professores as vítimas da vez”, […]’. Sim. porque estamos no Brasil. Tem muita gente em situação muito pior do que os professores. Luta de classes é sempre contra quem está em cima.

  19. ‘[…] revelou na tribuna da Câmara de Santa Maria que “cogitava abandonar a profissão”.’ O que estava impedindo ela? Padrão servidor publico. Querem definir a carga horaria, o horario (na UFSM não querem bater ponto), as folgas, as ferias e o proprio salario.

  20. ‘Um magistério que não consegue sequer ter acesso a um reles piso remuneratório, mesmo estando fixado em lei desde os idos de 2008.’ Problema. O piso é o basico sobre o qual incide todas os adicionais (penduricalhos?) ou se refere a soma total do basico com os adicionais?

  21. No Japão um professor de ingles ganha o mesmo que um operario de fabrica. São os professores que ganham pouco ou os operarios que ganham muito?

  22. Comentarios são passatempo. Diletantismo. Cada um coloca a importancia que quiser. Olhando daqui meus comentarios tem importancia nenhuma. Porém os mais antigos estavam acostumados com outro padrão. Antigamente havia figuras como Jorge Alberto Beck Mendes Ribeiro. Quando escrevia ou falava não tentava doutrinar ninguem. Tentava esclarecer. Educava. Formado em jornalismo, filosofia e direito. Encerrava o comentario na emissora com um ‘foi um privilegio ter estado com voces’.

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