“Blue Moon”: da infância à decadência – por Roselâine Casanova Corrêa
‘Retrato melancólico de um artista em ruína. Tanto na carreira, quanto na vida’

Alcoolismo. Depressão. Abandono. Essa tríade – por si só devastadora – alia-se a um porte físico nada atraente, em um artista em fim melancólico de carreira. Essa é a premissa de “Blue Moon”, dirigido pelo estadunidense Richard Linklater, que teve estreias limitadas nos EUA, em outubro/2025 e está disponível nas plataformas digitais da Apple TV+ e na Prime Vídeo. Concorreu ao Oscar/2026 em duas categorias: Melhor Ator (Ethan Hawke) e Melhor Roteiro Original (Robert Kaplow). Contudo, não levou as estatuetas.
Estrelado por Ethan Hawke (Lorenz Hart), Margaret Qualley (Elizabeth Weiland), Bobby Cannavale (Eddie) e Andrew Scott (Richard Rodgers), o longa se passa em uma única noite (31/3/1943), na estreia do musical “Oklahoma!”, de Richard Rodgres, parceiro artístico de Hart, por 25 anos.
Ou seja, todo o filme se passa dentro de um bar, onde Lorenz Hart bebe sem parar, na mesma medida em que fala de sua vida, da qual ele próprio define como decadente. Seu interlocutor, o barman Eddie – o ótimo Cannavale – é um confidente sereno, porém preocupado com o consumo excessivo de álcool e a saúde mental abalada do cliente/amigo, em seu brinde derradeiro.
O movimento da câmera, os enquadramentos, o figurino, o espaço limitado, a calvície camuflada, tudo, enfim, colabora (intencionalmente) para a impressão física diminuta do protagonista. Trata-se do retrato melancólico de um artista em ruína. Tanto na carreira, quanto na vida. Talento e solidão do criador da canção “Blue Moon”, que dá título ao longa. Hart escreveu a letra em parceria com o compositor Richard Rodgers (1934). E faleceu meses após a estreia do musical do amigo (“Oklahoma!”), caído em uma rua de Nova York, aos 48 anos, vítima de pneumonia. A canção – um clássico popular – foi regravada por Frank Sinatra, Elvis Presley e The Marcels.

A encenação de “Blue Moon” é absolutamente teatral. A trama se passa, em grande medida, em um único cenário – o bar Sardi’s (Manhattan) – com um elenco enxuto e longos diálogos. E intermináveis monólogos de Hart, que parece não se importar em não ter um interlocutor o tempo todo, tampouco em nutrir um amor não correspondido. Essa configuração confere ampla atenção do espectador para o protagonista, magistralmente interpretado por Ethan Hawke.
Embora não seja exatamente um filme fácil de assistir, é inegável o encanto de cada pausa, de cada olhar, de cada silêncio, expressos em retalhos de uma alma sendo levada pelas circunstâncias. O ator combina um desempenho ao mesmo tempo contido e exuberante. Mas também uma realidade devastadora, expressa na oscilação da narrativa do protagonista, que vai do entusiasmo ao desvario. Na companhia constante de um copo de whisky!
A parceria entre o ator (Hawke) e o diretor (Linklater) vem de longa data, o que, em certa medida, colabora para retratar o declínio humano com beleza e compreensão, sem resvalar no fio perigoso da piedade. O homem que escreveu versos espetaculares sobre o amor, foi incapaz de vivê-lo em plenitude. Em certo ponto, pareceu desistir. E a vida não foi generosa com ele. Foi esquecido rápido demais, feito a “lua azul” – quando há duas luas cheias em um mesmo mês – que ilumina o céu por instantes, para logo desaparecer.
Pereceu longe dos aplausos, em um crepúsculo solitário do fim de uma carreira e de uma vida, de forma sombria e exaurida. E tinha total consciência disso. A primeira cena já aponta para essa finitude quase trágica de um letrista que sintetiza sua vida, em um diálogo com o barman: “Fui direto da infância para a decadência”!

(*) Roselâine Casanova Corrêa é Professora de História. Graduada em História (UFN), com especialização em História do Brasil (UFSM); Museologia (UFN) e mestrado em História (PUC/RS). Foi membro do COMPHIC (2012-2022). Também é, com o jornalista Bebeto Badke, idealizadora do “Projeto Amnésia: descubra Santa Maria”. Rose escreve sobre cinema, às quintas-feiras, nesse site.





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