Artigos

Feminicídio: visibilidade sem resultado? – por Marcelo Arigony

“...As mortes não cedem. Esse dado, por si só, deveria nos inquietar”

Nunca se falou tanto sobre feminicídio.

Nunca se divulgou tanto.

Nunca se legislou tanto.

O Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo no enfrentamento da violência contra a mulher. O feminicídio é qualificadora do homicídio, com penas que podem chegar a 40 anos de prisão. O tema ocupa espaço diário nos noticiários, nas redes sociais e nos debates públicos.

E, ainda assim, as mortes não cedem.

Esse dado, por si só, deveria nos inquietar.

Se ampliamos a visibilidade, endurecemos a lei e mantemos o debate ativo, por que o resultado não acompanha? Em algum ponto, algo não está funcionando — ou está faltando algo que ainda não estamos enxergando.

Em outras áreas sensíveis, como o suicídio, a própria comunidade científica recomenda cautela na forma de divulgação. Não se trata de silêncio, mas de responsabilidade: evitar repetição exaustiva, sensacionalismo e narrativas que possam influenciar comportamentos.

No feminicídio, a discussão ainda é incipiente. Não há evidência consolidada de efeito imitativo como no suicídio. Mas há uma pergunta que merece ser feita: qual é o efeito de uma exposição constante, repetitiva e, muitas vezes, descontextualizada da violência?

É preciso cuidado para que a cobertura não se limite ao fato consumado, ao número atualizado e à comoção momentânea. Quando isso acontece, o risco é transformar a violência em rotina – e rotina, em matéria de tragédia, anestesia.

Não se trata de defender menos visibilidade. Trata-se de questionar como estamos olhando para o problema.

Talvez estejamos acertando no diagnóstico penal, mas falhando na inteligência preventiva. Talvez estejamos reagindo bem – e prevenindo mal.

E talvez o erro não esteja em falar demais sobre feminicídio, mas em falar sem produzir mudança real.

Porque, quando tudo muda na forma – e nada muda no resultado — a pergunta deixa de ser retórica.

E passa a ser necessária.

(*) Marcelo Arigony é Advogado e Professor, ex-Delegado da Polícia Civil. Ele escreve no site às quartas-feiras.

https://arigonyadvocacia.com

Artigos relacionados

ATENÇÃO


1) Sua opinião é importante. Opine! Mas, atenção: respeite as opiniões dos outros, quaisquer que sejam.

2) Fique no tema proposto pelo post, e argumente em torno dele.

3) Ofensas são terminantemente proibidas. Inclusive em relação aos autores do texto comentado, o que inclui o editor.

4) Não se utilize de letras maiúsculas (CAIXA ALTA). No mundo virtual, isso é grito. E grito não é argumento. Nunca.

5) Não esqueça: você tem responsabilidade legal pelo que escrever. Mesmo anônimo (o que o editor aceita), seu IP é identificado. E, portanto, uma ordem JUDICIAL pode obrigar o editor a divulgá-lo. Assim, comentários considerados inadequados serão vetados.


OBSERVAÇÃO FINAL:


A CP & S Comunicações Ltda é a proprietária do site. É uma empresa privada. Não é, portanto, concessão pública e, assim, tem direito legal e absoluto para aceitar ou rejeitar comentários.

8 Comentários

  1. ‘Não se trata de defender menos visibilidade.’ Virou cavalo de batalha ideologico. Como a misoginia. Maioria tem coisa melhor para fazer.

  2. ‘Quando isso acontece, o risco é transformar a violência em rotina – e rotina, em matéria de tragédia, anestesia.’ Numero de 2025 é algo como 1500. No trienio 2023 a 2025 foram 17 mil casos de cancer de utero.

  3. ‘Em outras áreas sensíveis, como o suicídio, a própria comunidade científica recomenda cautela na forma de divulgação.’ Lenda urbana. Existe um aumento na taxa mundial nos ultimos anos. Alas, a taxa de suiciddios entre homens é 3 a 4 vezes maior do que entre mulheres.

  4. ‘O Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo no enfrentamento da violência contra a mulher.’ Cascata do juridico. Há paises sem legislação e o indice é menor. Suécia 0,2 por 100 mil habitantes.

  5. ‘“…As mortes não cedem. Esse dado, por si só, deveria nos inquietar”. ‘Nós’ quem cara-pálida? Vide que junto com o problema vem a tentativa infantil de ‘vender’ um coletivismo?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo