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Fim da civilização – por Orlando Fonseca

“Embarcar na aventura bélica com o Irã (...) é um erro estratégico”

Quando Donald Trump, o todo poderoso comandante-em-chefe da maior potência bélica do planeta, ameaçou o Irã, dizendo que “uma civilização inteira iria desaparecer”, foi isso mesmo o que pensei. Nestas alturas, em pleno século XXI, o chefe de uma nação civilizada dizer isso, em plena consciência (?), é o fim da picada, é o fim da civilização. Trump seria uma contrafação, ou o arauto de uma nova era da qual não temos a menor ideia? Não sei se ele mesmo a tem, se está escrevendo a História ao contrário de tudo o que conhecemos até agora.

Por isso desconfio desde o início, em face de suas bravatas, diatribes e fanfarronices; comportamento errático que está desenhando uma nova ordem mundial por linhas tortas. Talvez por essa razão ele acredite ser deus, mas quando falou em “uma civilização” estava falando dos Persas – e isso quem passou pela escola tem noção do que significa: um império fundado no século VI a.C.  

O império americano, dirigido por esse senhor topetudo, tem apenas dois séculos e meio (completados este ano) e está em franca decadência. As democracias modernas começaram com sua independência, a ciência e a cultura mundial foram influenciadas por seus luminares e artistas. No entanto, hoje a Europa tem trem bala, a China tem um modelo econômico que está conduzindo-a para o topo, a Índia está à frente em produção tecnológica. As formações de um bloco sul-sul está colocando em xeque a antiga economia global baseada no dólar.

Para muitos analistas, embarcar na aventura bélica com o Irã, estimulada pelo parceiro Israel, é um erro estratégico. O cientista político, John Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago, argumenta que “a guerra expôs os limites do poder militar de Washington, enfraqueceu Israel, abalou a economia internacional e acelerou transformações profundas na ordem global”.

Por sua vez, para quem passou pelos bancos escolares e guardou as lições de história, o país atacado pelo exército de Trump é sucedâneo de um povo que está entre as mais antigas civilizações do Planeta: os persas. A região do atual Irã era a sede do império fundado por Ciro, conhecido por sua extensão, riqueza e administração eficiente. Graças às conquistas territoriais empreendidas por Dario I e Xerxes I, tornou-se o maior império do mundo conhecido no seu apogeu.

Praticavam a agricultura, a pesca, o artesanato, a metalurgia e a mineração de metais e de pedras preciosas. Eram bons no comércio, construíam estradas de pedras, para facilitar o transporte, trocas de mercadorias e  correio. São precursores da economia monetária: Dario I criou o dárico, a moeda que foi unificada no vasto território. Tinham um exército tão poderoso que era conhecido pelos gregos como “Imortais”, conhecidos também por usarem elefantes em batalha. Foi preciso outro grande imperador para dar fim ao império que durou 230 anos: o macedônio Alexandre, o Grande.

Trump percebeu que os Estados Unidos não tinham uma via plausível para escalar o conflito sem mergulhar em uma catástrofe ainda maior. Por isso o recuo. Embora o Irã tenha sido devastado por sanções e ataques, o fato de controlarem o estreito de Ormuz ainda permite que tenha uma enorme influência na ordem geopolítica atual. Por seu lado, os Estados Unidos continuam poderosos, mas muito menos capazes de impor sua vontade. Desse modo, ficamos a nos indagar: qual o significado histórico de um país como os Estados Unidos ser governado por uma pessoa com esse comportamento errático? Que declínio espiritual e moral – sem levar em conta a natureza política – poderia ter levado a um resultado tão extremo?

Para Giorgio Agamben, filósofo italiano, o “estado de exceção” se tornou a norma na política moderna, onde a vida em sua essencialidade (a vida biológica desprovida de direitos) é o foco do poder soberano. Trump é um exemplo agudo, com outras experiências nacionais menores mas não menos catastróficas, que estão asfixiando as democracias pelo mundo. Entre o fim da picada e o fim da civilização, creio existir um pouco de racionalidade e o elemento principal do conceito: a civilidade. Preciso acreditar nisso para não perder de vez a fé na humanidade.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela “Da noite para o dia”.

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20 Comentários

  1. Resumo da opera II. Margaret MacMillan. Oxford. ‘A história é mal utilizada quando é intencionalmente distorcida, selecionada a dedo ou simplificada em excesso para servir a agendas políticas, fomentar o ódio ou justificar ações atuais.’ Também ‘Catástrofes não são inevitáveis, mas frequentemente resultam de erros humanos, escolhas e complacência..’

  2. Resumo da opera. Filósofo John Gray ‘O progresso humano é um mito ou ilusão, distinguindo o conhecimento científico acumulado e o desenvolvimento moral/social estagnado.’ ‘A tecnologia avança, mas o comportamento humano não, pois continuamos guiados por impulsos biológicos inatos, tornando o progresso ético reversível e, muitas vezes, temporário.’

  3. ‘Entre o fim da picada e o fim da civilização, creio existir um pouco de racionalidade e o elemento principal do conceito: a civilidade. Preciso acreditar nisso para não perder de vez a fé na humanidade.’ Todo mundo acha que é racional. Um professor perguntou para a sala, eu estava presente, e apos fazer a afirmação perguntou ‘Quem aqui acha que é maluco?’. Fé é religião. Ianques tem um termo ‘rationalization’. IA. ‘Um mecanismo de defesa em que os indivíduos justificam comportamentos, pensamentos ou sentimentos inaceitáveis ​​com desculpas aparentemente lógicas para evitar verdades incômodas.’

  4. ‘[…] que estão asfixiando as democracias pelo mundo.’ Viktor Orbán acabou de ser defenestrado. Eleito deve ter feito promessas. E boneco da Comunidade Europeia. Em dezembro de 2023 a Comunidade Europeia começou a congelar fundos da Hungria, atualmente esta no patamar de 20 bilhões de euros. Quem atenta contra a democracia? E so cruzar os braços.

  5. ‘[…] ser governado por uma pessoa com esse comportamento errático? Que declínio espiritual e moral […]’. Isto é juizo de valor e propaganda. Alas, Putin já esteve para morrer umas tres vezes e o exercito russo já entrou em colapso uma meia duzia de vezes. A Ucrania esta ganhando a guerra porque a Russia não consegue tomar mais territorio. E os mais de 1 milhão de mortos ucranianos é coisa da Globo.

  6. ‘Trump percebeu que os Estados Unidos não tinham uma via plausível para escalar o conflito sem mergulhar em uma catástrofe ainda maior.’ Vermelhos são mestres da telepatia. Não adianta se esconder numa sala supersecreta.

  7. ‘Por seu lado, os Estados Unidos continuam poderosos, mas muito menos capazes de impor sua vontade.’ Exercito ianque tem o XVIII Corpo de Exército Paraquedista. Pode começar em qualquer lugar do planeta em 18 horas, no minimo uma brigada. Tinham outra medida, uma divisão em 24 horas. Nada disto esta sendo utilizado no Iran.

  8. ‘Por sua vez, para quem passou pelos bancos escolares e guardou as lições de história […]’. Para informações irrelevantes hoje basta usar o Google e a Wikipedia. Como Vermelhos gostam de recapitulações para encher linguiça e mostrar uma falsa erudição.

  9. ‘Por sua vez, para quem passou pelos bancos escolares e guardou as lições de história, o país atacado pelo exército de Trump é sucedâneo de um povo que está entre as mais antigas civilizações do Planeta:[…]’. Cascata. E uma teocracia.

  10. “a guerra expôs os limites do poder militar de Washington, enfraqueceu Israel, abalou a economia internacional e acelerou transformações profundas na ordem global”. Limitação é politica. Uma guerra oficial precisa de autorização do Congresso. Vide Iraque. Unico problema é a diminuição do estoque estrategico de munições ianque. Israel enfraqueceu porque a economia foi para o saco. Economia internacional já teve dias piores. Transformações na ordem global, estava funcionando antes do Trump ou era só imagem e marketagem? Não que o Agente Laranja tenha ‘acertado’. Mesmo com informações faltando, não se sabe os motivos e nem os objetivos, existe também a possibilidade do erro. Vide Iraque.

  11. ‘As formações de um bloco sul-sul está colocando em xeque a antiga economia global baseada no dólar.’ Kuakuakuakuakuakua! Nem falam mais nos Brics. De-lhe propaganda de coisas que não existem. Por conta da guerra na Ucrania congelaram reservas da Russia e na Europa. Semana passada a França retirou dos EUA 15 bilhões de dolares em ouro fisico. Movimento começou em julho de 2025, já tirou 129 toneladas da Reserva Federal ianque.

  12. ‘[…] a Índia está à frente em produção tecnológica.’ Tem um problema gigantesco de pobreza da população e indice de desenvolvimento humano.

  13. ‘[…] a China tem um modelo econômico que está conduzindo-a para o topo […]’. China está em deflação. Estourou a bolha do mercado mobiliario. Também o problema da divida publica, alto endividamento, etc. Está patinando apesar da propaganda dos Vermelhos onde lá é tudo de bom, tudo dá certo, etc.

  14. ‘No entanto, hoje a Europa tem trem bala,[…]’. Distancias são diferentes. População ianque esta concentrada no litoral. Quatro nucleos. Massachusetts, Washington (o estado), Florida e a Republica Socialista da California. Avião é a solução. Alas, a Republica Socialista da California esta construindo um trem bala. Iniciou em 2008, ligaria São Francisco a Los Angeles, custo de 33 bilhões de dolares. Previsão de termino era 2020. Hoje liga o nada a lugar nenhum. Previsão de custos pulou para 126 bilhões, termino em 2040. Problema é que falta dinheiro, não querem colocar no orçamento.

  15. ‘O império americano, […] está em franca decadência.’ Concordo. Com banda de musica. Europa idem. Questão toda é a ‘inércia’. China tem vantagens, é um ditadura, controle. Que erra também. Mas é um povo mais disciplinado. Detalhe importante: ninguém tem bola de cristal.

  16. ‘[…] mas quando falou em “uma civilização” estava falando dos Persas – e isso quem passou pela escola tem noção do que significa: um império fundado no século VI a.C.’ E derrubado por Alexandre, o grande, há 2300 anos atras. Civilização Xiita. Que tem origem quando um monarca iraniano declarou o xiismo como religião oficial e importou ‘professores’ do sul do Libano.

  17. ‘[…] é o fim da picada, é o fim da civilização.’ Pois então, narrativa, discurso, portugues, hiperbole. Para quem so tem um martelo na mão todo problema é prego.

  18. ‘[…] ameaçou o Irã, dizendo que “uma civilização inteira iria desaparecer”, foi isso mesmo o que pensei.’ Ainda por cima ‘da bola’ para que o Agente Laranja escreve.

  19. “Embarcar na aventura bélica com o Irã (…) é um erro estratégico”. Diz o grande estrategista e professor de portugues. Kuakuakuakuakuakua!

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