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Quando foi a última vez que você parou para escutar música? – por Rosito Zepenfeld Borges

‘O ato de escutar foi (...)substituído pelo de apenas “ter música tocando”

Lembro dos idos anos 80, quando eu era, talvez, um pré-adolescente, no Distrito de Boca do Monte e existia um hábito era extremamente comum: escutar música. Sempre havia um momento do dia, poderia ser depois das aulas, antes de fazer as tarefas ou mesmo depois do jantar que a atividade ocorria, religiosamente. Discos do Iron Maiden, Nirvana e outras bandas da época. Rock nacional, preferencialmente gaúcho, também aparecia nos momentos.

Antigamente, escutar música era mais do que um hábito – era um encontro. Havia um certo compromisso silencioso entre o ouvinte e o som. Escolher um disco, posicionar a agulha, apertar o play de um CD ou mesmo aguardar a música tocar no rádio eram pequenos rituais que exigiam presença. A nova geração não deve saber o que é isso, mas nós ligávamos para a rádio, entrávamos na programação ao vivo e pedia a música favorita. Não sei se isso existe ainda. A música não dividia espaço: ela ocupava o centro. Era comum sentar-se para ouvir um álbum inteiro, acompanhar cada faixa, perceber nuances, deixar-se atravessar pela experiência.

Hoje, embora a música esteja mais acessível do que nunca, algo essencial se transformou. Ela não desapareceu – ao contrário, está em todos os lugares -, mas perdeu, em muitos casos, o protagonismo. Tornou-se pano de fundo para outras atividades: trabalha-se ouvindo música (inclusive enquanto escrevo esse artigo estou escutando música), dirige-se ouvindo música, conversa-se enquanto a música toca. O ato de escutar foi, em grande medida, substituído pelo de apenas “ter música tocando”. A atenção, fragmentada por múltiplos estímulos, já não repousa com facilidade em uma única experiência.

Essa mudança dialoga profundamente com as reflexões de Zygmunt Bauman sobre a chamada modernidade líquida. Para o autor, vivemos em uma sociedade marcada pela fluidez, pela transitoriedade e pela constante substituição. Nada parece feito para durar – nem relações, nem interesses, nem mesmo a nossa atenção. Nesse contexto, a escuta musical também se torna líquida: rápida, dispersa, facilmente interrompida, sempre pronta para ser trocada pela próxima faixa, pelo próximo estímulo, pela próxima notificação.

Se antes a música convidava à permanência, hoje ela se adapta à lógica da aceleração. Playlists substituem álbuns, trechos virais substituem composições completas, e o silêncio – elemento essencial para a escuta – torna-se raro. A experiência musical passa a ser consumida em fragmentos, muitas vezes sem profundidade, refletindo exatamente o tipo de relação que, segundo Bauman, estabelecemos com o mundo: superficial, volátil e constantemente mediada por novas demandas.

No entanto, essa transformação não precisa ser encarada apenas como perda. Ela também revela uma possibilidade de escolha. Em meio à fluidez, resgatar momentos de escuta atenta pode ser um ato quase de resistência. Parar para ouvir uma música – de fato ouvir – torna-se uma forma de desacelerar, de recuperar a presença e de estabelecer uma conexão mais significativa com aquilo que nos cerca.

Talvez a questão não seja simplesmente que deixamos de escutar música como antes, mas que deixamos de nos permitir experiências profundas em geral. E, nesse sentido, revisitar o hábito de ouvir com atenção pode ser mais do que um gesto nostálgico: pode ser um caminho para reencontrar, ainda que por alguns minutos, uma forma mais sólida de estar no mundo em meio à liquidez que nos atravessa.

(*) Rosito Zepenfeld Borges é Engenheiro de Segurança do Trabalho. Ele escreve no site às segundas-feiras.

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