“A Mulher Mais Rica do Mundo”: intrigas e corrupção – por Roselâine Casanova Corrêa
“... Assiste-se a um jogo de xadrez onde as peças se movem rapidamente”

Uma das maiores fortunas do Europa, traições, brigas familiares e corrupção. Essa é a história da herdeira do grupo L’Oreal, Liliane Bettencourt (1922-2017), considerada pela Revista Forbes, como a 10ª pessoa mais rica do mundo (2015). Não é pouca coisa, contudo, sua vida privada era tão movimentada quanto sua conta bancária. Sobretudo, quando entra em sua vida o fotógrafo François-Marie Banier, declaradamente homossexual. Ainda que haja suspeitas de que tenha tido um affair com Bettencourt.
O longa “A Mulher Mais Rica do Mundo” (La Femme La Plus Riche Du Monde/2025) tem tido exibições no Brasil, por meio de mostras de cinema francês, desde o início de abril/2026 e pode ser visto no Prime. É inspirado na vida de Liliane Bettencourt (Isabelle Huppert), sua amizade com o fotógrafo Banier (Laurent Lafitte) e os embates constantes com a filha Françoise Bettencourt Meyers (Marina Foïs). Na trama, os nomes foram alterados para Marianne Farrère, Pierre-Alain Fantin e Frédérique Spielman, respectivamente. A direção é do francês Thierry Klifa.
Liliane Henriette Charlotte Schueller herdou a L’Oréal de seu pai, Eugène Schueller, que fundou a empresa – hoje líder global em cosméticos – em 1909. Teve um casamento longevo, porém distante, com o político André Bettencourt (1919-2007). Ambos – pai e marido – foram considerados apoiadores de grupos fascistas, como La Cagoule (O Capuz), um grupo francês violento, de tendência fascista e anticomunista. Nunca pisou em uma fábrica, não foi CEO da empresa, mas a colocou no topo, com gestores profissionais, visão a longo prazo e investiu pesado em pesquisas. Era também ligada à filantropia.
Havia, em sua mansão, um séquito de 20 funcionários muito bem remunerados. Quando sua filha Françoise moveu um processo de interdição da mãe (2007), alguns deles colaboraram com a filha, como o mordomo Pascal Bonnefoy (Raphaël Personnaz) e a contadora Claire Thibout.

A partir daí, assiste-se a um jogo de xadrez onde as peças se movem rapidamente, na mesma medida em que os envelopes cheios de dinheiro bailam no escritório de madame Bettencourt. Até chegar ao financiamento da campanha do então presidente francês Nicolas Sarkozy, em 2007. E ao sofisticado esquema de evasão fiscal, elaborado pelo administrador da herdeira, Patrice de Maistre.
O longa foi visto com reserva pela crítica especializada – sobretudo a Variety – que o considerou mediano, apesar das atuações excepcionais. As cenas da milionária com o dândi/fotógrafo são tão divertidas quanto era enfadonho seu casamento com um homem que preferia a companhia do mordomo.
O figurino presta-se a delinear a imagem de poder e sofisticação, bem como a fragilidade psicológica da personagem. Os tons em vermelho, azul ou preto e cortes precisos de alfaiataria, destacam a elegância fria da herdeira, complementada por lindos lenços ao redor do pescoço. E, claro, a atuação de Huppert confere a sofisticação necessária, que contrasta com a tensão entre mãe e filha, a manipulação descarada do fotógrafo e a presteza do mordomo em gravar tudo que acontece na mansão.
Esse conjunto fica ainda mais destacado pelo tom amarelado da fotografia, como se outono fosse durante toda a narrativa. Na realidade, a protagonista – no longa e na vida – estava em seu entardecer solitário e confuso.
Xeque-Mate!
Observação: O documentário sobre Liliane Bettencourt, “A bilionária, o Mordomo e o Namorado” (2023), está na Netflix.

(*) Roselâine Casanova Corrêa é Professora de História. Graduada em História (UFN), com especialização em História do Brasil (UFSM); Museologia (UFN) e mestrado em História (PUC/RS). Foi membro do COMPHIC (2012-2022). Também é, com o jornalista Bebeto Badke, idealizadora do “Projeto Amnésia: descubra Santa Maria”. Rose escreve sobre cinema, às quintas-feiras, no site.





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