Aposentadoria: deveres cumpridos, direitos ameaçados – por Lenir Keller
Antes do pleito, prefeitura anuncia finanças equilibradas. Após, “crise profunda”

A aposentadoria é o ato que representa a passagem do trabalhador ou da trabalhadora para a inatividade após o cumprimento dos requisitos legais de idade e/ou tempo de contribuição, garantindo o direito à remuneração mensal. Antes disso, servidores e servidoras dedicaram anos de suas vidas ao exercício de suas funções, cumprindo seus deveres profissionais e contribuindo regularmente para o sistema previdenciário. Ou seja, a aposentadoria não é privilégio, mas um direito conquistado após uma trajetória de trabalho e contribuição.
No entanto, a relação equilibrada entre deveres e direitos nem sempre se sustenta. Enquanto as exigências e responsabilidades ao longo da vida laboral são extensas, os direitos historicamente conquistados acabam sendo fragilizados ao longo do tempo, tanto durante a vida ativa quanto na aposentadoria.
Embora os princípios da Previdência Social no Brasil estejam assegurados pela Constituição Federal -garantindo cobertura universal, dignidade humana, equilíbrio econômico e solidariedade social -, a realidade vivida por muitos aposentados e aposentadas é marcada pela perda de direitos, pela redução do poder de compra e pelo enfraquecimento das condições de vida. Essa realidade também atinge os servidores aposentados do município de Santa Maria.
Como amplamente divulgado pela imprensa, a gestão municipal iniciou, em 2025, o debate sobre a reforma do sistema previdenciário do município, justificando a medida a partir da alegação de déficit financeiro. A proposta estava centrada, principalmente, no aumento das alíquotas de contribuição de servidores ativos e inativos – um aumento significativo e extremamente preocupante para a categoria.
Desde então, o tema passou a ocupar espaço em pronunciamentos oficiais, campanhas publicitárias e apresentações de dados financeiros que apontariam a Previdência como um dos principais entraves para investimentos e desenvolvimento da cidade. Nesse contexto, aposentados e aposentadas passaram a ser tratados, de forma injusta, como responsáveis pela crise financeira do município, enquanto outras questões, como falhas de gestão, dificuldades de arrecadação e prioridades administrativas, acabaram ficando em segundo plano.
É importante lembrar que, até outubro de 2024, antes das eleições municipais, a administração anunciava publicamente que as finanças da Prefeitura estavam equilibradas. Poucos meses depois, porém, instalou-se um discurso de crise profunda nas contas públicas.
Enquanto isso, aposentados e aposentadas passaram a conviver com insegurança, medo e desconfiança social. Muitas vezes, são alvo de discursos injustos e desrespeitosos, apesar de suas aposentadorias terem sido concedidas conforme a legislação vigente e aprovadas pelo Tribunal de Contas do Estado.
Diante desse cenário, é necessário refletir: podem os servidores aposentados ser apontados como os grandes responsáveis pelas dificuldades financeiras do município? A quem interessa fortalecer esse discurso? E quais são os impactos humanos e sociais dessa narrativa?
O fato é que os efeitos já são sentidos por quem dedicou décadas ao serviço público. Hoje, aposentados e aposentadas convivem com a preocupação constante em relação ao aumento dos descontos previdenciários, à possibilidade de perda de direitos e até mesmo ao temor de atrasos em seus pagamentos. O presente e o futuro passam a ser marcados pela insegurança, pela angústia e pela incerteza.
(*) Lenir Keller éprofessora aposentada e integrante da coordenação do Sindicato dos Professores Municipais (Sinprosm). Este artigo foi originalmente publicado no site da entidade (AQUI)





Resumo da opera. Bom terminar num tom otimista. Daqui para frente é só ladeira abaixo.
‘O presente e o futuro passam a ser marcados pela insegurança, pela angústia e pela incerteza.’ Bem vindos ao Brasil.
‘[…] ao aumento dos descontos previdenciários, à possibilidade de perda de direitos e até mesmo ao temor de atrasos em seus pagamentos.’ Se o texto fala em equilibrio financeiro e atuarial não existe ‘perda de direitos’. Aposentadoria é o que a casa tem para oferecer. Quanta gente passou na iniciativa privada descontando para receber 10 salarios minimos e agora recebe menos? Dois e pouco? Atrasos já não são novidade no RS.
‘ E quais são os impactos humanos e sociais dessa narrativa?’ Vermelhos estão mais preocupados com o mimimi do que com soluções.
‘[…] apesar de suas aposentadorias terem sido concedidas conforme a legislação vigente e aprovadas pelo Tribunal de Contas do Estado.’ Estão reclamando do quê então?
‘Enquanto isso, aposentados e aposentadas passaram a conviver com insegurança, medo […]’. Bem vindos ao mundo real. Ou alguém acha que na iniciativa privada tem muita gente com o boi na sombra?
‘[…] antes das eleições municipais, a administração anunciava publicamente que as finanças da Prefeitura estavam equilibradas.’ Antes disto foi criado um ‘observatorio social’. Contadores(as), advogados(as), etc. Gente ‘especializada’. Problema é que foi aparelhado pelas patotinhas. Ninguém abriu o bico.
‘Nesse contexto, aposentados e aposentadas passaram a ser tratados, de forma injusta, como responsáveis pela crise financeira do município, […]’. Numa empresa seria contratada uma auditoria independente para dar nome aos bois. Aqui não vai rolar.
‘[…] como um dos principais entraves para investimentos e desenvolvimento da cidade.’ Cascata. Grande maioria dos que falam em ‘desenvolvimento da cidade’ não tem a minima ideia sobre o assunto. Servidores publicos, professores universitarios, pessoal do juridico. Há mais de 20 anos falam em ‘turismo’, ‘polo logistico’, etc. O mesmo pessoal que falava em ‘capital do Mercosur’. Chegou-se ao cumulo de um secretario usar a burocracia de BSB como desculpa para não ir atras de um aeroporto. Alas, querem uma pista que comporte aviões maiores. Porque avião pequeno tem passagem cara e não é lucrativo. Demanda da aldeia não é tão grande. Com um avião maior juntam aeroportos e criam uma linha aerea pinga pinga com passagens mais acessiveis.
Governo Possochato bateu no limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal. Pelo que me lembro deu reajuste para os servidores mesmo assim. Retribuiu os votos?
‘[…] o debate sobre a reforma do sistema previdenciário do município, […]’. Não é a primeira pelo que me consta e não será a ultima.
‘[…] assegurados pela Constituição Federal -garantindo cobertura universal, dignidade humana, equilíbrio econômico e solidariedade social […]. Fixação na CF. No RGPS fala em equilibrio financeiro e atuarial. Regime proprio idem. Detalhe importantissimo. Se o sistema juridico brasileiro pudesse ser resumido na CF o curso de direito não precisaria durar 5 anos. A legislação derivada importa e muito. Vide teto salarial do funcionalismo.