O Brasil voltou a crescer. O brasileiro ainda não voltou a respirar – por José Renato Ferraz da Silveira
Então, “o país melhora. Mas melhora devagar demais para quem vive na base”

O Brasil voltou a crescer. Mas talvez estejamos diante de uma das mais sofisticadas ilusões estatísticas da história recente do país.
Os novos dados da PNAD Contínua do IBGE mostram um cenário aparentemente animador: recorde histórico de renda média, expansão do consumo, desemprego menor e recuperação gradual do mercado de trabalho. Em números frios, o país parece finalmente respirar depois de anos de crise, pandemia, inflação e corrosão social.
Mas a pergunta central talvez seja outra.
Quem exatamente está melhorando no Brasil?
Porque existe uma diferença brutal entre crescimento econômico e transformação estrutural. E o país continua confundindo as duas coisas.
O Brasil de 2026 parece viver uma espécie de prosperidade ansiosa. A renda sobe, mas a sensação coletiva de insegurança permanece. O consumo cresce, mas o supermercado continua funcionando como um lembrete diário da fragilidade social brasileira. O desemprego cai, mas grande parte da população ainda vive aprisionada em ocupações precárias, baixa produtividade e informalidade estrutural.
O problema brasileiro nunca foi apenas produzir riqueza. O problema histórico brasileiro é a forma como essa riqueza circula – ou, mais precisamente, a forma como ela não circula.
Os números revelam algo profundamente simbólico: os 10% mais ricos do país continuam recebendo quase 14 vezes mais do que os 40% mais pobres. Em qualquer democracia madura, isso seria tratado como um alerta estrutural. No Brasil, frequentemente é tratado apenas como mais um dado estatístico.
E talvez esteja aí uma das tragédias nacionais.
O país naturalizou a desigualdade.
Naturalizou condomínios murados ao lado da precariedade urbana. Naturalizou escolas privadas de excelência convivendo com colapsos educacionais permanentes. Naturalizou uma elite econômica integrada ao capitalismo global enquanto milhões permanecem presos em um capitalismo periférico de sobrevivência.
O crescimento recente melhora indicadores. Mas não altera a arquitetura histórica da desigualdade brasileira.
E isso possui consequências políticas profundas.
O governo Lula aposta corretamente na recuperação da renda, no aumento do consumo e na valorização do salário mínimo como motores de estabilização social e política. Existe racionalidade econômica nisso. Circulação de renda produz dinamismo econômico. O problema é que renda sem produtividade elevada possui limites.
Países desenvolvidos não enriquecem apenas porque trabalham mais. Eles enriquecem porque produzem tecnologia, inovação, complexidade industrial e ganhos permanentes de produtividade.
O Brasil ainda opera preso a uma armadilha histórica: cresce pelo consumo, mas encontra enormes dificuldades para crescer pela sofisticação econômica.
E talvez seja exatamente isso que explique o mal-estar difuso da sociedade brasileira contemporânea.
A macroeconomia melhora antes da vida parecer realmente melhor.
O indicador sobe antes da sensação de estabilidade chegar ao cidadão comum.
O governo olha para gráficos positivos. A população olha para o preço da carne, do aluguel, da gasolina e do plano de saúde.
Essa diferença entre percepção social e estatística econômica tornou-se um dos grandes motores da instabilidade política contemporânea no Ocidente — e o Brasil não está imune a isso.
Os números da economia brasileira hoje não são falsos. Eles são reais. O crescimento existe. A recuperação parcial também.
Mas os dados revelam igualmente outra verdade incômoda: o Brasil continua incapaz de democratizar plenamente oportunidades, produtividade e mobilidade social.
O país melhora.
Mas melhora devagar demais para quem vive na base.
E talvez essa seja a definição mais precisa do Brasil contemporâneo: uma nação economicamente funcional, politicamente tensionada e socialmente incompleta.
O Brasil produz mais riqueza.
Mas continua falhando em produzir pertencimento econômico para milhões de brasileiros.
E nenhuma democracia permanece estável por muito tempo quando crescimento e esperança deixam de caminhar juntos.
(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).





ATENÇÃO
1) Sua opinião é importante. Opine! Mas, atenção: respeite as opiniões dos outros, quaisquer que sejam.
2) Fique no tema proposto pelo post, e argumente em torno dele.
3) Ofensas são terminantemente proibidas. Inclusive em relação aos autores do texto comentado, o que inclui o editor.
4) Não se utilize de letras maiúsculas (CAIXA ALTA). No mundo virtual, isso é grito. E grito não é argumento. Nunca.
5) Não esqueça: você tem responsabilidade legal pelo que escrever. Mesmo anônimo (o que o editor aceita), seu IP é identificado. E, portanto, uma ordem JUDICIAL pode obrigar o editor a divulgá-lo. Assim, comentários considerados inadequados serão vetados.
OBSERVAÇÃO FINAL:
A CP & S Comunicações Ltda é a proprietária do site. É uma empresa privada. Não é, portanto, concessão pública e, assim, tem direito legal e absoluto para aceitar ou rejeitar comentários.