Os “Faustos” de Vorcaro – por Leonardo da Rocha Botega
Caso Master e seu líder (chefe?), 'Mefistófeles da aliança centrão-bolsonarismo'?

Durante o final do Período Medieval surgiram referências populares a uma figura diabólica chamada Mefistófeles, um dos servos de Lúcifer – o anjo belo e sábio que, por se rebelar contra Deus, foi expulso do céu. Mefistófeles se tornou muito popular e ganhou forma definitiva no livro Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe, uma das principais obras da literatura em língua alemã e um clássico da literatura universal.
Na obra, Mefistófeles faz um pacto com o Doutor Fausto, que entrega sua alma em troca de conhecimento ilimitado, poder e satisfação mundana. A cena IV do livro descreve Mefistófeles preparando todo um cenário para a realização do pacto. Em meio a essa preparação, o sujeito diabólico pronúncia uma frase emblemática: “o melhor do que você sabe não pode ser dito aos meninos”.
Com a popularização do livro de Goethe, cujo a primeira parte foi publicada em 1808 e a segunda em 1832, o termo mefistofélico passou a ser referência para sujeitos perversos ou maldosos que agem de maneira sedutora e astuta. Já o termo faustiano tornou-se uma forma de descrever pessoas que buscam incansavelmente o poder, independente dos custos, da moralidade e da ética.
Desde o final do ano passado, uma figura mefistofélica passou a ganhar destaque no cenário nacional: Daniel Vorcaro, um empresário com diversificada ramificação de negócios que se destacou como acionista majoritário e presidente do Banco Master. Vorcaro foi autor de uma das maiores fraudes bancárias e financeiras da História recente do Brasil, o que resultou inclusive na própria liquidação do Banco Master.
As denúncias contra as fraudes do Banco Master surgiram nos rastros das investigações sobre as fraudes que ocorriam no INSS desde 2017 e que se intensificaram a partir de 2019. Chama atenção a tentativa frustrada de sua compra pelo Banco de Brasília (BRB), em uma operação que, segundo tem sido amplamente noticiada, envolveu o próprio governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha.
De lá para cá, para além das denúncias do lobby de Ibaneis, inúmeras ramificações do caso Master começaram a surgir. Inicialmente, as relações de Vorcaro com alguns ministros do Supremo Tribunal Federal. Depois alguns “bodes” começaram a ser colocados na sala para que “o que se sabe não pudesse ser dito aos meninos”. Até mesmo um Power Point fajuto foi utilizado para vender a imagem de uma corrupção “de todos”.
Porém, em meio a tentativa de esconder “o melhor do que alguns sabem” criando distrações e malabarismos, a realidade começou a ser exposta. Em uma semana os reais “Faustos” de Vorcado começaram a aparecer. Além de doações feitas as campanhas de Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e do Partido Novo, Daniel Vorcaro mantinha um pacto com o senador Ciro Nogueira, que recebia uma mesada de cerca de 500 mil reais.
Ciro Nogueira, que foi o todo poderoso ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro, apresentou inclusive um projeto de emenda constitucional que ajudaria a dar aspectos de legalidade as fraudes do Banco Master. Em troca, além da mesada, teve viagens e diárias de hotéis que chegaram a R$ 135 mil pagas pelo amigo banqueiro.
Além do cacique do Partido Progressista, Daniel Vorcaro teve (e tem) outros “Faustos”. O “filho 01” do ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro é um desses. O áudio, divulgado pelo portal Intercept Brasil, do pedido de R$ 134 milhões feito pelo senador ao banqueiro indica isso. Apesar de Flávio tentar minimizar a relação, ninguém chama de “irmão” alguém com quem “nunca teve relações” ou é apenas um “conhecido”.
A própria justificativa do valor pedido por Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro, qual seja, o financiamento do filme sobre o pai, é um tanto quanto estranha. O filme, dirigido pelo bolsonarista Mario Frias, seria o mais caro da história do cinema brasileiro. Até mesmo o valor repassado por Vorcaro, R$ 64 milhões, é superior ao que foi gasto com a maioria dos filmes que ganharam o Oscar nos últimos anos.
A postura de Flávio Bolsonaro diante da revelação do áudio levanta suspeitas. O senador primeiramente afirmou que o áudio era uma mentira. Depois justificou dizendo que era “dinheiro privado”, como se todo dinheiro privado tivesse origem limpa. Ao que parece algo “não pode ser dito aos meninos”, principalmente o que pode revelar o teor do pacto mefistofélico bolsonarismo-Banco Master.
Na literatura, Doutor Fausto acabou não cumprindo o pacto e não entregou sua alma para Mefistófeles. As revelações sobre Ciro Nogueira e Flávio Bolsonaro não indicam que os “Faustos” de Vorcaro tenham seguido o mesmo caminho do original. Quanto mais vem à tona o que foi dito, feito e o que não poderia ser dito, mais o caso do Master aponta Vorcaro como o Mefistófeles da aliança centrão-bolsonarismo.
(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve regularmente no site, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).





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