Os pacientes de Asclépio – por Marcelo Arigony
“Às vezes, a morte não chega devagar. Não avisa. Não prepara a casa...”

Às vezes, a morte não chega devagar.
Não avisa. Não prepara a casa.
Ela simplesmente se apresenta sem pedir licença.
Nesta semana perdi um grande amigo.
Foi cedo demais. Sem tempo para despedidas. Sem tempo para a família compreender o que estava acontecendo.
E talvez seja isso o mais duro numa perda prematura: o vazio eloquente que ela deixa.
Nessas horas a gente entende uma frase que meu pai costumava dizer:
“O sofrimento é de quem fica.”
Depois do silêncio do velório, a vida começa a mostrar o tamanho da ausência.
A casa muda.
A rotina muda.
Os amigos tentam entender o vazio.
A família procura forças para seguir em meio a responsabilidades que chegam cedo demais.
E nós, pacientes, pouco a pouco também começamos a perceber que alguém importante não estará mais ali.
A morte não deixa apenas saudade.
Deixa desorientação.
Deixa uma lacuna em um espaço tão essencial na vida dos outros que sua ausência parece desorganizar o ambiente ao redor.
De repente, quem sempre acolheu já não pode mais acolher.
Quem orientava já não responde mais.
Quem transmitia serenidade agora passa a existir apenas na memória de quem ficou.
E quase nunca há preparo para isso.
Vivemos pacientemente como se sempre houvesse tempo.
Tempo para organizar a vida.
Tempo para dividir responsabilidades.
Tempo para conversar sobre o futuro.
Tempo para dizer o que realmente importa.
Adiamos conversas difíceis.
Empurramos decisões importantes.
Tratamos a ausência como uma hipótese distante.
Até que ela deixa de ser hipótese.
Talvez por isso certas perdas pareçam tão injustas.
Porque quem fica ainda estava vivendo como se houvesse muito tempo pela frente.
E talvez os pacientes de Asclépio sejamos todos nós.
Os que acreditavam que ainda haveria tempo.
E os que agora precisarão aprender a conviver com a ausência de alguém que passou a vida cuidando da dor dos outros.
(*) Marcelo Arigony é Advogado e Professor, ex-Delegado da Polícia Civil. Ele escreve no site às quartas-feiras.





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