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Desabafo cinéfilo – por Bianca Zasso

Os momentos que antecedem a entrada do espectador na sala de cinema são decisivos. Esta que vos escreve gosta de se concentrar, esquecer os problemas, as contas e que fazer no jantar para mergulhar na história que virá a seguir, seja ela feliz ou triste. Mas o que seria de nós sem a diferença, não é mesmo? A concentração da grande maioria dos espectadores, em especial nos cinemas comerciais, está em como mastigar a pipoca ou quantos refrigerantes são necessários para matar sua sede durante a exibição. São esses também que costumam sair do cinema reclamando que o filme era calmo demais. Parece que a ação se sobrepôs a luz e a câmera. Parece que para ser bom, tudo tem que explodir, gritar, pegar fogo e ter mil luzinhas.

Claro que a função primeira do cinema sempre foi o entretenimento, durante décadas a sétima arte foi a diversão dos mais pobres, que fugiam da dura realidade embarcando nas aventuras de mocinhos e bandidos. Mas em meio a uma turma que adora a grandiosidade na tela, eu me pergunto: será que só a tecnologia e os efeitos especiais são capazes de nos manter com os olhos atentos na tela?

É em momentos assim que eu me pergunto por que essa juventude (sim, estou velha) dá tanto valor para tramas mirabolantes, cheias de reviravolta e com ritmo frenético. Não vou negar que é muito divertido tentar descobrir quem é o assassino ou ser surpreendido por um final que foge dos padrões. Mas o cinema não é só novidade. O cotidiano, as pequenas rusgas familiares, os amores, as descobertas mais sutis também rendem filmes. Antes de um orçamento gigante e um protagonista famoso, um filme é uma história.

A simplicidade de O lado bom da vida, filme dirigido por  David O. Russell e que deu o Oscar de melhor atriz para a jovem Jennifer Lawrence, fez da produção uma surpresa na premiação. Seus concorrentes eram grandiosos, bem ao gosto dos espectadores que se preocupam mais com as guloseimas que com a trama. Mas O lado bom da vida fala de superação, com um protagonista que tem uma jornada pela frente para ter uma vida melhor. É a simplicidade com tempero de sucesso.

Diferente, por exemplo, de um filme como As baleias de agosto, de Lindsay Anderson, que conta a vida de duas irmãs que vivem à beira-mar. Uma é rabugenta e não vê a hora de morrer enquanto a outra tenta sempre tirar alegria das pequenas coisas. Não há truque, nem mundo encantado e ninguém surge para salvá-las da solidão que toma conta de seus cotidianos. É só a história de duas mulheres que viveram e possuem as suas saudades e cicatrizes. Sem explosões ou raio-laser, As baleias de agosto é um dos mais belos filmes já realizados, seguindo o estilo do mestre Michelangelo Antonioni, que está mais preocupado com o tédio que nos persegue do que com a fantasia que tantos querem viver.

Por isso, meu querido colega de fila, eu lhe peço com carinho de mãe: dê valor ao roteiro, leia a sinopse, escolha com atenção o que vai assistir e não se iluda com a ideia de que todo filme caro é um filme bom. Ah, também não julgue o filme antes de assisti-lo, isso é falta de educação. Acredite, ver pessoas comuns passando por situações comuns pode ser divertido. Digo mais, pode mudar a sua vida.

E, antes de me despedir, jogue o lixo no lixo. O chão do cinema é sagrado.

Bjus da Bia.

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