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O vício do scroll infinito – por Marcelo Arigony

Como o gesto mais banal da internet virou símbolo do vazio digital

O scroll virou um gesto automático. Um dedo desliza, o conteúdo muda. De novo, e de novo. Nem sempre se sabe o que se está buscando ali – e, muitas vezes, o tempo se dissolve nesse movimento sem que a gente perceba.

Eu mesmo presto atenção a isso. Não é por acaso. Ao longo dos anos, aprendi a reconhecer os ciclos de distração, os gatilhos de ansiedade e a forma como certas plataformas são desenhadas para capturar tempo, não atenção. Quando falo sobre o vício do scroll, falo observando um fenômeno real, que afeta muita gente – mesmo os mais conscientes.

O scroll infinito – essa função aparentemente inofensiva, presente em quase todas as redes sociais – virou um dos símbolos mais potentes da nossa relação fragmentada com o tempo e com a atenção. Ele não tem fim. E é justamente por isso que vicia.

O projeto é intencional. Plataformas são desenhadas para que a próxima imagem, o próximo vídeo, o próximo texto estejam sempre a um deslize de distância. E quando tudo está sempre prestes a vir, nada se sustenta por muito tempo. A gente consome sem absorver. Passa por tudo, mas não se detém em nada.

E isso já tem reflexo claro no perfil de quem chega à universidade. Muitos alunos entram no ensino superior com dificuldade real de concentração. Sentem-se ansiosos diante de um texto mais denso, incomodados com o silêncio de uma aula sem estímulos visuais, ou desmotivados quando o conteúdo exige paciência. Não é desinteresse – é consequência de uma rotina digital que fragmenta o foco e condiciona o cérebro à resposta imediata.

Às vezes, o impacto é ainda mais visível: aquele aluno que só leu o título da aula. Que quer a resposta antes da pergunta. Que estranha quando sugerimos um artigo jurídico para leitura – e se for um livro, então, parece quase uma provocação. É nesse ponto que o scroll deixa de ser um detalhe técnico e passa a ser um obstáculo à formação intelectual.

Temos mais acesso à informação do que nunca – e, ao mesmo tempo, menos presença. O conteúdo virou ruído. O dedo desliza, mas a cabeça não acompanha. E quando a gente percebe, já passou tempo demais sem ter estado, de fato, em lugar algum.

Não se trata de demonizar a tecnologia. Mas de entender que há um jogo de atenção em curso – e que nele, nem sempre somos jogadores conscientes. O vício não é só digital. É existencial. Estamos buscando alguma coisa – talvez sentido, talvez distração – e encontramos apenas mais movimento.

É preciso reaprender a parar. A ler um texto até o fim. A ouvir um vídeo inteiro. A ficar numa página sem sentir ansiedade. A recuperar, pouco a pouco, a autonomia sobre o próprio tempo.

O scroll infinito não é apenas um gesto repetido.

É o reflexo do tempo que a gente perdeu – e ainda não percebeu.

Talvez a lucidez comece quando tivermos coragem de parar.

(*) Marcelo Arigony é Advogado, ex-Delegado da Polícia Civil e atual Diretor da ULBRA Santa Maria. Ele escreve no site às quartas-feiras.

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12 Comentários

  1. ‘É preciso reaprender a parar. A ler um texto até o fim. A ouvir um vídeo inteiro. A ficar numa página sem sentir ansiedade. A recuperar, pouco a pouco, a autonomia sobre o próprio tempo.’ O mundo gira num sentido, não volta atras. É preciso os docentes tirarem a bunda de cima das mãos e adaptarem suas aula aos novos tempos. Aula expositiva como antigamente não dão Ibope.

  2. ‘Não se trata de demonizar a tecnologia.’ Até porque a tecnologia não esta nem ai para a opinião alheia. Reportagem da CBS. Taxa de desemprego entre recém formados na Ianquelandia é algo como 50% maior do que a da população geral. Inteligencia artificial esta substituindo quem acabou de terminar a graduação. Entrevista ‘exemplo’ é deu um rapaz que terminou engenharia mecanica. Todos diziam para ele que era emprego garantido. Trabalha como encarredado nas piscinas de um clube, utiliza o diploma para nada. Remuneração não é de engenherio, obvio.

  3. ‘Temos mais acesso à informação do que nunca – e, ao mesmo tempo, menos presença. O conteúdo virou ruído.’ Nem pensar. A informação esta diluida no ruido. Alem disto muita ‘informação’ é irrelevante. Muda nada na vida das criaturas.

  4. ‘ Que estranha quando sugerimos um artigo jurídico para leitura – e se for um livro, então, parece quase uma provocação.’ Artigos juridicos tem muita encheção de linguiça. Além disto as novas gerações tem mais afinidade com videos do que com o texto. Pessoal é mais objetivo. Mais realista.

  5. Exemplos na mudança geracional. Mais jovens não gostam de jornadas longas de trabalho. ‘Geração Z não quer trabalhar’. ‘Geração Z não gosta de baladas e festas tradicionais’. Consumo de cerveja afundou na Alemanha e o de vinho afundou na França. O que isto tem a ver com smartphone?

  6. ‘ Não é desinteresse – é consequência de uma rotina digital que fragmenta o foco e condiciona o cérebro à resposta imediata.’ Artigos cientificos de psicologia tem taxa de reprodução dos resultados perto de 40%. Psicologia social tem um problema com estatistica multivariada e de metodo, saem a procurar ‘provas cientificas’ para conclusões já prontas.

  7. ‘ Sentem-se ansiosos diante de um texto mais denso, incomodados com o silêncio de uma aula sem estímulos visuais, ou desmotivados quando o conteúdo exige paciência.’ Se o assunto é chato e o docente ruim não tem como. A culpa é do celular.

  8. ‘O projeto é intencional. Plataformas são desenhadas para que […]’. Sim, existe uma ‘conspiração malefica’ para ferrar os usuarios! Kuakuakuakuakuakua!

  9. ‘Ao longo dos anos, aprendi a reconhecer os ciclos de distração, os gatilhos de ansiedade e a forma como certas plataformas são desenhadas para capturar tempo, não atenção.’ É um ‘genio’!

  10. ‘Eu mesmo presto atenção a isso.’ Alegoria da caverna de Platão. Os que ficam na caverna apoiam-se na experiencia pessoal.

  11. ‘Vicio do scroll infinito’ tem uma pitada de narrativa e ideologia. Primeiro porque é resposta simples, Segundo porque não existe ‘mundo perfeito’, vicio é algo que atinge poucos, dificilmente é algo generalizado.

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